O El Niño entra na primavera em processo de fortalecimento justamente quando diferentes atividades agrícolas passam por etapas decisivas. Enquanto produtores se preparam para implantar a safra de verão em parte do país, culturas de inverno ainda estão em desenvolvimento ou próximas da colheita no Sul.

A atualização de 10 de setembro do Climate Prediction Center, ligado à NOAA, indica probabilidade superior a 90% de que o El Niño atinja intensidade muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27, período que coincide com a primavera e parte do verão no Brasil. Em agosto, a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 chegou a +1,8 °C.

No Brasil, boletins dos órgãos de monitoramento vêm apontando diferenças importantes entre as regiões. O Painel El Niño 2026-2027 projetou para agosto, setembro e outubro maior probabilidade de chuva acima da faixa normal no Sul e abaixo da normal em grande parte do centro-norte do país, com temperaturas acima da média em praticamente todo o território.

Isso não significa, porém, que todas as propriedades de uma região terão o mesmo comportamento da chuva. O El Niño altera as probabilidades climáticas, mas decisões como plantar, pulverizar ou colocar máquinas no campo precisam considerar também previsões meteorológicas de curto prazo e as condições de cada área.

Continue a leitura para entender quais riscos merecem atenção em cada região e como as possíveis irregularidades da safra podem alcançar também outros agentes da cadeia.

El Niño 2026 se fortalece no início da safra

Segundo a NOAA, o índice Niño 3.4 chegou a +1,8°C em agosto. O Painel El Niño 2026/27, elaborado por INMET, INPE, Cemaden, ANA e outros órgãos federais, aponta, para agosto, setembro e outubro, maior probabilidade de chuva acima da média no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Norte, Nordeste e partes de Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo apresentam tendência de precipitações abaixo da média.

Para Diego Siqueira, docente SolloAgro Esalq USP e conselheiro da Rede Terrus Agri, o primeiro cuidado é evitar uma interpretação simplificada do fenômeno. “O risco muda por região, cultura, fase fenológica e ambiente de solo”, explica. Segundo ele, a previsão climática indica a pressão que pode ocorrer, enquanto as características do solo ajudam a determinar a capacidade de cada ambiente de atravessar períodos de excesso ou deficiência hídrica.

Sul exige atenção ao excesso de umidade

No Sul, setembro e outubro são meses sensíveis para os cereais de inverno. O INMET alerta que o excesso hídrico durante a floração, enchimento de grãos e maturação pode prejudicar as culturas, favorecer doenças fúngicas e comprometer a qualidade dos grãos.

Chuvas frequentes também reduzem as janelas para pulverização, colheita e semeadura. O solo encharcado dificulta a entrada de máquinas e pode interferir na implantação das culturas de verão, além de elevar os riscos de erosão e problemas de drenagem.

Diego destaca que a resposta também depende do solo. Áreas com boa infiltração e drenagem tendem a permanecer menos tempo saturadas, enquanto ambientes com limitações físicas podem sofrer mais com o excesso de água.

Centro-Oeste e Sudeste acompanham o retorno das chuvas

No Centro-Oeste, a transição entre as estações seca e chuvosa coincide com a preparação da nova safra. Temperaturas elevadas e precipitações irregulares podem retardar a recuperação da umidade necessária à implantação.

Diego alerta que “a primeira chuva não deve ser interpretada automaticamente como ‘perfil recarregado’”. Um evento isolado pode umedecer poucos centímetros enquanto a zona explorada pelas raízes permanece com reserva insuficiente. Se a precipitação for interrompida após a semeadura, aumentam os riscos de germinação desigual, falhas de estande e replantio.

No Sudeste, além da implantação das culturas de verão, a distribuição das chuvas é relevante para culturas perenes. No café, por exemplo, irregularidade hídrica e temperaturas elevadas durante a florada podem afetar o pegamento e o potencial produtivo.

Norte e Nordeste podem ter maior pressão hídrica

Para Norte e Nordeste, a previsão sazonal indica maior presença de áreas com chuva abaixo da média. Em cultivos de sequeiro, precipitações irregulares podem limitar a recuperação da umidade do solo e afetar o estabelecimento das lavouras.

Na pecuária, a menor disponibilidade de água associada a temperaturas elevadas pode reduzir o desenvolvimento das pastagens e exigir maior atenção às reservas de alimento e às fontes de abastecimento animal.

O solo também interfere na exposição ao risco

A quantidade de chuva não determina sozinha quanto de água estará disponível para a cultura. Profundidade efetiva, capacidade de armazenamento, infiltração, drenagem, compactação e desenvolvimento das raízes modificam a resposta de cada área.

Por isso, dois talhões próximos podem responder de maneiras diferentes ao mesmo período seco ou chuvoso. Como resume Diego, “o clima define o tamanho e a direção do estresse; o solo ajuda a definir a capacidade de resposta”.

A avaliação da umidade do perfil, portanto, complementa as previsões climáticas e ajuda a identificar onde há maior ou menor margem para realizar determinada operação.

El Niño na primavera: o que acompanhar em cada região

  • Sul: Frequência das chuvas, umidade do solo, doenças fúngicas, culturas de inverno e condições para entrada das máquinas;
  • Centro-Oeste: Regularidade das chuvas, temperatura, água disponível no perfil e condições para germinação e estabelecimento inicial;
  • Sudeste: Distribuição das chuvas, disponibilidade hídrica, condições das culturas perenes e implantação das culturas de verão;
  • Norte e Nordeste: Déficit de precipitação, umidade do solo, disponibilidade de água, condição das pastagens e períodos prolongados de calor.

Da lavoura ao caixa: o risco também percorre a cadeia

Uma safra irregular pode produzir consequências além da produtividade. Quebras, atrasos de colheita ou alterações na qualidade interferem no volume, no momento e no custo com que a matéria-prima chega às agroindústrias, armazenadores, processadores e distribuidores.

Priscila de Freitas, diretora de crédito da Multiplike, explica como esse efeito pode chegar às finanças das empresas. “O choque começa na produção, mas não termina no campo. Se uma agroindústria recebe menos matéria-prima, recebe mais tarde ou precisa buscar produto em outra região, isso muda o fluxo financeiro da operação”, afirma.

Uma oferta menor ou atrasada pode exigir revisão de compras, estoques, contratos e cronogramas de entrega. A necessidade de buscar matéria-prima em outra região ou pagar valores diferentes dos planejados também pode elevar a necessidade de capital de giro.

Previsão sazonal não determina o dia de plantar

Uma previsão climática para três meses indica tendências e probabilidades. Ela não informa se choverá em determinada propriedade nos próximos dias.

Durante a primavera, o produtor deve combinar boletins sazonais com previsão meteorológica de curto prazo, umidade do solo, acumulados de chuva, temperatura, disponibilidade hídrica e alertas oficiais.

Conservar a cobertura do solo, revisar a drenagem, escalonar operações quando tecnicamente possível, planejar reservas para alimentação animal e respeitar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático são medidas que ajudam a reduzir a exposição. A irrigação, quando disponível e tecnicamente adequada, também pode contribuir em períodos de deficiência hídrica.

O El Niño 2026 exige acompanhamento, mas não determina sozinho o resultado da safra. Clima, solo, cultura, fase de desenvolvimento e capacidade operacional precisam ser analisados em conjunto para orientar as decisões ao longo da primavera.

O acompanhamento climático também é decisivo para as culturas de inverno. Para entender como oscilações de temperatura, umidade e precipitação já vêm exigindo atenção dos produtores, leia também: Agosto desafia culturas de inverno com clima instável no Brasil.