Celebrado em 15 de julho, o Dia do Pecuarista reconhece o trabalho de quem conduz a criação animal e precisa conciliar os cuidados com o rebanho à administração da propriedade rural. Na pecuária de corte, essa atuação envolve decisões sobre alimentação, sanidade, reprodução, estrutura, equipe, comercialização e custos.

A Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério do Trabalho e Emprego, define entre as atribuições do criador de bovinos de corte supervisionar e planejar o manejo e a alimentação do rebanho, controlar a sanidade, organizar a reprodução, comercializar os animais e administrar a propriedade. A descrição ajuda a mostrar que a atividade não se limita ao acompanhamento dos bovinos: o pecuarista também atua como gestor do sistema produtivo.

Essa visão integrada também aparece no manual de Boas Práticas Agropecuárias para bovinos e bubalinos de corte, elaborado pela Embrapa. O documento reúne orientações sobre gestão da propriedade, recursos humanos, instalações, bem-estar animal, alimentação, identificação dos animais e controle sanitário, áreas que precisam funcionar de maneira coordenada para que a produção alcance os resultados esperados.

Confinamento evidencia o papel do pecuarista como gestor

Durante o período de confinamento, a necessidade de planejamento se torna ainda mais evidente. Como os investimentos e os animais estão concentrados em um ciclo mais curto e intensivo, falhas no manejo, na alimentação ou na sanidade podem aumentar rapidamente os custos da operação.

O trabalho começa antes da chegada dos lotes. O pecuarista precisa avaliar a disponibilidade e o preço dos alimentos, definir o número e o perfil dos animais, verificar as instalações, preparar os protocolos sanitários e orientar a equipe responsável pelo manejo.

A Embrapa recomenda que o projeto considere uma estrutura adequada para a recepção e o preparo dos bovinos, com condições para pesar, apartar e avaliar os animais. Também é necessário planejar os currais, os cochos, os bebedouros e o escoamento da água, evitando situações que favoreçam lama, desconforto e problemas sanitários.

A falta de planejamento pode reduzir o ganho de peso e comprometer a margem do sistema. Por isso, antes de iniciar a terminação, é importante calcular o custo da alimentação, o período previsto de permanência e o peso de saída dos animais. O Agrishow Digital já mostrou como alguns erros no planejamento do confinamento podem gerar prejuízos mesmo quando os bovinos continuam ganhando peso.

Para Ângelo Caiado, da Rialma Agropecuária, a atenção deve começar na recepção dos lotes.

“Uma boa recepção dos animais, protocolos sanitários bem executados, equipes capacitadas e acompanhamento técnico contínuo fazem toda a diferença para garantir saúde, bem-estar e desempenho”

Adaptação exige acompanhamento dos animais

A chegada ao confinamento reúne diferentes fatores de estresse. Transporte, jejum, formação de novos lotes, contato com instalações desconhecidas e mudanças na dieta podem afetar o comportamento, o consumo e a resposta imunológica dos bovinos.

Por isso, a observação dos animais nas primeiras semanas é uma das principais responsabilidades da equipe. Alterações no consumo, isolamento, apatia, tosse, secreção nasal ou dificuldade respiratória devem ser identificadas rapidamente.

Entre as enfermidades que exigem atenção está a Doença Respiratória Bovina, que pode envolver diferentes agentes virais e bacterianos. A prevenção deve integrar um planejamento sanitário definido de acordo com a origem, a categoria e o histórico dos lotes, sempre com acompanhamento de médico-veterinário.

Vacinação, controle de parasitas, higiene das instalações, redução do estresse e inspeção diária ajudam a diminuir os riscos. Quando ocorre alguma alteração, a identificação precoce permite separar e avaliar o animal antes que o problema se agrave ou alcance outros integrantes do lote.

