As condições climáticas da safra 2026/27 estão mudando a dinâmica de maturação e colheita da cana-de-açúcar no Centro-Sul. As chuvas frequentes e a elevada umidade do solo, em um período tradicionalmente marcado por temperaturas mais amenas e menor disponibilidade hídrica, prolongam o crescimento vegetativo da cultura e tornam mais complexa a definição do momento ideal para a colheita.
O cenário interfere principalmente no acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), indicador relacionado à quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana e à qualidade da matéria-prima destinada à produção de açúcar e etanol.
Com a maturação mais lenta, produtores e usinas precisam conciliar o comportamento dos canaviais, as condições climáticas e o cronograma industrial para definir a janela de colheita.
Segundo o engenheiro agrônomo Michel Tomazela, a instabilidade climática tornou essa decisão um dos principais desafios da safra.
“Antes era mais fácil prever como a lavoura iria evoluir. Hoje, a cada previsão de chuva, aumento da umidade ou mudança nas condições do tempo, aumenta a incerteza sobre o comportamento da maturação. Quando essa previsibilidade diminui, cresce o risco de perder parte do potencial de ATR que a cana construiu ao longo da safra. Nesse cenário, identificar o momento que entrega mais valor para a operação é fundamental. Essa decisão deve considerar o comportamento da lavoura, as condições climáticas e uma estratégia de colheita bem planejada”
Umidade altera dinâmica de maturação dos canaviais
A disponibilidade de água é importante para o desenvolvimento da cana-de-açúcar, mas a manutenção de elevada umidade em um período normalmente mais seco interfere no processo natural de maturação. Em vez de concentrar seus recursos no acúmulo de sacarose nos colmos, a planta mantém o crescimento vegetativo por mais tempo.
“Como consequência, a concentração de açúcar diminui justamente no período em que o setor espera obter os maiores índices de ATR, impedindo que a cana atinja o ponto ideal de colheita no tempo esperado. Se a colheita for antecipada para atender ao cronograma industrial, a matéria-prima pode chegar à usina com menor teor de sacarose e menor potencial de ATR”, explica Tomazela.
Além dos efeitos sobre a qualidade da matéria-prima, o excesso de umidade interfere nas operações agrícolas. O encharcamento do solo dificulta a oxigenação das raízes, favorece a ocorrência de doenças e compromete o tráfego de máquinas no campo.
Nessas condições, a colheita pode sofrer atrasos, com aumento dos custos operacionais e impacto no planejamento das usinas.
ATR conecta qualidade da cana e rentabilidade
O comportamento do ATR ganha importância porque o indicador determina a quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana. Sua redução, portanto, interfere no rendimento industrial e na rentabilidade da operação.
“Produzir grande volume de cana já não é suficiente. O que determina o retorno econômico é a qualidade da matéria-prima. O ATR é o indicador que transforma produtividade em rentabilidade”
Quando a concentração de sacarose é menor, a indústria precisa processar um volume maior de cana para produzir a mesma quantidade de açúcar ou etanol. Isso aumenta os custos industriais, reduz a eficiência operacional e pode afetar os resultados econômicos tanto das usinas quanto dos produtores.
O cenário também torna mais complexa a definição da janela de colheita. De um lado, antecipar a operação para atender ao cronograma industrial pode significar receber uma matéria-prima com menor concentração de sacarose. De outro, a permanência das chuvas e da elevada umidade pode dificultar a evolução natural da maturação e as próprias operações no campo.
Manejo da maturação ganha relevância na safra
No Centro-Sul, a maturação da cana ocorre naturalmente entre o outono e o inverno, quando temperaturas mais amenas e menor disponibilidade hídrica favorecem o acúmulo de sacarose.
Na safra 2026/27, porém, as chuvas frequentes e a elevada umidade alteraram esse padrão, dificultando a evolução da maturação e o acúmulo de ATR. Com isso, o planejamento da colheita passa a exigir acompanhamento mais próximo das condições da lavoura e do clima.
Para o consultor da MS Fernandes Consultoria Agrícola, Michel da Silva Fernandes, o manejo da maturação deve fazer parte de uma estratégia integrada de produção, associada ao controle de plantas daninhas, pragas e doenças, ao manejo nutricional e à escolha adequada das variedades.
O objetivo é favorecer o acúmulo de sacarose e preservar o potencial de ATR mesmo diante de condições climáticas mais variáveis.
Entre as estratégias disponíveis estão os maturadores, que podem ser utilizados em diferentes fases da safra. No início do ciclo, ajudam a reduzir o crescimento vegetativo. No meio da safra, favorecem a maturação em regiões com outono e inverno chuvosos. Já no final, contribuem para inibir a retomada do desenvolvimento da planta, preservando níveis elevados de sacarose por mais tempo e ampliando a flexibilidade para a definição da janela de colheita.
Diante da variabilidade climática, o desafio passa a envolver não apenas o volume produzido, mas também a qualidade da cana que chega à indústria e o momento em que essa matéria-prima é retirada do campo.
“Hoje, o desafio não é apenas produzir mais cana, mas colher no momento certo. O planejamento da maturação, aliado ao uso estratégico de tecnologias, permite aproveitar melhor o potencial da lavoura, aumentar o rendimento industrial e reduzir os impactos provocados pelas oscilações do clima”, conclui Tomazela.