O agronegócio está ocupando espaços que, até pouco tempo, não eram tão vistos nos grandes debates sobre gestão de pessoas. Começa a ser percebido também sob uma perspectiva que vai muito além da produtividade, da tecnologia e da produção: a perspectiva das pessoas.

E alguns temas apareceram como pontos de convergência: a necessidade de lideranças mais preparadas, processos de sucessão estruturados e maior presença das competências femininas nos espaços de decisão.

Os números mostram que ainda há muito espaço para avançar.Os dados ajudam a dimensionar esse desafio.

Na edição de 2026 do Ranking das Melhores Empresas para Trabalhar no Agronegócio, do Great Place to Work, as mulheres ocupam 29% dos cargos de média liderança — cinco pontos percentuais acima do ano anterior. É um avanço importante. Mas, quando olhamos para a alta liderança, a participação feminina caiu de 22% para 18%.

Ou seja: estamos formando mais mulheres líderes, mas ainda precisamos criar caminhos mais consistentes para que elas cheguem e permaneçam no topo.

Outro dado chama atenção. Um estudo que analisou seis cadeias produtivas do agronegócio brasileiro — pecuária, cacau, citros, soja, café e cana-de-açúcar — mostrou que apenas 17,4% das mulheres do setor recebem mais de três salários mínimos, contra 29,8% dos homens.

Esses números nos fazem pensar: não basta aumentar a presença feminina. Precisamos ampliar também acesso, desenvolvimento, remuneração, autonomia e poder de decisão.

Todo esse desafio é potencializado quando notamos que, a área de Recursos Humanos é composta, em sua grande maioria, por mulheres.

O papel estratégico do RH

Nesse cenário, o RH do agro tem uma oportunidade enorme de deixar de atuar apenas como área de suporte e assumir definitivamente seu papel estratégico.

Algumas empresas mais estruturadas do setor já vêm investindo na experiência do colaborador, fortalecendo o propósito do trabalho, aumento de mulheres em cargo de liderança, a conexão com o produto e o impacto que o agro produz na sociedade.

Uma boa experiência do colaborador não começa apenas em benefícios ou ações pontuais de clima. Ela começa quando a pessoa consegue responder a perguntas fundamentais:

  • Minha liderança reconhece meu potencial?
  • Tenho oportunidade de aprender?
  • Sou tratado com respeito?
  • Consigo enxergar um futuro para mim dentro desta organização?

Quando essas respostas são positivas, fortalecemos pertencimento, engajamento e retenção.

E isso é especialmente importante em um setor que precisa atrair novas gerações para continuar crescendo.

Não acredito que a solução esteja apenas em preparar mulheres para liderar. É preciso preparar também as organizações para reconhecer, promover e sustentar essas lideranças. Na prática, isso significa transformar intenção em processos.

Algumas ações que o RH pode puxar junto com a liderança:

1. Criar mapas de sucessão com diversidade

Não esperar que uma mulher apareça espontaneamente como sucessora. Identificar talentos, avaliar potencial e construir planos de desenvolvimento.

2. Criar programas estruturados de desenvolvimento

Mentoria 1×1 é uma excelente forma de desenvolvimento com assertividade e agilidade.

3. Preparar as lideranças para reconhecer vieses

É preciso discutir vieses inconscientes e tornar os processos de promoção mais objetivos.

4. Medir para poder evoluir

Sem indicadores, diversidade  e os programas de desenvolvimento correm o risco de permanecer apenas no discurso.

5. Criar oportunidades reais de exposição

Mulheres precisam estar em projetos relevantes, comitês, decisões, negociações e espaços onde possam demonstrar suas competências.

6. Desenvolver líderes como aliados

Homens que já ocupam os espaços de poder também precisam abrir portas, indicar talentos, patrocinar carreiras e questionar práticas que reproduzem desigualdades.

O futuro do agro também será uma questão de pessoas. Porque tecnologia pode transformar processos. Mas são pessoas que transformam culturas. E quando o RH do agro apoia iniciativas de incremento de mulheres na liderança, seja no RH ou fora dele, o futuro se torna ainda mais forte.

E sucessão não é apenas escolher quem ficará no comando. É preparar a próxima geração para assumir responsabilidades, tomar decisões e construir um futuro que talvez ainda nem consigamos enxergar completamente.

A mensagem é clara: o desafio do agronegócio não está apenas em encontrar mão de obra, mas em desenvolver pessoas, formar lideranças e construir organizações capazes de sustentar o crescimento do setor.

O agro sempre soube que uma boa colheita depende de planejamento, investimento e cuidado ao longo de todo o ciclo. Talvez esteja na hora de aplicarmos essa mesma lógica à gestão de pessoas.