A história de João e Larissa Pierobon no agro reúne produção rural, presença digital, sucessão familiar e uma decisão que contrariou a lógica predominante de uma região tradicionalmente canavieira no interior de São Paulo: investir no cultivo de grãos.
Com forte presença nas redes sociais, João Pierobon soma mais de 330 mil seguidores no Instagram, enquanto Larissa Pierobon reúne mais de 24 mil. Embaixadores da Agrishow, eles estiveram no Lounge dos Embaixadores para receber visitantes e conversar com a Agrishow Digital sobre gestão no campo, tecnologia, protagonismo feminino e os caminhos que têm transformado a rotina de produtores rurais.
Formado em Engenharia de Produção, João voltou à lavoura depois da graduação, em um período em que muitos jovens ainda eram estimulados a buscar oportunidades longe do campo. Ele seguiu o caminho inverso: retornou à propriedade da família e passou a olhar para a atividade rural sob uma nova perspectiva.
“Eu fui um dos pioneiros a começar a gravar o meu dia a dia no agro”, relembra. Quando começou, em 2015, a ideia era registrar a rotina, aprender a gravar e editar vídeos e compartilhar experiências sem grandes pretensões. O alcance, porém, surpreendeu.
“Eu pensava: o produtor não vai chegar em casa, pegar um celular ou um computador para ficar assistindo vídeo. Mas eu estava redondamente enganado”, afirma João.
Da cana aos grãos: a internet como ponte para o conhecimento técnico
A produção de conteúdo acabou se tornando mais do que uma vitrine da rotina no campo. Ao mostrar a realidade da propriedade nas redes, João passou a se aproximar de engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas, produtores e empresas que contribuíram com orientações sobre a lavoura.
Na época, a família vinha de uma tradição de décadas com a cana-de-açúcar. Algumas áreas, segundo ele, apresentavam queda de produtividade e sinais de desgaste provocados pela monocultura. Foi a partir desse diagnóstico que surgiu o interesse pela rotação de culturas e pelo plantio de soja.
A cada dificuldade, o público acompanhava, comentava e sugeria caminhos em seu perfil das redes sociais. Produtores de diferentes regiões passaram a compartilhar experiências, apontar ajustes e contribuir com a construção desse novo modelo produtivo.
Hoje, segundo João, cerca de 90% das áreas da propriedade são ocupadas pela soja no verão. No inverno, entram plantas de cobertura ou culturas de safrinha, em um sistema voltado à rotação, ao aumento de matéria orgânica e à melhoria da fertilidade do solo.
Solo, produtividade e decisão no centro da estratégia
Para João, a diversificação produtiva ganhou importância em um cenário no qual o produtor rural tem pouco controle sobre variáveis centrais da atividade, como clima, mercado, custos de produção e preço das commodities.
“Nós não controlamos o mercado, não controlamos o clima e, muitas vezes, nem o próprio custo. A única coisa que o produtor consegue controlar hoje é o seu solo”, afirma.
Esse olhar passou a orientar também o compartilhamento de conhecimento na propriedade. O casal realiza um dia de campo anual, que chegou à quinta edição, com apresentação de variedades de soja adaptadas à região e informações sobre sementes, fertilizantes, defensivos, biológicos, máquinas, tecnologia e lubrificação.
Os resultados, segundo João, aparecem na produtividade. Em áreas que antes produziam cerca de 50 sacas por hectare, a propriedade já alcançou mais de 100 sacas por hectare em alguns talhões. Para ele, o desempenho reforça a importância de combinar manejo de solo, tecnologia, informação e troca entre produtores.
Larissa Pierobon e o protagonismo feminino na gestão rural
Se João iniciou a trajetória digital mostrando a transição da cana para os grãos, Larissa Pierobon passou a assumir um papel cada vez mais visível na rotina da propriedade.
Formada em Odontologia, ela trabalhou por oito anos em consultório enquanto acompanhava a rotina da lavoura e apoiava a produção de conteúdo. Essa atuação ganhou outro peso em uma safra recente, quando João precisou passar por uma cirurgia justamente no período de plantio. “Eu não vi outra solução sem ser tomar as rédeas”, relembra Larissa.
