A soja deve encerrar a safra 2025/26 com novo recorde de produção no Brasil. O 12º levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em setembro de 2026, estima uma colheita de 180,4 milhões de toneladas, alta de 5,2% sobre o ciclo anterior.
O avanço ocorreu com crescimento de 2,7% na área plantada e ganho de 2,5% na produtividade. Os números reforçam a importância das decisões de manejo tomadas ao longo do ciclo, entre elas o planejamento da adubação e o uso correto de fertilizantes.
Manejo de adubação da soja: por que você deve fazer?
Independente da cultura, manejar a adubação significa tomar decisões de forma antecipada, ou seja, ainda sem a presença das plantas. Nesse sentido, o professor de Química do Solo da Faculdade de Agronomia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Tales Tiecher salienta que na cultura da soja o melhor indicador que demonstra se o manejo da adubação está sendo adequado ou não é a sua produtividade, entretanto, ele faz uma ressalva importante.
“Para explorar o máximo potencial produtivo da cultura da soja é necessário que o solo tenha fertilidade adequada desde o primeiro dia após a semeadura. Somente com a quantidade de nutrientes essenciais às plantas de soja, em quantidade adequada para o seu pleno crescimento e desenvolvimento, e livre da presença de elementos tóxicos durante todo o seu ciclo, será possível alcançar alta produtividade”.
O pesquisador explica que, sob condições de escassez de algum nutriente ou de alto teor de algum elemento tóxico, as plantas podem demonstrar sintomas visuais na sua morfologia, como alterações de coloração e menor desenvolvimento, o que pode prejudicar a produtividade.
Nesses casos, o dano econômico dificilmente será revertido com adubações foliares ou de cobertura, mostrando a importância da realização do manejo de adubação da soja desde a semeadura.
4 medidas para realizar um eficiente manejo de adubação da soja
Alguns são os fatores que influenciam na eficiência do manejo da adubação da soja e por isso precisam ser considerados. Dentre os fatores mais importantes, Tiecher cita:
- Dose do fertilizante;
- Tipo de fertilizante;
- Local de aplicação;
- Momento da aplicação dos fertilizantes e corretivos.
Com base nesses quatro fatores, Tiecher explica que algumas medidas ajudam o agricultor na tomada de decisão sobre o manejo da adubação.
A primeira delas é fazer a correta análise do solo. “A correta análise do solo deve ser realizada por laboratórios idôneos, além disso é importante utilizar amostras de solo representativas da gleba cultivada”.
Com base nos resultados da análise de solo e na expectativa de produção da soja, o professor indica que devem ser utilizados os sistemas de recomendações oficiais de cada região para definir a adubação e a correção do solo, quando necessária.
Tiecher explica também que a análise do solo deve ser realizada com maior frequência (no mínimo a cada duas ou três safras), impedindo que falhas na adubação resultem num desbalanço nutricional da cultura.
“É necessário ter em mente que nunca adubamos ou corrigimos o mesmo solo duas vezes, pois após a aplicação de fertilizantes o solo não será mais o mesmo, ou seja, uma nova análise do solo deve ser realizada”.
Neste contexto, o professor explica que atualmente existem muitas ferramentas, inclusive on-line e gratuitas, que auxiliam na interpretação dos resultados da análise de solo e na definição da dose, tipo de fertilizante, local e modo de aplicação, que levam em consideração as especificidades de cada região do Brasil.
Evite erros mais comuns durante o manejo de adubação
Alguns erros precisam ser evitados no manejo de adubação da soja. Na avaliação de Tiecher, os mais comuns estão relacionados a:
- Coleta de amostras de solo realizada de forma inadequada: “Uma amostragem de solo malfeita põe em risco todos os demais esforços feitos a partir da interpretação e recomendação”, explica;
- Erros na definição da dose, do tipo, do local e do momento de aplicação: “Erros na dose de fertilizantes e corretivos, por exemplo, podem levar a resultados que dificilmente serão revertidos no curto prazo”, diz.
A definição da dose de nutrientes sem considerar sua disponibilidade no solo e a necessidade da cultura pode resultar em aplicações insuficientes, com perda de produtividade, ou acima do necessário, aumentando o custo de produção.
Segundo ele, essa falha pode resultar em aplicações de doses insuficientes, que levam a menor produtividade, ou a doses acima do necessário, que aumentam desnecessariamente os custos de produção.
Por fim, o professor salienta que atenção especial deve ser dada para o modo de aplicação de nutrientes com baixa mobilidade no solo, como é o caso do Fósforo (P). Ele dá um exemplo:
“A aplicação superficial de P em áreas com baixo teor desse nutriente em subsuperfície pode resultar em menor produtividade da soja, especialmente em anos com déficit hídrico”.
Como o fósforo tende a permanecer concentrado no local onde é aplicado, a aplicação superficial em áreas declivosas também pode favorecer perdas por escoamento e erosão superficial.
Adubação da soja em períodos de déficit hídrico
A relação entre fertilidade do solo e disponibilidade de água merece atenção em períodos de seca. A falta de água interfere nos processos fisiológicos da soja e pode causar perdas maiores quando ocorre em etapas sensíveis do desenvolvimento da cultura.
Em publicação de 2026 sobre o enfrentamento da seca na soja, a Embrapa aponta que a redução das perdas provocadas pelo déficit hídrico depende da combinação de práticas de manejo, entre elas plantio direto bem conduzido, escolha de cultivares, escalonamento da semeadura e irrigação quando houver viabilidade técnica e econômica.
A nutrição da lavoura faz parte desse conjunto de decisões. Para Douglas Vaz-Tostes, gerente técnico nacional da GIROAgro, a escolha dos produtos deve considerar as necessidades da cultura e as características de cada área.
“A escolha correta dos insumos, principalmente dos fertilizantes, define a eficiência de todo o sistema produtivo”.
Dose e momento de aplicação também entram nesse planejamento. Segundo Vaz-Tostes:
“Quando o produtor investe em nutrientes adequados, na dose certa e no momento certo, ele reduz perdas, aumenta a rentabilidade e protege o potencial produtivo da cultura”.
Os dados mais recentes da Conab ajudam a dimensionar o desempenho da soja brasileira. Na safra 2025/26, a produção está estimada em 180,4 milhões de toneladas, maior volume da série histórica da Companhia. Na comparação com a temporada anterior, houve crescimento de 2,7% da área cultivada e de 2,5% da produtividade.
Os números da safra não significam que a adubação, isoladamente, explique o aumento da produtividade. Clima, cultivares, manejo do solo, sanidade da lavoura, disponibilidade de água e outras decisões tomadas durante o ciclo também interferem no rendimento.
No manejo da adubação, a orientação continua passando pela análise do solo, pela necessidade nutricional da cultura e pelas características de cada área.