Inteligência artificial, sensores, máquinas conectadas, telemetria e automação ampliam as possibilidades de gestão das propriedades rurais. Mas existe uma etapa anterior à escolha dessas tecnologias que pode determinar se o investimento realmente entregará resultados: entender se a fazenda possui estrutura e processos para utilizá-las.
A digitalização não precisa acontecer de uma só vez, principalmente em pequenas e médias propriedades. Antes de automatizar operações ou incorporar sistemas mais avançados, é possível organizar dados, melhorar a conectividade onde ela realmente é necessária, integrar informações e preparar as pessoas que utilizarão essas ferramentas.
Hoje, a conectividade no campo envolve diferentes tecnologias e realidades. Por isso, a pergunta central que todo produtor deve fazer sobre isso é: “qual problema preciso resolver e o que minha propriedade precisa para transformar dados em uma decisão melhor?”.
Ao longo desta matéria, entenda como avaliar o nível de maturidade digital da fazenda e por onde começar a digitalização sem precisar transformar toda a operação de uma só vez. Confira!
Conectividade no campo é o primeiro passo, mas não o único
A conectividade funciona como infraestrutura para muitas tecnologias digitais utilizadas na agricultura. Máquinas podem transmitir informações de telemetria, estações meteorológicas registram condições ambientais, sensores acompanham variáveis do solo e plataformas permitem visualizar indicadores da operação.
Isso não significa, porém, que toda tecnologia agrícola dependa de internet contínua em todos os hectares da propriedade.
Mayra Theis, sócia e líder de agronegócios da PwC Brasil, explica que diferentes alternativas podem ser combinadas conforme a realidade de cada fazenda.
“Diferentes tecnologias de conectividade, desde o rádio, passando por satélite, 3G e 4G, podem ser combinadas conforme a realidade da fazenda. Em muitas áreas rurais, qualquer camada inicial de conectividade já representa um avanço relevante”
Também existem ferramentas capazes de trabalhar parcialmente offline, armazenar informações localmente e realizar a sincronização posteriormente. GPS, planilhas padronizadas, determinadas aplicações de gestão e sensores com armazenamento local são exemplos de caminhos que permitem iniciar a digitalização mesmo quando a conexão ainda apresenta limitações
O diagnóstico, portanto, deve identificar onde a conectividade realmente é necessária.
Uma operação que depende de acompanhamento remoto em tempo real apresenta exigências diferentes de outra que precisa apenas coletar dados durante o dia e sincronizá-los posteriormente.
Capturar dados é diferente de gerar informação útil
Depois da conectividade, a segunda etapa da maturidade digital envolve os dados.
Máquinas agrícolas, sensores, estações meteorológicas, sistemas de irrigação e softwares podem produzir uma quantidade crescente de informações. O problema surge quando ninguém sabe exatamente o que fazer com elas.
Segundo Mayra, a qualidade dos dados pode representar um desafio ainda maior que a própria conexão.
“O principal desafio não costuma ser a conectividade, mas a confiabilidade dos dados. Ter um repositório organizado, padronizado e integrado é fundamental para avançar na esteira tecnológica”, explica.
Uma propriedade pode, por exemplo, registrar consumo de combustível de suas máquinas. O dado passa a ter valor gerencial quando permite comparar equipamentos, operações, áreas ou períodos e identificar desvios que exigem alguma ação.
A mesma lógica se aplica à umidade do solo, produtividade, temperatura, aplicações de insumos ou falhas operacionais.
Antes de instalar novos sensores, vale perguntar quais informações são realmente necessárias para resolver os gargalos identificados na propriedade.
Sistemas precisam conversar para que os dados ganhem valor
Outro estágio importante é a integração.
À medida que a fazenda incorpora tecnologias, existe o risco de acumular aplicativos, plataformas, planilhas e sistemas que funcionam isoladamente. O produtor pode ter informações importantes espalhadas em diferentes ambientes, mas enfrentar dificuldade para cruzá-las.
Imagine, por exemplo, uma propriedade que registra produtividade em uma plataforma, custos em outra e dados das máquinas em um terceiro sistema. Cada informação isoladamente tem utilidade, mas a integração pode permitir análises mais completas sobre custo operacional e resultado de determinada área.
É por isso que compatibilidade e interoperabilidade devem ser consideradas antes da contratação de uma tecnologia.
O objetivo não precisa ser colocar absolutamente todos os dados em um único sistema, mas garantir que as informações importantes possam ser relacionadas quando necessário.
Essa etapa ganha ainda mais relevância quando o produtor pretende avançar para automação e inteligência artificial, tecnologias que dependem de informações consistentes para gerar recomendações ou executar ações.
Digitalização também é um projeto de gestão
Conectividade, sensores e softwares não tomam decisões sozinhos. Alguém precisa acompanhar os indicadores, interpretar os resultados e definir o que fazer a partir deles.
Por isso, Mayra considera a gestão uma facilitadora do processo de digitalização.
“A tecnologia só gera valor quando está conectada a objetivos claros de negócio: reduzir custos, aumentar produtividade, melhorar rastreabilidade, otimizar uso de recursos ou elevar a previsibilidade da operação”, afirma.
Essa definição muda a lógica do investimento.
Em vez de começar pela solução disponível, o pequeno ou médio produtor pode identificar primeiro onde estão suas principais perdas ou dificuldades.
O diagnóstico pode partir de perguntas simples:
- Onde estão os principais gargalos produtivos, operacionais ou financeiros?;
- Quais decisões ainda dependem apenas de percepção ou experiência, sem dados suficientes?;
- Que informação ajudaria a tomar uma decisão melhor?;
- Qual indicador permitiria saber se houve melhora?;
- Quem ficará responsável por acompanhar esse indicador?;
- Quanto custa atualmente o problema que se pretende resolver?.
