A produção mundial de soja certificada pela Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS) ultrapassou 10 milhões de toneladas pela primeira vez em 2025. Foram 10,3 milhões de toneladas, volume 42% superior ao registrado no ano anterior.

O crescimento ocorre em um período no qual compradores e diferentes elos da cadeia cobram informações sobre origem, práticas agrícolas e critérios socioambientais associados à produção.

Para o produtor, a certificação entra nessa discussão como uma forma de comprovar o atendimento a determinados padrões. Ela também exige procedimentos, auditorias e registros que precisam ser considerados antes da adesão.

Soja certificada supera 10 milhões de toneladas

Além do avanço da produção, o consumo de material certificado pela RTRS chegou a 8,1 milhões de toneladas em 2025, alta de 9,5% em relação às 7,4 milhões de toneladas de 2024.

A organização reúne mais de 84 mil produtores certificados no mundo. No Brasil, a área ligada à certificação ultrapassou 6,1 milhões de hectares em 2025.

À frente da RTRS há um ano, a diretora-executiva Marina Muscolo aponta o caráter multissetorial da associação como parte do processo de definição e revisão dos critérios adotados.

“O grande valor da RTRS está em ser uma mesa-redonda multissetorial, onde diversos interesses e perspectivas se juntam em um mesmo espaço de diálogo. Ao colocar todos nessa conversa, conseguimos trabalhar os desafios comuns e construir soluções mais sustentáveis”, afirma Marina.

O que a certificação da soja verifica?

O padrão RTRS para produção de soja responsável reúne cinco princípios e 108 indicadores obrigatórios e progressivos de conformidade.

Os critérios abrangem cumprimento legal e boas práticas empresariais, condições responsáveis de trabalho, relações com comunidades, responsabilidade ambiental e boas práticas agrícolas. O padrão também estabelece requisitos relacionados a desmatamento e conversão de áreas naturais.

A certificação pode ser adotada por propriedades de diferentes portes, de forma individual ou em grupo. O modelo coletivo permite reunir produtores sob uma gestão comum para etapas do processo, inclusive a preparação para auditorias.

“Estamos trabalhando em um padrão voltado aos pequenos produtores, porque precisamos ajustar alguns aspectos para tornar o processo de certificação mais acessível. A certificação em grupo já faz uma diferença importante, porque permite que pequenos produtores se organizem e contem com um gerente de grupo para apoiá-los em todo o processo, inclusive na preparação para a auditoria”, detalha Marina.

A discussão sobre certificação da soja não se restringe à RTRS. A Embrapa Soja, por exemplo, desenvolve o Programa Soja Baixo Carbono (PSBC), que prevê certificação voluntária e de terceira parte para sistemas produtivos que reduzam a intensidade das emissões de gases de efeito estufa.

A metodologia considera práticas agrícolas e indicadores mensuráveis, reportáveis e verificáveis. A validação do protocolo está prevista para ser concluída em 2026.

Rastreabilidade ganha peso na cadeia da soja

Outro ponto ligado à certificação é a rastreabilidade agrícola, que permite acompanhar informações sobre o produto ao longo da cadeia.

Na RTRS, o padrão de Cadeia de Custódia estabelece mecanismos para administrar e acompanhar o material certificado ao longo de etapas como armazenamento, processamento e comercialização.

Em março de 2026, a estrutura ligada à Cadeia de Custódia da entidade contava com mais de 250 instalações de armazenagem, 70 plantas de processamento e 30 portos autorizados a operar material certificado.

A associação também vem revendo os mecanismos usados para acompanhar a soja ao longo da cadeia, incluindo modelos de fluxo físico e créditos de sustentabilidade.

Essa distinção é importante porque certificação e rastreabilidade não eliminam automaticamente outras obrigações. Dependendo do mercado comprador e da regulamentação aplicável, podem ser exigidos procedimentos próprios de comprovação de origem, geolocalização, análise de risco ou due diligence. Essas exigências já aparecem nas discussões sobre regras ambientais para exportação de commodities agrícolas.

“O mercado e as regulações estão mudando rapidamente, e ainda estamos vendo como essas exigências vão amadurecer. Precisamos adaptar a certificação para que ela seja útil para a indústria e, ao mesmo tempo, gere retorno para o produtor”, explica Marina.

O que o produtor deve avaliar antes de buscar uma certificação?

A expansão da soja certificada não significa que a adesão seja automaticamente vantajosa para toda propriedade.

Antes de entrar em um programa, o produtor precisa conhecer os critérios exigidos, verificar quais registros e controles terá de manter e entender como funcionam auditorias e custos. Também cabe identificar se compradores, tradings ou outros clientes com os quais negocia reconhecem aquele padrão e quais condições comerciais estão associadas à certificação.

Esse ponto ganha importância porque diferentes programas podem verificar aspectos distintos da produção. Enquanto o padrão RTRS reúne requisitos ambientais, sociais, legais e agrícolas, outras iniciativas podem concentrar a certificação em indicadores específicos, como emissões de gases de efeito estufa.

Para Marina, aproximar as exigências da cadeia das condições encontradas nas propriedades continuará sendo um dos desafios da certificação.

“A força da RTRS está em reunir todos esses interesses e tentar encontrar soluções para desafios que temos em comum. É nesse processo de diálogo que conseguimos avançar”, conclui.