Celebrado em 28 de julho, o Dia do Agricultor reforça o papel dos produtores rurais na produção de alimentos, fibras e matérias-primas essenciais para a economia brasileira. Em 2026, a data também chama atenção para os desafios que cercam o planejamento das próximas safras, em um cenário de produção elevada, custos pressionados e maior variabilidade climática.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a produção brasileira de grãos em 360,1 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, volume 2,2% superior ao registrado na temporada anterior, caso confirmado. Já o IBGE projeta safra de 347,4 milhões de toneladas em 2026, com área a ser colhida de 83,2 milhões de hectares. Segundo o instituto, arroz, milho e soja representam 92,8% da produção estimada de cereais, leguminosas e oleaginosas no país.
Nesse contexto, ampliar a produtividade sem aumentar a exposição ao risco exige decisões técnicas antes, durante e depois do ciclo produtivo. O manejo do solo segue como base da produção, mas passa a dividir espaço com temas como crédito rural, irrigação, uso de dados, seguro, armazenagem e logística.
Para Sérgio Ailton Saurin, CEO da Massari Fértil e da Morro Verde, o próximo ciclo agrícola deve exigir mais precisão dos produtores. “O produtor convive hoje com um cenário de maior imprevisibilidade. O clima mudou, os custos aumentaram e cada passo do manejo precisa ser mais preciso. O desafio não é aplicar mais insumos, mas construir solos mais resilientes. A evolução da agricultura tropical passa pela construção da fertilidade do solo, utilizando minerais para agricultura tropical, como calcários, gesso agrícola, fosfatos naturais e fertilizantes minerais mistos, sempre buscando maior eficiência do sistema solo-planta”, afirma.
Crédito rural entra no planejamento da safra
O Plano Safra 2026/27 reforça essa agenda ao direcionar recursos para custeio, comercialização e investimento. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a agricultura empresarial contará com R$ 525,1 bilhões, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos.
Para o agricultor, isso significa que o planejamento financeiro precisa caminhar junto com o planejamento agronômico. A escolha de insumos, tecnologias, equipamentos e estruturas de apoio deve considerar não apenas o potencial produtivo, mas também o retorno esperado, o custo do crédito e os riscos de cada região.
Solo continua sendo base da produtividade
A construção de um perfil de solo equilibrado é uma das frentes centrais para reduzir riscos na lavoura. Em vez de concentrar a correção apenas na superfície, o manejo deve favorecer o crescimento das raízes em profundidade.
Raízes bem desenvolvidas ampliam a capacidade das plantas de acessar água e nutrientes, fator importante em períodos de estiagem, excesso de chuva ou oscilação de temperatura. A disponibilidade adequada de cálcio, magnésio, enxofre e fósforo também contribui para o desenvolvimento radicular e para a resiliência das lavouras.
A análise química e física do solo ajuda o produtor a definir doses, fontes e estratégias de aplicação de nutrientes. O diagnóstico deve considerar indicadores como matéria orgânica, capacidade de troca de cátions, presença de alumínio e compactação.
Zoneamento climático apoia decisões antes do plantio
Em um cenário de clima instável, a definição da janela de plantio ganha peso estratégico. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), do Ministério da Agricultura e Pecuária, considera clima, solo e ciclo das cultivares para quantificar riscos climáticos na condução das lavouras.
A ferramenta ajuda o produtor a identificar áreas e períodos de menor risco para determinadas culturas, apoiando decisões sobre semeadura, escolha de cultivares e planejamento do ciclo produtivo.
O Proagro também integra esse ambiente de gestão de risco. Segundo o Mapa, o programa atende pequenos e médios produtores e garante a exoneração de obrigações financeiras relativas a operações de crédito rural de custeio quando a liquidação é dificultada por fenômenos naturais, pragas ou doenças que atinjam lavouras e rebanhos.
Irrigação e dados ganham espaço contra riscos climáticos
A gestão da água também se tornou uma frente relevante para preservar produtividade. Diante da previsão de chuvas mais irregulares, a irrigação pode reduzir riscos climáticos na safra brasileira de grãos 2026/27, especialmente em etapas críticas como germinação, desenvolvimento inicial e enchimento de grãos.
Sensores de umidade do solo, telemetria, dados climáticos, automação e plataformas digitais ajudam o agricultor a definir quando irrigar, quanto irrigar e quais áreas devem ser priorizadas.
Essas ferramentas também permitem ajustar o manejo durante a safra. Com informações sobre vigor vegetativo, desenvolvimento das plantas e resposta nutricional, o produtor consegue corrigir rotas com mais rapidez e reduzir perdas operacionais.
Armazenagem e logística também definem margem
O planejamento da safra não termina na colheita. Em um cenário de produção elevada, armazenagem e logística passam a influenciar diretamente a margem do produtor.
Frete mais caro, avanço das usinas de etanol de milho e janelas curtas de colheita colocam o pós-colheita no centro da estratégia de rentabilidade no campo.
No Plano Safra 2026/27, o Mapa também destaca investimentos em infraestrutura como forma de elevar a produtividade, reduzir custos e fortalecer a competitividade da agricultura empresarial, com recursos voltados à construção, ampliação e modernização de estruturas de armazenagem e câmaras frias.
Para Saurin, a agricultura moderna depende da integração entre informação, tecnologia e experiência no campo. “A agricultura evoluiu muito nos últimos anos, mas o protagonismo continua sendo do agricultor. O diferencial está na capacidade de interpretar solo, clima e planta como um sistema integrado. Quanto melhor for essa leitura, maiores serão as oportunidades de produzir com eficiência, sustentabilidade e menor exposição aos riscos de cada safra”, conclui.