O uso de bioinsumos já deixou de ser uma alternativa para se consolidar como parte relevante do manejo agrícola no Brasil. Na prática, os bioinsumos atuam no controle de pragas e doenças e também no estímulo ao crescimento das plantas, permitindo a redução gradual do uso de insumos químicos. A lógica não é de substituição imediata, mas de otimização do manejo ao longo do tempo.

“Com um manejo correto, o produtor consegue utilizar mais ativos biológicos e reduzir as doses de insumos químicos”, explica Marcia Mondin, da Ebycell, empresa que atua com consultoria em bioinsumos microbiológicos.

Diferentemente de muitos insumos tradicionais, os bioinsumos utilizam ativos nacionais, o que reduz a exposição ao dólar e aumenta a previsibilidade de custos para o produtor.

O contexto internacional tem reforçado esse movimento. Gargalos logísticos e tensões geopolíticas vêm impactando diretamente o custo de insumos importados, historicamente relevantes para a agricultura brasileira. “O fechamento de rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, elevou custos de frete e pressionou ainda mais os preços”, afirma Mondin.

Nesse cenário, soluções desenvolvidas localmente ganham espaço não apenas pela agenda ambiental, mas como estratégia de competitividade e proteção de margem.

Da Caatinga ao laboratório: a ciência por trás da resistência no campo

O avanço dos bioinsumos no Brasil também é resultado de décadas de pesquisa científica. Um dos exemplos vem da Embrapa, que desenvolveu uma tecnologia voltada à resistência à seca a partir da observação de uma planta típica da Caatinga.

Pesquisadores identificaram que a resiliência do mandacaru não estava apenas na planta em si, mas em uma rizobactéria presente em suas raízes. A partir dessa descoberta, foi possível desenvolver um bioinsumo capaz de atuar diretamente no sistema da planta.

A tecnologia melhora a retenção de água, reduz perdas por evaporação e aumenta a capacidade da cultura de atravessar períodos de estiagem sem comprometer a produtividade.

“O produtor consegue manter níveis próximos ao esperado mesmo em condições adversas”, explica Aníbal Santos, técnico da Embrapa Meio Ambiente.

Desenvolvido ao longo de anos de pesquisa e hoje no mercado em parceria com a iniciativa privada, o produto Auras, comercializado pela NOOA, reflete a aproximação entre ciência e aplicação prática no campo.

A busca por soluções biológicas cresce como resposta ao aumento do risco no campo devido às mudanças climáticas. Com eventos extremos mais frequentes, a prioridade deixa de ser apenas produtividade e passa a incluir proteção da safra.

“Não se trata apenas de produzir mais, mas de garantir que o produtor não perca o investimento que já fez”, afirma Rodolfo Carneiro, da NOOA.

Nanotecnologia avança e potencializa o uso de biológicos

Se os bioinsumos já se consolidam como base do manejo, novas tecnologias começam a ampliar ainda mais a eficiência no campo. É o caso da nanotecnologia aplicada à nutrição vegetal. O nanofertilizante FENIX-C, desenvolvido pela PBF Nutrientes, tem como proposta aumentar a produtividade e a resiliência das lavouras frente às mudanças climáticas.

Nos testes de campo, os resultados indicam ganhos superiores ao custo de aplicação. Em culturas como soja e feijão, por exemplo, o incremento de produtividade supera com folga o investimento. “É uma tecnologia que ajuda o produtor a enfrentar seca e irregularidade de chuvas, além de aumentar a eficiência do manejo”, explica Marcelo Domingos, CEO da PBF Nutrientes.

Um dos diferenciais está na sinergia com os bioinsumos. O produto atua como facilitador da interação entre solo, planta e microrganismos, potencializando a ação dos biológicos. “Não são tecnologias que competem, mas que se complementam”, afirma.

Do solo ao céu: biocombustíveis ampliam a eficiência no agro

A busca por eficiência também avança sobre a matriz energética do agro. Na aviação agrícola, o uso de biocombustíveis já é uma realidade consolidada. O Ipanema 203, da Embraer, líder no mercado brasileiro, é a primeira e única aeronave produzida em série no mundo a operar com etanol.

Além de reduzir as emissões, o uso do biocombustível também contribui para a redução de custos operacionais, reforçando a competitividade da atividade. “A Agrishow é uma oportunidade para apresentar soluções que entregam maior produtividade e menor custo. O Ipanema movido a etanol é um forte aliado para essas demandas”, afirma Sany Onofre, líder da Aviação Agrícola da Embraer.

A iniciativa faz parte da estratégia de descarbonização da companhia, alinhada a metas globais de sustentabilidade e à crescente demanda por soluções mais limpas no setor.