A principal feira de tecnologia agrícola da América Latina chega ao fim de sua 31ª edição. Ao longo de cinco dias, a Agrishow 2026 recebeu cerca de 197 mil visitantes e movimentou R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios. Mais do que os números, o que se viu nos corredores da feira aponta para uma direção clara: a tecnologia avança, e o agronegócio se reorganiza em torno da eficiência.

Hoje, o produtor dispõe de ferramentas para produzir mais com menos. Isso passa por reduzir custos operacionais, ganhar precisão no uso de insumos, acessar dados em tempo real e aumentar a previsibilidade na tomada de decisão — seja diante do clima, seja na gestão financeira da safra.

É nesse contexto que a Agrishow 2026 deixa um legado prático. Mais do que tendências, a feira evidencia critérios que já começam a orientar as decisões de investimento no campo para a próxima safra.

Crédito no agronegócio deve permanecer no radar

Para o produtor rural — seja pequeno, médio ou grande — as taxas de juros do Plano Safra 2025/26 passaram a ser um dos principais filtros de investimento. Com margens mais pressionadas, a lógica muda: o produtor posterga custos onde pode, mas preserva e até prioriza investimentos que sustentam produtividade e eficiência operacional.

Esse movimento ganha força diante das projeções positivas para a produção. A estimativa da Conab para a safra 2025/26, de 356,3 milhões de toneladas de grãos, reforça um cenário em que, mesmo com crédito mais caro, deixar de investir pode representar um risco maior do que investir.

Bancos e cooperativas apresentaram linhas e programas competitivos para contribuir com o investimento do produtor no campo. Para Tirso de Salles Meirelles, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, o agricultor busca investir e criar condições específicas para modernizar a produção e, assim, aumentar a produtividade.

“Hoje o agricultor busca cerca de 70% do Plano Safra por fora. Então, ele usa o que tem e ainda recorre a cooperativas e outras linhas de crédito disponíveis no mercado para fortalecer esse processo como um todo”, revela.

Eficiência financeira redefine o que entra no investimento do produtor 

Esse cenário já se traduz em mudança de comportamento. Na Agrishow 2026, o que se observou foi um produtor mais criterioso, que avalia com mais rigor cada investimento e incorpora o retorno financeiro como variável central da decisão.

“O cenário traz um momento de maior aprendizado, de busca por retorno e de fazer mais contas. E isso é positivo, no sentido de tornar o agronegócio cada vez mais profissionalizado, com foco no retorno sobre o investimento”, afirma Felipe Duch, superintendente nacional de Mega Produtor Rural do Banco do Brasil.

Mais do que cautela, o que emerge é uma nova disciplina financeira no campo. A exigência de que a máquina ou qualquer tecnologia se pague em menos tempo deixa de ser uma preferência e passa a ser condição. Em um ambiente de crédito mais caro, o produtor volta da feira mais seletivo, com critérios mais claros e decisões mais ancoradas em resultado.

IA e tecnologia embarcada se tornam indispensáveis no campo

Na Agrishow 2026, a inteligência artificial no campo se transformou em ferramenta de apoio à gestão. Para o produtor, isso já se traduz em ganho de eficiência operacional, redução de custos e acesso a dados em tempo real.

Entre os exemplos apresentados na feira está a Alice IA Multiagente, da Solinftec, uma plataforma que reúne diferentes agentes de inteligência artificial para apoiar desde a operação até a gestão de frotas. Na prática, funcionam como “assistentes digitais” que cruzam informações, identificam desvios e sugerem ações para melhorar o desempenho no campo.

Na pecuária, o avanço segue na mesma direção. Soluções como o Instabov AutoTag, da Belgo Arames, permitem o monitoramento individual do gado diretamente pelo celular, via aplicativo ou WhatsApp. O produtor passa a acompanhar a localização e comportamento dos animais em tempo real, ampliando o controle sobre o rebanho.

O movimento amplia o acesso a tecnologias antes mais restritas e ganha relevância sobretudo para o médio produtor, que passa a operar com mais previsibilidade e segurança sobre seu patrimônio.

Tecnologia antes restrita avança e amplia a mecanização na agricultura familiar 

A mecanização continua sendo um dos principais caminhos para aumentar a produtividade na agricultura familiar, especialmente nas etapas iniciais de transição do trabalho manual para o uso de máquinas. Para o pequeno agricultor, agora é possível encontrar equipamentos acessíveis e compatíveis com a realidade dessas propriedades, permitindo  a aderência à soluções mecanizadas que facilitam o dia a dia no campo.

Além disso, tecnologias como o piloto automático também já é uma realidade para esse perfil. Tratores compactos com essa tecnologia ajudam a reduzir falhas e sobreposições, e o sistema corrige automaticamente.

Com a conectividade embarcada, mesmo com um operador no trator, o produtor pode acompanhar à distância o desempenho e a localização da máquina, enquanto se dedica a outras atividades. Isso amplia o acesso a informações em tempo real e ajuda a tomar decisões mais rápidas e precisas no dia a dia da operação. 

Sustentabilidade avança como exigência de mercado e produção 

A Agrishow 2026 também evidenciou o avanço de iniciativas de sustentabilidade no campo, cada vez mais ancoradas em decisões práticas, acessíveis a produtores de diferentes portes. O uso mais racional da água, por exemplo, passa por tecnologias que aumentam a precisão das operações, como pulverizações direcionadas e sistemas que evitam desperdícios ao longo do ciclo produtivo.

Na prática, máquinas mais eficientes e o monitoramento constante das atividades permitem aplicar insumos na medida e no momento certos, reduzindo não apenas o consumo de água, mas também o impacto ambiental da produção.

Outra frente relevante está na gestão do solo e na condução da lavoura ao longo do tempo. Práticas como o plantio direto, a rotação de culturas e o uso de coberturas vegetais contribuem para manter a umidade, reduzir a necessidade de irrigação e aumentar a resiliência diante de eventos climáticos extremos.

A sustentabilidade também avança com o uso de dados. Ferramentas digitais e plataformas de monitoramento permitem identificar pontos de maior consumo de recursos e ajustar a operação de forma mais estratégica — seja para reduzir emissões, otimizar insumos ou melhorar a eficiência das máquinas.

Para a próxima safra, a tendência é clara: decisões de investimento passam a considerar, de forma cada vez mais integrada, retorno financeiro e eficiência no uso de recursos.

A 32ª Agrishow já tem data marcada: de 26 a 30 de abril de 2027. O intervalo até lá será decisivo para medir como as escolhas feitas agora se traduzem em resultado no campo.