A entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia pode representar uma mudança importante para a cafeicultura da Alta Mogiana, região de Franca reconhecida pela produção de cafés destinados ao mercado externo. O impacto mais direto não está no café verde, que já entra na Europa com alíquota zero, mas nos produtos industrializados, como o café torrado e o solúvel.

Hoje, segundo o gerente de comercialização da COCAPEC, Willian Cesar Freiria, o café solúvel brasileiro é taxado em 9% no mercado europeu, enquanto o café torrado paga alíquota de 7,5%. Com o novo tratado, essas tarifas devem ser reduzidas gradualmente até chegar a zero em um prazo de quatro anos.

“Isso traz muito mais competitividade para o nosso café pronto lá na gôndola do supermercado”, afirma Willian Cesar Freiria.

A mudança pode abrir espaço para um novo modelo de exportação, menos concentrado no envio do grão cru e mais voltado à comercialização de produtos com maior valor agregado. Na prática, isso significa que parte do valor hoje capturado pela indústria europeia no processo de torra, moagem e preparo do produto final poderia permanecer no Brasil.

Competitividade em relação a outros países produtores

A eliminação progressiva das tarifas também tende a aproximar o Brasil das condições comerciais já obtidas por concorrentes diretos, como Colômbia e Vietnã, que possuem acordos de livre comércio com a União Europeia.

Para a Alta Mogiana, que já tem a Europa como principal destino de exportação, especialmente no caso do café verde, a equiparação tributária pode fortalecer a presença do produto brasileiro em mercados relevantes. Entre os principais compradores citados estão Alemanha, Itália, Polônia e Grécia. A Alemanha, segundo o release, é o maior comprador mundial e também da cooperativa.

Esse movimento, no entanto, não elimina os desafios. A transição de um modelo baseado majoritariamente na venda de matéria-prima para outro com maior participação de produtos industrializados exige estrutura, competitividade e capacidade de atender às exigências do mercado europeu.

Sustentabilidade entra no centro da exportação

Além da questão tarifária, o acordo reforça a importância das exigências socioambientais para quem deseja acessar o mercado europeu. A partir de 31 de dezembro, entram em vigor regras que proíbem a importação, pela União Europeia, de café produzido em áreas desmatadas após 2020.

“O produtor vai ter que se adaptar. Nosso desafio é entregar um café livre de ações trabalhistas, livre de trabalho escravo e proveniente de áreas não desmatadas”, destaca Willian.

Na Alta Mogiana, a avaliação é que o risco ligado ao desmatamento seja menor, já que grande parte das áreas de cultivo está consolidada há décadas. Ainda assim, o avanço das exigências internacionais aumenta a pressão por boas práticas agrícolas, manejo adequado de agroquímicos e responsabilidade social em toda a cadeia.

Valor agregado e geração de renda no Brasil

A possibilidade de ampliar a exportação de café industrializado também tem reflexos econômicos internos. Ao processar uma parcela maior da produção no país, o setor pode estimular a geração de empregos, fortalecer a indústria nacional e ampliar a participação brasileira nas etapas de maior valor da cadeia.

A Alta Mogiana já mantém presença no mercado europeu com o envio de café para países como Alemanha, Itália, Polônia e Grécia. Com a redução das tarifas para produtos industrializados, a região passa a enxergar uma oportunidade de competir não apenas pela qualidade do grão, mas também pela capacidade de entregar o produto final ao consumidor europeu.

Mais do que uma mudança comercial, o acordo pode marcar uma transição estratégica para a cafeicultura regional: da exportação predominante de matéria-prima para uma atuação mais forte no mercado internacional de cafés prontos para consumo.