A partir das respostas, torna-se mais fácil escolher uma primeira aplicação e avaliar seu resultado antes de ampliar o projeto.
Pequeno e médio produtor não precisa digitalizar tudo de uma vez
A diferença de estrutura entre propriedades é um ponto importante da transformação digital do agro. Enquanto algumas operações já contam com sistemas integrados, máquinas conectadas e equipes dedicadas à análise de dados, outras ainda estão construindo os primeiros passos dessa jornada.
Um estudo realizado pela PwC Brasil e pela Fundação Dom Cabral, por meio do Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr), mostra que a maturidade digital do agronegócio brasileiro avançou de 3,1 pontos, em 2024, para 3,6 pontos no ano seguinte. O resultado indica uma evolução na digitalização do setor, mas também evidencia que incorporar novas tecnologias é apenas parte desse processo. Entre os principais desafios apontados pelo estudo estão as barreiras culturais e a necessidade de transformar a inovação em um projeto de longo prazo.
Para pequenos e médios produtores, isso reforça a importância de não tratar a digitalização como uma corrida para incorporar todas as tecnologias disponíveis. O caminho pode começar pela identificação dos problemas que mais afetam a operação e pela escolha de soluções compatíveis com a estrutura da propriedade.
Para Mayra, a melhor estratégia é começar com prioridades bem definidas.
“A recomendação é começar por um diagnóstico simples da propriedade: quais são os principais gargalos produtivos, operacionais ou financeiros? Onde há perda de eficiência? Quais decisões ainda são tomadas sem dados?”, afirma.
A partir desse diagnóstico, a especialista recomenda priorizar uma ou duas frentes de maior impacto e menor complexidade. Essa abordagem permite testar a tecnologia, capacitar a equipe, acompanhar os resultados e construir gradualmente uma cultura de utilização de dados.
Assim, a digitalização deixa de ser um grande projeto de transformação e passa a ser uma jornada construída a partir das necessidades reais da propriedade.
Capacitação é parte da infraestrutura digital
Pequenos e médios produtores podem encontrar dificuldades relacionadas à contratação de serviços especializados e à disponibilidade de mão de obra capacitada para trabalhar com tecnologias mais avançadas.
Por isso, o treinamento não deve aparecer apenas depois da compra.
Antes de investir, é importante avaliar quem utilizará a ferramenta, qual nível de conhecimento será necessário, como acontecerá o suporte e quem será responsável pela interpretação dos dados.
Uma solução sofisticada pode acabar subutilizada se a equipe não conseguir incorporá-la à rotina.
A infraestrutura digital da propriedade, portanto, não é formada apenas por antenas, máquinas e computadores. Conhecimento também faz parte dessa infraestrutura.
Quando automação e inteligência artificial entram na jornada?
Automação e inteligência artificial aparecem nas etapas mais avançadas porque dependem diretamente da estrutura construída anteriormente.
Um sistema automatizado de irrigação, por exemplo, precisa receber informações confiáveis sobre solo, clima e necessidade hídrica da cultura para definir quando e quanto irrigar.
A inteligência artificial amplia essa capacidade ao cruzar grandes volumes de dados, identificar padrões e apoiar previsões relacionadas à produtividade, pragas, aplicação de insumos ou riscos da operação.
Mas a qualidade da resposta continua dependendo da qualidade da informação utilizada.
Como explica Mayra, “conectividade, captura e integração de dados formam a base para tecnologias como automação e inteligência artificial”. Por isso, investir primeiro na organização da propriedade pode gerar mais resultado do que simplesmente adquirir a tecnologia mais avançada disponível.
Qual é o nível de maturidade digital da sua propriedade?
Para pequenos e médios produtores que pretendem avançar na digitalização, uma avaliação simples pode ajudar a definir os próximos passos:
1. Conectividade: verificar quais áreas possuem cobertura e quais operações realmente precisam transmitir informações em tempo real;
2. Captura: identificar quais dados já são produzidos por máquinas, sensores, softwares e processos da propriedade;
3. Integração: avaliar se as informações conseguem ser relacionadas ou permanecem dispersas em diferentes plataformas;
4. Gestão: definir indicadores, responsáveis e uma rotina para transformar informação em decisão;
5. Automação e IA: identificar processos nos quais essas tecnologias podem gerar ganho mensurável depois que as etapas anteriores estiverem estruturadas.
Essa jornada não precisa acontecer na mesma velocidade para todas as propriedades.
Conectividade no campo precisa gerar decisão, não apenas dados
A digitalização do agro não começa necessariamente com inteligência artificial, automação ou a compra de uma nova máquina conectada.
Para muitas propriedades, o primeiro avanço pode estar em organizar informações que já existem, melhorar a conectividade em pontos estratégicos, padronizar registros ou adotar uma ferramenta simples de gestão.
A partir dessa base, sensores, telemetria, agricultura de precisão e inteligência artificial passam a encontrar um ambiente mais preparado para entregar resultados.
A conectividade no campo é fundamental para essa transformação, mas ela representa uma parte de uma estrutura maior. Dados confiáveis, integração, gestão e capacitação precisam avançar junto com a infraestrutura tecnológica.
Para o produtor, isso significa que digitalização não precisa ser uma corrida para incorporar todas as novidades disponíveis. Pode ser uma jornada gradual, orientada pelos problemas reais da propriedade e pela capacidade de transformar informação em decisões melhores.
Para quem quer avançar na digitalização, também vale acompanhar os ambientes que aproximam produtores, startups e novas tecnologias dos desafios reais da produção. Leia também como o Agrishow Labs conecta inovação, conhecimento e negócios para impulsionar o futuro do agro.