A adubação verde usa plantas de cobertura para proteger o solo, produzir biomassa, reciclar nutrientes e preparar a área para a cultura seguinte. A escolha da espécie muda conforme o clima, a janela entre safras e o problema que o produtor quer tratar.
Leguminosas, como crotalárias e guandu, podem contribuir com a fixação biológica de nitrogênio. Gramíneas, como milheto e aveia, produzem palhada e ajudam na proteção do solo. Já espécies como o nabo-forrageiro têm raízes vigorosas e são usadas quando o objetivo inclui melhorar a estrutura de camadas adensadas.
Por isso, além de entender o que é adubação verde, é preciso observar qual planta de cobertura cabe na rotação, quando semear e em que momento fazer o manejo.
O que é adubação verde e como funciona?
Em praticamente todo tipo de atividade agrícola, o solo é o elemento mais importante. Afinal, sem ele, não há produção, nem produtividade. Dessa forma, é cada dia mais necessário adotar estratégias para cuidar deste bem tão precioso.
Para José Guilherme Marinho Guerra, pesquisador da Embrapa Agrobiologia, uma dessas estratégias é a adubação verde, que ele define da seguinte forma:
“A adubação verde é uma técnica agrícola de base ecológica que consiste no cultivo de uma espécie, ou de uma mistura de espécies, chamada de adubo verde ou de planta de cobertura de solo, que em grande medida apresenta alta capacidade de produção de fitomassa”.
Consequentemente, a adubação verde tem como grande objetivo auxiliar no processo de nutrição do solo usando, para isso, diversas espécies de plantas.
“As espécies para adubação verde são pertencentes em sua maioria às famílias botânicas Fabaceae (leguminosa) e Poaceae (gramínea) e, em menor extensão, às famílias Asteraceae (composta), Brasicaceae (crucífera) e Poligonaceae”, explica Guerra.
Além disso, as espécies utilizadas para tal finalidade podem ser de clima tropical, subtropical ou temperado. Também apresentam porte herbáceo, arbustivo ou arbóreo; ciclo anual, semiperene ou perene; e hábitos de crescimento rastejante, volúvel ou ereto.

Benefícios da adubação verde para o solo e a lavoura
A adubação verde possui uma série de vantagens quando adotada em diferentes sistemas agrícolas.
Para José Guilherme Guerra, a adubação verde é essencial para ajudar a melhorar as condições de cultivo das lavouras, o que resulta normalmente em benefícios à maioria das lavouras comerciais ou destinadas ao consumo próprio.
“Esse benefício se dá pela ação na proteção e na conservação dos solos, por meio da melhoria de suas características químicas, físicas e biológicas e da capacidade de ciclagem e disponibilização de nutrientes”, salienta o pesquisador.
Além do mais, para o pesquisador da Embrapa, o cultivo de adubos verdes oferece muitos outros benefícios e vantagens, tais como:
- Auxilia no controle de pragas e doenças de solo;
- Auxilia no controle biológico e conservativo de pragas agrícolas. “As plantas atuam funcionando como local de abrigo, e como recurso alimentar por meio do acesso ao pólen e ao néctar floral, para artrópodes benéficos”, explica Guerra;
- Ajuda a atrair polinizadores;
- Contribui para manter plantas espontâneas competidoras em níveis toleráveis;
- Permite uma troca de cátions mais efetiva do solo;
- Aumento da microbiota benéfica dos solos;
- Auxilia na descompactação do solo;
- Diminui os teores de Al que, por consequência, ajudam no aumento na absorção de fósforo nos solos;
- Aumento da infiltração de água no corpo do solo, possibilitando maior armazenamento e evitando o escorrimento superficial.
O efeito muda conforme a espécie escolhida. Enquanto leguminosas são usadas quando há interesse em fixação biológica de nitrogênio, gramíneas costumam entregar grande volume de cobertura e palhada. Plantas com sistema radicular vigoroso, como o nabo-forrageiro, entram em rotações que buscam melhorar a estrutura física do solo.
