A perspectiva de uma nova safra recorde reforça um dos principais desafios estruturais do agronegócio brasileiro: armazenar, com eficiência e segurança, um volume crescente de grãos.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção nacional alcance 360,1 milhões de toneladas. Caso a projeção se confirme, o resultado representará um crescimento de 2,2% em comparação com o ciclo anterior.

O avanço da produtividade no campo, entretanto, não tem sido acompanhado no mesmo ritmo pela ampliação da infraestrutura disponível para receber e conservar os produtos depois da colheita. De acordo com o portal Armazéns do Brasil, disponibilizado pela Conab, a capacidade estática de armazenamento no país chega a 228 mil toneladas neste ano.

Diante desse cenário, a resposta para o déficit histórico de armazenagem não depende apenas da construção de novas unidades. A modernização dos silos e a incorporação de sistemas automatizados também vêm ganhando espaço como formas de aumentar a eficiência da estrutura existente, reduzir desperdícios e preservar a qualidade dos grãos.

Controle automático acelera operações

Nos silos automatizados, os motores são acionados apenas quando necessário, contribuindo para a economia de energia e para o melhor aproveitamento da mão de obra. Nos secadores, o controle de temperatura e umidade permite que o processamento ocorra dentro dos parâmetros definidos, reduzindo desperdícios e riscos de contaminação cruzada.

A tecnologia também ajuda a acelerar etapas críticas, como recepção, secagem, movimentação e armazenamento. Com maior controle sobre esses processos, as unidades conseguem receber volumes maiores em menos tempo, sem comprometer as características do produto que chega do campo.

No Paraná, a Capal Cooperativa Agroindustrial utiliza automação em diferentes operações. Um dos principais avanços está nos secadores de grãos, que funcionam com controle automatizado do fluxo de carga e descarga, da temperatura e da umidade.

“No que diz respeito à automação geral das plantas, estamos em constante evolução. Porém, o nosso grande diferencial são os secadores de grãos. Neles, possuímos automação completa para o fluxo contínuo. O fluxo de carga e descarga, além do controle de temperatura e de umidade dos grãos, são todos controlados de forma automática pela lógica do programa, garantindo um padrão rigoroso de secagem sem depender exclusivamente de ajustes manuais contínuos”, explica Carlos Faria, coordenador de Operações de Grãos da cooperativa.

Na prática, a automatização reduz a dependência de intervenções manuais constantes e permite que os operadores acompanhem as condições dos equipamentos e dos grãos com base em dados disponibilizados pelos sistemas.

Tecnologia permite movimentar grandes volumes

A capacidade de responder rapidamente aos picos da colheita é outro benefício associado à modernização das unidades armazenadoras.

Durante a última safra, marcada pelo excesso de chuvas, a Cooperativa Comigo, com sede em Goiás, chegou a movimentar 2 milhões de sacas de soja em um único dia. Para Paulo Carneiro Junqueira, diretor industrial da cooperativa, seria quase impossível alcançar esse volume sem o apoio dos sistemas tecnológicos.

“A automação agiliza a operação, te dá uma segurança maior para você trabalhar de forma mais ágil. Ao receber mais rápido, seca mais rápido, guarda mais rápido, conserva mais rápido e mantém a qualidade. A automação também ajuda a controlar a conservação, termometria e aeração. Hoje todas essas etapas são controladas automaticamente na Comigo”, afirma Junqueira.

Relatos internos da cooperativa apontam que a adoção da automação resultou em um aumento de aproximadamente 30% na produtividade. Entre os equipamentos que passaram pelo processo de modernização estão elevadores, máquinas de limpeza, secadores e sistemas de transporte.

O objetivo é fazer com que cada estrutura opere próxima de sua capacidade máxima, mas sem ultrapassar os limites de segurança.

“Um elevador tem capacidade para 300 toneladas por hora. A automação permite que ele opere próximo a esse máximo com segurança. O operador visualiza em uma tela se o equipamento está em 80% ou 85% de sua capacidade, tendo margem para evitar que a máquina ‘embuche’ – o que pode gerar até cinco horas de paralisação e desperdício de produto”, exemplifica.

Além de interromper a movimentação dos grãos, uma paralisação desse tipo pode provocar perdas de produto e comprometer o ritmo de toda a unidade. O acompanhamento em tempo real permite antecipar riscos e ajustar a operação antes que o equipamento seja sobrecarregado.

Dados ampliam segurança dos operadores

Embora os sistemas assumam parte dos controles, a automação não elimina a participação das equipes. Ao contrário, os dados gerados pelos equipamentos passam a apoiar as decisões tomadas pelos profissionais responsáveis pela operação.

Com informações sobre capacidade, temperatura, umidade, termometria e aeração disponíveis em telas de controle, os operadores podem administrar os turnos com maior precisão e segurança.

Para Carlos Faria, o acesso a essas informações contribui diretamente para reduzir perdas e melhorar os resultados das unidades.

“Tenho a certeza de que, ao proporcionarmos a melhor condição, com dados e automação, para os nossos operadores gerenciarem o turno, as perdas são reduzidas drasticamente. A automação empodera o operador, e essa é a forma mais eficiente de atingir excelência qualitativa e quantitativa”.

Inteligência Artificial deve orientar próxima etapa

A incorporação da Inteligência Artificial aos sistemas de armazenagem aparece como uma evolução esperada do processo de automação.

A expectativa é que a IA acelere a análise dos dados produzidos pelas unidades e ajude na tomada de decisões em tempo real, ampliando o monitoramento dos pontos críticos desde a recepção até a conservação dos grãos.

“Visualizo um monitoramento contínuo em todas as etapas, com todos os pontos críticos cobertos e seguros. O objetivo da IA é assegurar que tudo ocorra como precisa. A grande revolução será termos os nossos operadores atuando como verdadeiros gestores de tecnologia, com a segurança e a precisão de que a carga chegará ao seu destino com total qualidade e volume intacto”, opina Faria, da Capal.

Na avaliação de Junqueira, o setor deve caminhar para a robotização total das operações. Nesse modelo, os próprios sistemas poderiam aumentar ou reduzir a carga dos equipamentos de acordo com o andamento da secagem, sem depender da interpretação do operador.

A adoção dessas soluções, no entanto, ainda enfrenta uma barreira econômica. Equipamentos capazes de realizar medições precisas exigem investimentos elevados, especialmente em cooperativas que administram dezenas de unidades.

“Os determinadores de umidade precisos, por exemplo, atualmente ultrapassam os R$ 100 mil por unidade. Para cooperativas que possuem mais de 100 secadores, o investimento ainda é considerado inviável”, afirma.

Enquanto a robotização completa permanece condicionada à redução dos custos, a automação já instalada mostra como o uso mais eficiente da infraestrutura pode ajudar o país a enfrentar os efeitos do déficit de armazenagem. Em um cenário de safras crescentes, acelerar o recebimento, controlar a secagem e preservar a qualidade dos grãos torna-se tão estratégico quanto ampliar a capacidade física dos armazéns.