Enquanto João estava no hospital, ela iniciava o plantio. A experiência exigiu tomada de decisão, contato com agrônomos, apoio de empresas parceiras e aprendizado em tempo real. “Foi a nossa melhor safra, com recordes de produtividade. Daí eu fui nomeada como ‘Lari gerente’”, conta.
O episódio, documentado nas redes sociais, ampliou a identificação de outras mulheres do agro com Larissa e reforçou uma discussão central para o setor: o reconhecimento da presença feminina na gestão, na técnica e na tomada de decisão.
“Aquela experiência mostrou, na prática, a importância da mulher no agro. Ainda existe o estereótipo de que a mulher é delicada, de que não consegue colocar a mão na massa ou assumir decisões no campo. Mas isso caiu por terra. A mulher pode, sim, liderar, decidir e ocupar espaços importantes dentro da propriedade rural”, afirma Larissa.
Para Larissa, embora o protagonismo feminino tenha avançado, muitas mulheres ainda precisam reafirmar sua competência em ambientes historicamente associados à presença masculina. Na avaliação dela, empresas, produtores e propriedades rurais precisam ampliar oportunidades e reconhecer o potencial das mulheres em diferentes frentes do agro.
“As empresas e os agricultores precisam ver a mulher com seu grande potencial. Somos tão importantes quanto os homens”, diz.
Gestão rural também passa pela família
A atuação conjunta de João e Larissa evidencia outro aspecto da rotina no campo: a propriedade rural também é um empreendimento familiar. Para o casal, dividir decisões, responsabilidades e objetivos faz parte da gestão.
Larissa afirma que o companheirismo é o que permite conciliar vida a dois, gestão da propriedade e produção de conteúdo.
João complementa que o segredo está em compartilhar o mesmo propósito. “Quando a gente pensa como casal, com propósito, a gente trabalha para aquilo acontecer”, afirma. Para ele, essa visão ajuda a reduzir conflitos e fortalecer decisões em torno de objetivos comuns.
Nas redes, essa dinâmica também ajuda a mostrar que o agro brasileiro é formado por diferentes perfis de produtores, propriedades e famílias. Para João, essa diversidade é parte da força do setor. “O Brasil é o que é pelas grandes propriedades, mas também pelas pequenas propriedades, pelos pequenos produtores e pelos maiores produtores”, avalia.
Agrishow como vitrine da tecnologia e da diversidade do agro
Como embaixadores da Agrishow, João e Larissa veem a feira como um espaço que traduz a evolução tecnológica e produtiva do setor. Para João, a trajetória da feira acompanha o crescimento do próprio agronegócio brasileiro.
“A Agrishow cresceu com o agro e o agro cresceu com a Agrishow”
João Pierobon
Na avaliação do produtor, a feira ajuda a mostrar a dimensão de um setor que muitas vezes não é percebida por quem está fora do campo. “Quem vem aqui e presta atenção nos detalhes vai ver realmente a potência que nós somos”, diz.
Essa potência, segundo ele, não está restrita aos grandes produtores. A tecnologia chega cada vez mais a diferentes perfis de propriedade, das grandes áreas às pequenas e médias produções.
“Quando eu falo potência, não estou falando só do produtor grande. Estou falando que a tecnologia está chegando para todo mundo”, afirma.
Sucessão familiar aproxima jovens da gestão do campo
A Agrishow também aparece, na visão de João, como uma oportunidade para aproximar gerações dentro da propriedade rural. Sua própria trajetória envolveu desafios de sucessão, especialmente por ter retornado ao campo, iniciado a produção de conteúdo e conduzido uma mudança de modelo produtivo em uma família acostumada à cana-de-açúcar.
Para o casal, envolver os jovens nas decisões da fazenda é um dos pontos centrais para avançar na sucessão familiar. Nesse processo, eventos como a Agrishow podem funcionar como ponte entre gerações, ao aproximar produtores, famílias e novas tecnologias.
“O segredo hoje da sucessão familiar é trazer o jovem que está dentro da fazenda para dentro do negócio. E uma feira como essa é a oportunidade”, afirma João.