Como escolher espécies para adubação verde?
A escolha depende do objetivo do manejo, do clima, da cultura seguinte e do tempo disponível entre safras. Veja algumas espécies usadas como plantas de cobertura e suas principais características.
| Espécie | Uso principal | Ciclo/manejo | Dose indicativa | Época de referência |
|---|---|---|---|---|
| Crotalária-júncea | Biomassa e fixação de N | cerca de 90 a 120 dias até o florescimento | 27 a 35 kg/ha | outubro a dezembro como faixa preferencial; setembro e janeiro a março com restrições regionais |
| Milheto | Palhada, cobertura e sistema radicular | cerca de 60 a 90 dias | 15 a 40 kg/ha para cobertura, conforme sistema | em grande parte do Brasil, outubro a fevereiro |
| Aveia-preta | Cobertura de inverno e supressão de plantas daninhas | aproximadamente 70 a 130 dias | cerca de 60 kg/ha para produção de fitomassa | principalmente outono-inverno; abril e maio são referência para vários materiais |
| Nabo-forrageiro | Raiz profunda, ciclagem e cobertura | florescimento próximo de 80 dias | 3 a 15 kg/ha, conforme sistema | abril e maio |
| Guandu-anão | Fixação de N e exploração radicular | aproximadamente 90 a 120 dias | 40 a 50 kg/ha | outubro a dezembro como faixa preferencial |
Fontes: Embrapa e referências técnicas das espécies. As doses e épocas podem variar conforme cultivar, região e sistema de semeadura.
Adubação verde por cultura: quais plantas de cobertura usar?
| Cultura | Coberturas que podem entrar no sistema | Janela a observar |
|---|---|---|
| Soja | milheto, braquiárias e crotalárias em ambientes quentes; aveia-preta, nabo-forrageiro, ervilhaca e outras coberturas de inverno nas regiões mais frias | entressafra ou cultivo antecedente, de acordo com a região |
| Milho | braquiárias, crotalárias e guandu podem entrar em consórcio ou sucessão; espécies de inverno também podem anteceder o milho | consórcio ou intervalo entre safras |
| Trigo | a cobertura deve respeitar a rotação e o tempo disponível; após a colheita, espécies de ciclo curto podem ocupar janelas antes da cultura seguinte | pós-colheita, quando houver um intervalo suficiente |
| Hortaliças | aveias, milheto, crotalárias e nabo-forrageiro são opções usadas em sistemas com cobertura permanente do solo | escolher conforme calendário da hortaliça e clima regional |
A Embrapa registra diferentes sequências possíveis envolvendo soja, milho, trigo, milheto, aveia, nabo-forrageiro, crotalárias e outras coberturas. Em áreas de segunda safra após soja, também há consórcios específicos voltados à ciclagem de nutrientes e ao rompimento biológico de camadas compactadas.
Para a soja, há evidência experimental de que a resposta não deve ser tratada como automática: em estudo da Embrapa em Sinop, diferentes coberturas alteraram a quantidade de palhada, mas um único ano de uso não foi suficiente para produzir diferenças no rendimento da soja. Esse é um bom dado para evitar promessas exageradas.
Doses, tempo de cobertura e manejo da adubação verde
Como você viu, o emprego dos adubos verdes garante uma série de benefícios. Mas, para bons resultados, essa técnica deve ser muito bem planejada para, acima de tudo, evitar possíveis malefícios ou prejuízos com o seu uso.
O tempo de permanência da cobertura depende da espécie e do objetivo. Milheto e nabo-forrageiro podem chegar ao florescimento em cerca de 60 a 90 dias, enquanto crotalária-júncea pode demandar aproximadamente 90 a 120 dias. Em sistemas de hortaliças avaliados pela Embrapa, os ciclos até o florescimento variam bastante entre as plantas de cobertura.
