A possibilidade de formação do fenômeno climático El Niño nos próximos meses acende um alerta para a safra brasileira de grãos 2026/27. A expectativa de maior irregularidade nas chuvas, especialmente no início da janela de plantio, deve exigir dos produtores um planejamento agrícola mais rigoroso e a adoção de tecnologias capazes de reduzir a dependência exclusiva do regime natural de precipitação.
O tema ganha relevância em um momento de forte peso da produção de grãos para o agronegócio brasileiro. Segundo a Conab, a safra brasileira de grãos 2025/26 está estimada em 358,6 milhões de toneladas, com possibilidade de novo recorde. Em um cenário de produção elevada, atrasos no plantio, falhas de germinação e perdas de produtividade podem ampliar os impactos econômicos de eventos climáticos adversos.
Nesse contexto, a irrigação ganha espaço como instrumento para mitigar perdas e dar mais previsibilidade à produção. Para André Guillaumon, CEO da BrasilAgro (AGRO3), em um ambiente de chuvas mais irregulares, não basta apenas reagir aos eventos climáticos.
“É preciso planejamento, tecnologia e infraestrutura para dar mais previsibilidade à produção. A irrigação entra justamente nesse contexto, não como uma solução pontual, mas como uma ferramenta estratégica para reduzir riscos, proteger produtividade e permitir que o agricultor tome decisões com mais segurança”
O impacto do El Niño varia conforme a região do país. Em algumas áreas, o fenômeno pode provocar estiagens, atraso das chuvas e aumento das temperaturas. Em outras, pode intensificar o volume de precipitações. Para a agricultura de grãos, um dos principais riscos está no início do ciclo produtivo, quando a falta de umidade no solo pode prejudicar a germinação, atrasar o plantio e comprometer o potencial produtivo das lavouras.
A irrigação pode contribuir justamente nesse ponto. Quando bem planejada, permite manter níveis adequados de umidade no solo em momentos críticos, reduzindo o risco de falhas de germinação e permitindo maior controle sobre o calendário agrícola.
Durante painel realizado na Agrishow Labs 2026 sobre irrigação inteligente e gestão hídrica de alta eficiência, especialistas do setor também reforçaram que a irrigação tem deixado de ser vista apenas como ferramenta complementar e passou a ser tratada como um sistema de segurança produtiva. No debate, que contou com William Marrero, da Bauer do Brasil Irrigação, Leandro Fellet, da AgroMakers, e Daniel Campaneli, CTO da iCrop, o uso de dados, sensores, automação e modelos de decisão foi apontado como um caminho para reduzir desperdícios e aumentar a precisão no manejo da água.
Uma das discussões centrais foi a necessidade de substituir decisões baseadas apenas na experiência de campo por análises apoiadas em dados. No painel, os participantes destacaram que sensores de umidade do solo, sistemas de telemetria, acompanhamento climático e plataformas digitais podem ajudar o produtor a definir quando irrigar, quanto irrigar e em quais áreas a operação deve ser priorizada.
Embora o Brasil esteja entre os países com maior área equipada para irrigação, a tecnologia ainda tem espaço para avançar. De acordo com o Atlas Irrigação, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o país possui 6,95 milhões de hectares equipados para irrigação, mas a área irrigada ainda é considerada pequena diante do potencial estimado. Em outra atualização do levantamento, a ANA aponta 8,2 milhões de hectares irrigados no Brasil e projeta expansão de mais 4,2 milhões de hectares até 2040.
Eficiência no uso da água ganha peso no planejamento
O avanço da irrigação também amplia a importância do uso eficiente dos recursos hídricos. Publicação da Embrapa destaca que, embora a situação brasileira seja melhor que a de muitos países, ainda há espaço para melhorias, já que a área irrigada demanda grandes volumes de água e cada ponto percentual de ganho em eficiência pode representar economia significativa.
Na safra 2024/25, a BrasilAgro (AGRO3) reduziu em 30% o consumo de água e energia nas áreas irrigadas de suas operações agrícolas, conforme divulgado no Relatório de Sustentabilidade da companhia. O desempenho reflete a adoção de sistemas de irrigação baseados em dados, com automação e acompanhamento em tempo real das operações, integrados ao Centro de Operações Agrícolas (COA).
“Quando incorporamos a irrigação a um modelo integrado de gestão, ganhamos escala, previsibilidade e consistência nas decisões. Esse é um fator central para sustentar produtividade e eficiência ao longo do tempo”, afirmou o CEO da BrasilAgro.
A eficiência no uso da água também depende da integração entre diferentes tecnologias. No painel da Agrishow Labs, os especialistas citaram o uso de sensores instalados em diferentes profundidades do solo, conectividade no campo, comunicação por redes sem fio ou satélite, softwares de manejo e modelos matemáticos para apoiar o produtor na tomada de decisão. A combinação dessas ferramentas permite acompanhar o perfil de umidade do solo e evitar tanto o déficit hídrico quanto a aplicação excessiva de água.
Outro ponto debatido foi o peso da energia no custo da irrigação. Os participantes destacaram que o consumo energético é um dos principais desafios para expansão dos sistemas irrigados, especialmente em projetos de maior escala. Nesse cenário, o dimensionamento correto da estrutura elétrica, a automação do acionamento dos equipamentos e o uso de energia em horários mais eficientes foram apontados como fatores importantes para melhorar a viabilidade econômica da operação.
O painel da Agrishow Labs também abordou o avanço de outras soluções, como carretéis, gotejamento, fertirrigação, automação de bombas, monitoramento de poços e controle de válvulas. A discussão reforçou que a irrigação inteligente não depende apenas do equipamento instalado, mas da capacidade de integrar manejo agronômico, disponibilidade de água, energia, solo, cultura e calendário de produção.
Para a empresa, a combinação entre irrigação e manejo conservacionista pode ser uma resposta importante ao aumento da volatilidade climática. Além de reduzir riscos operacionais, a tecnologia permite maior previsibilidade de produção, melhor aproveitamento da área plantada e tomada de decisão mais precisa em anos marcados por eventos climáticos extremos.
Diante de um cenário de chuvas mais irregulares, o planejamento do uso da água tende a ganhar peso nas decisões de produtores de grãos. Além de ser uma resposta à estiagem, a irrigação passa a integrar uma estratégia mais ampla de gestão de risco, eficiência produtiva e adaptação da agricultura às oscilações do clima.