Em 2026, a ONU instituiu o Ano Internacional da Mulher Agricultora, uma decisão que reflete a urgência de reconhecer o papel das mulheres no campo. No Brasil, de acordo com o último Censo Agropecuário, realizado em 2017, elas já somavam 6,1 milhões.  

Deste total, 4,37 milhões são trabalhadoras rurais, 946 mil dirigiam estabelecimentos rurais e 817 mil participavam como codiretoras.  

Apesar dos dados evidenciarem o papel fundamental dessas mulheres em um dos setores econômicos mais importantes do Brasil, elas ainda enfrentam sub-representação. Pensando nisso, a Agrishow Digital resolveu trazer, durante todo o ano, histórias de mulheres que vivem e transformam a agricultura diariamente.  

Nesta edição, entrevistamos Raissa Scian, fundadora da Swalmen Flores e Plantas, em Holambra (SP). Com uma trajetória que combina tradição familiar, visão estratégica e coragem, Raissa migrou do setor de marketing e eventos para o campo, liderando uma operação diversificada que inclui suculentas, plantas ornamentais e flores de corte, sempre com foco no comportamento do consumidor. 

Além de gerir sua empresa e conciliar a maternidade, Raissa é uma voz ativa na defesa do setor agro, combatendo a desinformação.  

Confira abaixo os melhores momentos da nossa conversa! Boa leitura!   

Como surgiu a decisão de apostar na produção de suculentas em Holambra? 

Somos uma empresa familiar com raízes no agro e no mercado de flores e plantas. Começamos, no início de 2016, a cultivar suculentas e hoje, além delas, produzimos plantas verdes, pendentes e flores de corte. Meu marido vinha do mercado de flores e plantas, porém pela outra ponta: era atacadista e comprava por meio da Cooperativa Veiling. O que ele mais gostava mesmo era estar no manejo; por isso decidimos unir a experiência dele no mercado à minha visão estratégica para criar a Swalmen. 

Muita gente nos pergunta a razão do nome da nossa empresa ser Swalmen. É uma homenagem a um homem muito corajoso e especial: nosso Opa. Wilhelmus Christians, o Opa (vovô em holandês), teve uma influência ímpar na vida de todos nós. Inteligentíssimo, questionador e sempre com os melhores conselhos, ele veio de Swalmen, na Holanda, para o Brasil em 1951 junto à sua esposa, nossa forte e amada Oma. Foi a partir desse ato de coragem que a história da nossa família e da nossa empresa começou. Então, em homenagem a ele, escolhemos o nome de sua cidade de origem para batizar o nosso sonho: Swalmen Flores e Plantas. 

Foto enviada por Raissa de Opa e Oma no dia que chegaram a Holambra.

Como foi a transição do marketing para o campo? 

Aconteceu de forma natural. Mesmo trabalhando em agências, eu já estava muito próxima do agro. O marketing me deu base em gestão, planejamento e relacionamento — habilidades essenciais hoje na produção. Quando mergulhei na operação, percebi que o agro é estratégia o tempo todo. Claro que precisei aprender a parte técnica, mas foi uma troca muito rica. 

Você sempre quis seguir carreira no agro? 

Cresci com o pé na terra, mas não planejava isso. Estudei moda, depois marketing, trabalhei em agência… mas sempre com clientes do agro. Após meu primeiro filho, virei consultora e novamente o agro estava lá. Em 2015, decidimos começar do zero como produtores. Foi a melhor decisão. Me apaixonei completamente pelo setor. 

Como é o seu dia a dia na produção? 

Começa cedo — antes das 7h já estou nas estufas. Hoje tenho ido direto para a produção: colheita, organização, manejo. Depois do almoço, entro no modo “ubermãe”, acompanhando as crianças enquanto sigo resolvendo demandas pelo celular. É uma rotina intensa, mas muito viva. 

Quais são os principais desafios no cultivo de plantas ornamentais? 

O manejo exige bastante, mas hoje o maior desafio é a falta de mão de obra. Temos que nos reinventar o tempo todo para dar conta da operação. 

Quais foram os maiores desafios da sua trajetória, especialmente como mulher? 

Conciliar vida profissional e maternidade foi o principal. Exige muito jogo de cintura. Mas esses desafios também me fortaleceram e ajudaram a construir minha segurança e autoridade. 

Como foi conciliar maternidade e campo na prática? 

Desafiador e maravilhoso. Meus filhos cresceram nas estufas e entendem o valor do trabalho. Sempre conversamos sobre o que estamos construindo para eles, não são apenas estruturas, mas valores: trabalho honesto, amor pela natureza e orgulho da nossa história. 

Como você vê o avanço das mulheres no setor de flores e plantas? 

É um setor com forte presença feminina. Vejo isso com muita naturalidade, cada vez mais mulheres assumindo protagonismo, seja na sucessão familiar ou na gestão. É uma combinação de firmeza com sensibilidade. 

Quais tendências você enxerga para o mercado? 

Após a pandemia, o comportamento mudou. As pessoas descobriram o valor das plantas em casa. Isso se manteve. Vejo crescimento em jardinagem, paisagismo e assinatura floral. E também uma retomada forte do mercado de eventos, o que deve impulsionar as flores de corte. 

No Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais causas são prioritárias? 

A principal é combater a desinformação sobre o agro. Existe uma narrativa equivocada que culpa o setor por problemas ambientais, quando, na verdade, o agricultor é quem mais preserva. Precisamos comunicar melhor o que o agro realmente é: desenvolvimento, responsabilidade e geração de valor para a sociedade. 

Que mensagem você deixa para mulheres que querem entrar no agro? 

Estudem, se capacitem e confiem no conhecimento de vocês. Não precisam se masculinizar nem pedir permissão para ocupar espaço. Trabalhem com ética, coragem e firmeza. E lembrem-se: cada passo abre caminho para outras. Construam redes, apoiem outras mulheres e celebrem suas conquistas. 

Esta reportagem faz parte da série especial do Ano Internacional da Mulher Agricultora da Agrishow DigitalConheça mais mulheres que estão mudando o agro