Quem vivencia o dia a dia do campo sabe bem que operamos em um ecossistema marcado pela complexidade e pelo dinamismo. Enfrentar a volatilidade do clima, o avanço de pragas e doenças, além do aumento constante nos custos de produção, exige do produtor e dos executivos do setor muito mais do que eficiência técnica dentro da porteira. Exige visão estratégica global.

Embora o Brasil seja uma potência indiscutível na produção de alimentos, o nosso principal desafio atual é aprender a olhar para o mundo, extrair inteligência de diferentes mercados e adaptar essas soluções à nossa realidade. 

Não se trata de copiar modelos prontos, mas de decifrar como outras nações superam suas próprias adversidades para proteger suas margens e valorizar suas marcas.

Tive a oportunidade de observar essa dinâmica de perto em recentes imersões internacionais, e as lições são valiosas.

Quando olhamos para os desafios do manejo e do clima, países vizinhos nos dão exemplos claros de resiliência. No Chile, a análise do uso de dejetos de alpacas para a fertilização do solo e o estudo do impacto do Rio Maipo — cujas enchentes espalham sedimentos vulcânicos ricos em minerais — nos mostram a força da nutrição natural das lavouras. 

Já na Argentina, o mapeamento dos impactos do estresse hídrico e do granizo evidencia como o país consegue superar adversidades climáticas extremas para continuar entregando uma produção premium altamente elogiada e competitiva no exterior.

Rodrigo Capella em visita a uma propriedade no Chile

Por outro lado, quando o gargalo são os altos custos de produção e a pressão sobre as margens, a Europa nos ensina a arte de escapar da vala comum das commodities através da diferenciação. 

Em Portugal, a exploração do mel multifloral de alta altitude revela como as propriedades conseguem criar um produto de terroir único, agregando um valor extraordinário à sua origem.

Complementando essa visão, as imersões na Espanha e na Itália, em propriedades centenárias, decifram o poder do storytelling: a capacidade de humanizar marcas, preservar o legado familiar e conectar o campo diretamente ao coração do consumidor.

Vencer os desafios biológicos e financeiros do agro moderno exige essa capacidade de síntese. Precisamos, dentro do possível, blindar a nossa produção contra o clima e as pragas com tecnologia e manejo inteligente, mas também precisamos aprender a embalar essa eficiência.

A comunicação estratégica e o posicionamento de mercado são as ferramentas que transformam o esforço do produtor em reputação e valor percebido.

O agro brasileiro já provou que sabe produzir como ninguém. Agora, o próximo passo da nossa evolução é olhar para os exemplos globais, adaptar as melhores práticas com solidez e mostrar ao mercado que a nossa credibilidade é tão gigante quanto a nossa produtividade.

Rodrigo Capella, palestrante e diretor da Ação Estratégica, agência de assessoria de imprensa, comunicação e marketing para o agronegócio