A sanidade também precisa ser registrada. O pecuarista deve manter informações sobre vacinas, medicamentos, datas de aplicação, doses, tratamentos e períodos de carência. Esses dados ajudam no controle da propriedade e na segurança dos alimentos produzidos.

Mudança de dieta não deve ser brusca

A alimentação costuma representar uma parcela relevante dos custos do confinamento. Além de formular uma dieta adequada aos objetivos produtivos, é necessário garantir regularidade na mistura, no fornecimento e nos horários.

A Embrapa orienta que a adaptação dos bovinos à dieta do confinamento ocorra gradualmente, sobretudo quando os animais eram mantidos exclusivamente em pastagens. A mudança brusca para uma alimentação com maior concentração de energia pode elevar o risco de distúrbios metabólicos, como acidose e timpanismo.

Durante a adaptação, a leitura dos cochos ajuda a identificar sobras, quedas de consumo ou distribuição inadequada da ração. Mudanças nas fezes, seleção dos ingredientes e comportamento anormal também podem sinalizar a necessidade de ajuste.

A formação de lotes mais uniformes, considerando peso, origem, sexo e condição corporal, facilita a definição da dieta e a comparação dos resultados. Também contribui para reduzir disputas e diferenças excessivas de desempenho dentro do mesmo curral.

Tecnologia apoia, mas não substitui a gestão

Balanças, sistemas de identificação, aplicativos de gestão e equipamentos de monitoramento ampliam a quantidade de informações disponíveis. Essas ferramentas podem ajudar o pecuarista a acompanhar ganho de peso, consumo, tratamentos, mortalidade e custos.

A tecnologia, porém, precisa estar vinculada a uma decisão. Coletar dados sem estabelecer metas, parâmetros de comparação e procedimentos para corrigir problemas pouco contribui para o resultado.

Entre os indicadores que devem ser acompanhados estão ganho médio diário, consumo de matéria seca, conversão alimentar, ocorrência de doenças, mortalidade, custo por arroba produzida e tempo de permanência no confinamento.

Esses registros permitem comparar lotes, dietas e fornecedores, além de mostrar se o desempenho obtido compensa os recursos investidos.

Bem-estar integra a eficiência produtiva

Disponibilidade de água limpa, espaço adequado nos cochos, boas condições de piso, manejo sem agressões e redução do estresse térmico são fatores que interferem na saúde e no desempenho dos bovinos.

O Mapa atua na formulação de políticas e orientações relacionadas às boas práticas e ao bem-estar dos animais de produção. Entre os pontos considerados estão as condições de transporte e manejo, etapas que podem provocar estresse e afetar a qualidade do processo produtivo quando conduzidas de forma inadequada.

Para o pecuarista, isso exige combinar instalações adequadas com capacitação da equipe. Os trabalhadores precisam saber conduzir os animais, reconhecer alterações de comportamento e seguir corretamente os protocolos definidos para a propriedade.

O tema também ganha importância comercial. Práticas de bem-estar animal na pecuária podem ajudar a reduzir perdas, melhorar a qualidade da produção e atender compradores que adotam critérios mais rigorosos para seus fornecedores.

Mercado exige regularidade e controle

O Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina no primeiro semestre de 2026, crescimento de 15,5% em comparação com o mesmo período de 2025. A receita chegou a US$ 9,85 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes.

O desempenho do mercado amplia a responsabilidade de toda a cadeia em relação à qualidade, à sanidade e à regularidade da produção. Para o pecuarista, atender a essas exigências depende da capacidade de transformar orientações técnicas, tecnologia e dados em procedimentos consistentes dentro da propriedade.

O Dia do Pecuarista, portanto, reconhece uma atividade que reúne conhecimento sobre os animais e visão de negócio. No confinamento ou em outros sistemas produtivos, os resultados dependem da coordenação entre alimentação, sanidade, pessoas, instalações e custos. É essa gestão diária que permite prevenir perdas, preservar o bem-estar do rebanho e aumentar a eficiência da produção.