O florescimento pode servir como referência de manejo, como já explica José Guilherme Marinho Guerra abaixo, mas a operação precisa considerar a formação de sementes, a cultura seguinte e se a biomassa ficará como palhada ou será incorporada.
Guerra explica que a prática de adubação verde é comumente conduzida seguindo algumas etapas, que são:
1. Semeadura da(s) espécie(s) ou do transplantio de mudas (no caso de espécie arbórea) em área mantida sob pousio;
2. Crescimento do adubo verde por período de tempo a ser definido pelo próprio agricultor;
3. Roçada ou da poda da parte aérea das plantas (uma referência no ciclo de cultivo é por ocasião do florescimento);
4. Incorporação ao solo, ou manutenção da fitomassa na superfície do terreno, na mesma área ou transportada para glebas de cultivo adjacentes.
“Este sistema de manejo da adubação verde é definido como em sucessão ou pré-cultivo à lavoura de interesse”, complementa o pesquisador.
Além disso, o pesquisador da Embrapa Agrobiologia explica que o adubo verde pode também ser cultivado consorciado à espécie de interesse econômico. “Essa estratégia é preconizada com alguma frequência em lavouras de milho”, salienta.
No caso de a espécie empregada na adubação verde ser de porte arbustivo ou, principalmente, arbóreo, o consórcio é chamado comumente de cultivo em faixa intercalar ou em aleia.

Riscos da adubação verde e como evitar problemas
Assim como ocorre com qualquer prática agrícola, os melhores resultados com a adubação verde dependem da adoção de alguns cuidados bastante importantes.
No caso da adubação verde, José Guilherme Guerra explica que é necessário ter muito cuidado com a escolha da espécie.
“Nessa escolha, o agricultor deve buscar identificar aquela espécie que tenha informações disponíveis para as condições locais, particularmente climáticas e épocas mais adequadas de cultivo”, sugere.
Outro aspecto merecedor de destaque diz respeito a conhecer se o adubo verde é hospedeiro de fitomoléstias ou de pragas agrícolas que comprometam o desempenho agronômico das lavouras econômicas.
No caso de serem empregadas como cultivo intercalar, é importante observar também o hábito de crescimento e vigor das plantas destinadas à adubação verde, para que não venham competir por recursos com a cultura agrícola, ou prejudicar a execução de algum trato cultural.
No que se refere aos desafios, o pesquisador da Embrapa Agrobiologia destaca a importância da definição da estratégia de manejo da adubação verde mais adequada à realidade do cultivo econômico que se beneficiará desta prática agrícola.
Neste sentido, o planejamento do desenho do arranjo produtivo, levando em consideração aspectos espaciais e temporais da introdução do adubo verde, não podem ser negligenciados.
Outro desafio atual citado por Guerra se refere à aquisição de sementes ou mudas de espécies de cobertura de solo recomendadas para adubação verde.
“Na atualidade, a disponibilidade no comércio é limitada e restrita a poucas espécies”, finaliza o pesquisador da Embrapa.
Aproveite este tema para entender o que é e como adotar o conceito de agrofloresta na sua propriedade.
Dúvidas sobre adubação verde
Quais espécies de adubação verde usar antes da soja?
A escolha varia conforme a região e a janela disponível. Milheto, braquiárias e crotalárias são opções usadas em regiões mais quentes, enquanto aveia-preta, nabo-forrageiro e ervilhaca podem entrar em sistemas de inverno. Também é preciso considerar doenças e nematoides presentes na área.
Quanto tempo deixar a adubação verde?
O período varia conforme a espécie e o objetivo do manejo. Algumas plantas chegam ao florescimento em cerca de 60 a 90 dias, enquanto outras podem passar de 120 dias. O manejo também deve considerar a formação de sementes e a implantação da cultura seguinte.
A adubação verde substitui a adubação mineral?
Não necessariamente. As plantas de cobertura podem reciclar nutrientes e, no caso das leguminosas, contribuir para a entrada de nitrogênio no sistema. A necessidade de fertilizantes deve considerar a análise do solo e a recomendação agronômica.