Na Agrishow 2026, a sustentabilidade deixa de aparecer como tendência e passa a se materializar na operação no campo. Em um contexto de custos pressionados, maior exigência por rastreabilidade e uso mais eficiente de recursos, as tecnologias apresentadas na feira mostram que produzir com menor impacto também pode significar produzir melhor.
Máquinas mais eficientes, sistemas de monitoramento e soluções baseadas em dados ampliam o controle sobre o uso de insumos, reduzem desperdícios e tornam as decisões mais precisas ao longo do ciclo produtivo. Nesse movimento, o próprio papel do maquinário ganha nova dimensão.
Para Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, “o maquinário agrícola desempenha um papel cada vez mais estratégico, apoiando o uso mais racional de recursos como água e energia, além de processos produtivos mais controlados e compatíveis com as exigências ambientais e comerciais”.
Na prática, a sustentabilidade deixa de ser apenas um conceito e se transforma em critério econômico dentro da rotina do produtor.
Sustentabilidade vira critério de custo e acesso ao mercado
Para a Scania, fabricante de caminhões e soluções de transporte, a sustentabilidade passou a impactar diretamente a viabilidade do negócio. Na prática, ela já faz parte da equação econômica do produtor.
“A sustentabilidade do negócio passa pela questão econômica, que é o cliente simplesmente se manter em pé”, afirma Marcelo Gallão, diretor de Desenvolvimento de Negócios da empresa.
No mercado exportador, essa mudança é ainda mais evidente, pois a pegada de carbono passou a funcionar como critério de entrada “Sem uma pegada de carbono adequada, você não consegue sequer ofertar o seu produto, independentemente do preço”, explica.
Na prática, essa análise se apoia em duas frentes. A primeira está na engenharia: a Scania afirma que sua taxa de compressão, acima da média do mercado, reduz entre 15% e 22% o consumo de combustível, o que se traduz diretamente em menor emissão de CO₂.
A segunda está no avanço dos combustíveis alternativos, especialmente o biometano. O setor sucroenergético foi pioneiro ao transformar a vinhaça em gás sem perder o potássio, que retorna à lavoura como fertilizante. Hoje, segundo a empresa, já circulam mais de 2.500 caminhões da marca movidos a gás natural e biometano no Brasil. “Já é um produto comercial maduro, com segundo e terceiro dono”, afirma Gallão.
A empresa atua com base em três pilares: eficiência energética, transporte eficiente e segurança operacional. Os caminhões saem de fábrica com chip de rastreamento que monitora rota, desempenho e comportamento de condução. Ou seja, o motorista recebe uma avaliação de A a E, e muitas transportadoras já transformaram essa pontuação em bonificação salarial.
Somando isso à roteirização com inteligência artificial, frenagem automática, sensores de ponto cego e airbags laterais, o conceito de sustentabilidade da Scania ultrapassa o discurso ambiental. “Tudo isso a gente chama de sustentabilidade, que é também uma forma de sobrevivência aos desafios do setor”, resume o executivo.
Tecnologia em pneus melhora o solo e reduz custo da operação
Um dos destaques apresentados pela Titan Pneus é a tecnologia LSW (Low Sidewall), desenvolvida para substituir os tradicionais conjuntos de pneus duplos utilizados em máquinas agrícolas de grande porte.
A solução utiliza um único pneu mais largo, mantendo o mesmo diâmetro, mas ampliando significativamente a área de contato com o solo. O resultado direto é a redução da compactação, um dos principais desafios da agricultura moderna. “Com menor compactação, as raízes das plantas conseguem se desenvolver melhor, favorecendo o crescimento da cultura e aumentando o potencial produtivo da lavoura”, explica Willian Bossolani, gerente Latam de Marketing da Titan Pneus.
Os impactos da tecnologia também aparecem diretamente nos custos da operação. Dados obtidos em testes realizados em parceria com universidades apontam economia média de até 8% no consumo de combustível em máquinas equipadas com a tecnologia LSW.
Em um cenário em que o preço do diesel pressiona cada vez mais os custos, reduzir o consumo tornou-se essencial para proteger a margem do produtor. O impacto vai além do financeiro: cada litro economizado significa também menos CO₂ emitido na operação agrícola. Na prática, o mesmo movimento que reduz custos contribui diretamente para diminuir a pegada de carbono da lavoura.
É essa convergência entre resultados financeiros e ambientais que sustenta o discurso atual da indústria. O produtor que ajusta o consumo no campo entrega, sem esforço adicional, o tipo de dado que o mercado exportador passou a exigir. O ganho que antes ficava restrito à contabilidade do tanque agora também aparece no inventário de emissões da fazenda.
Dados e rastreabilidade levam a sustentabilidade para a prática no campo
Na Agrishow 2026, a sustentabilidade aparece cada vez mais vinculada à capacidade de medir, comprovar e gerir a produção. Na avaliação de Carmino Bertolino, gerente de Operações Comerciais de Carbon Venture da Bayer, o avanço da agenda ESG no agro passa diretamente pelo uso de dados, rastreabilidade e inteligência agronômica aplicada à produtividade.
Por meio da plataforma ProCarbono, a Bayer trabalha com ferramentas que permitem ao agricultor visualizar sua operação de ponta a ponta, identificando oportunidades de redução de emissões, otimização de recursos e aumento de produtividade. “A plataforma permite ao produtor entender exatamente onde estão as maiores emissões de carbono dentro da operação agrícola e quais etapas podem ser ajustadas para gerar maior eficiência”, explica o gerente.
A partir disso, é possível promover mudanças na fonte de fertilizantes, otimizar operações mecanizadas e adotar práticas regenerativas, como plantio direto, rotação de culturas e cultivos de cobertura.
Os dados apresentados pela plataforma ProCarbono comprovam esse argumento: agricultores registraram aumento médio anual de 11% na produtividade e ganho de 9% em estabilidade produtiva.
O que se vê na Agrishow 2026 é a consolidação de um movimento: sustentabilidade deixa de ser compromisso futuro e passa a integrar a lógica econômica da produção, influenciando da operação ao acesso a mercado.