Minas Gerais encerrou o ciclo de certificação da safra 2025/2026 com 13 propriedades rurais aprovadas no Programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR). O resultado, anunciado pela Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), reforça o peso da produção mineira em um mercado que cobra, com mais rigor, comprovação de origem, boas práticas trabalhistas, manejo ambiental e controle da operação.
As fazendas aprovadas passaram pelas etapas de Verificação para Diagnóstico da Propriedade (VDP) e pelo Plano de Correção de Não Conformidades (PCNC), com acompanhamento técnico da Amipa. Com isso, mantêm ao mesmo tempo o reconhecimento internacional da Better Cotton, selo usado como referência por compradores da cadeia têxtil.
Para o setor, a certificação deixou de ser um item paralelo e passou a entrar na rotina da fazenda. Ela serve como comprovação de que a propriedade atende regras ligadas ao trabalho no campo, à condução ambiental da lavoura e ao controle dos processos que cercam a produção da pluma.
“Essas treze propriedades mostram que o produtor mineiro tem incorporado a certificação à gestão da fazenda. Além de atender às exigências do mercado, o processo melhora rotinas, amplia a segurança dos trabalhadores e torna a operação mais eficiente”, afirma Daniel Bruxel, presidente da Amipa.
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Certificação vai além da auditoria
Segundo a Amipa, o trabalho de preparação começa meses antes da auditoria oficial. A entidade faz diagnósticos prévios, aponta ajustes e orienta a adoção dos protocolos exigidos pelo programa. Esse percurso inclui documentos, registros de campo, adequações na rotina trabalhista e revisão de práticas ambientais.
“A certificação conjunta ABR e BCI exige 90% de conformidade nos critérios estabelecidos, com obrigatoriedade total nos Critérios Mínimos de Produção. Ofertamos os modelos de documentos e a assessoria técnica para que as propriedades adotem os protocolos exigidos pelo mercado”, explica Luis André de Queiroz, consultor técnico da Amipa.
Em resumo, processo funciona como uma revisão ampla da fazenda. Entram nessa conta o cumprimento da CLT e da Norma Regulamentadora nº 31, o uso correto de defensivos, a destinação de resíduos, os cuidados com saúde e segurança do trabalhador e o registro das atividades que permitem rastrear a produção.
O que o ABR passou a cobrar com mais detalhe
Criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão em 2012, o ABR tem como base a conformidade trabalhista e as boas práticas agrícolas. Em 2026, a própria Abrapa informou que o programa seguia com a meta de ampliar o número de fazendas certificadas no país, sinal de que a cobrança por comprovação de origem e de processo não perdeu força.
O programa também passou a organizar melhor sua prestação de contas. Neste ano, lançou o primeiro relatório de sustentabilidade baseado no padrão internacional Global Reporting Initiative, movimento que acompanha a cobrança da indústria têxtil por dados mais consistentes sobre produção, ambiente e trabalho no campo.
“O setor têxtil necessita desses dados e atualizamos os temas estratégicos do programa para reportar esses avanços de forma estruturada”, diz Fábio Carneiro, gerente de Sustentabilidade da Abrapa.
Entre os pontos observados nas propriedades estão ações de adaptação climática, como uso de energia fotovoltaica, adoção de plantas de cobertura e mapeamento de emissões de carbono em parceria com a Embrapa. O programa também ganhou novo arranjo institucional com a estruturação do Instituto ABR, que reúne produtores, indústria, academia, ONGs e marcas do varejo.
Do campo ao fardo, rastreabilidade pesa mais nas vendas
A aprovação no ABR habilita o produtor a comercializar a safra como algodão certificado Better Cotton. Isso tem efeito direto na relação com compradores externos, num momento em que cresce a exigência por rastreabilidade física e por documentação que comprove origem e impacto da produção.
Em Minas Gerais, um dos exemplos citados pela Amipa é o do Grupo Farroupilha, de Patos de Minas, que mantém cinco propriedades certificadas nos municípios de Coromandel, Presidente Olegário, São Gonçalo do Abaeté e Buritizeiro. Para a empresa, a auditoria externa ajuda a sustentar a confiança do comprador na fibra produzida.
“Aos compradores, o selo assegura que temos controle sobre o uso de defensivos, que os trabalhadores têm acesso a equipamentos de proteção e exames médicos, e que passam por treinamentos regulares. O monitoramento rastreia da semente até o fardo, preservando a qualidade da fibra, que é processada em nossa unidade em Patos de Minas”
Esse tipo de controle ajuda a explicar por que a certificação ganhou espaço na comercialização da pluma. Segundo dados do setor, o Brasil responde por mais de um terço do volume global licenciado para esse mercado, o que coloca o tema da rastreabilidade no centro das decisões de venda para o exterior.
Minas amplia área certificada e quer trazer novas fazendas
Minas Gerais ocupa a quarta posição entre os maiores produtores brasileiros de algodão na safra 2025/2026, com mais de 39 mil hectares plantados. Desse total, mais de 17 mil hectares estão em áreas certificadas. O estado também carrega o registro de maior produtividade do país em 2023, com 2.045 quilos de pluma por hectare, segundo dados citados pela Amipa com base em informações da Abrapa e da Agência Minas.
A meta agora é ampliar essa base. Para isso, a Amipa trabalha com um ciclo de adaptação de dois anos: no primeiro, a fazenda passa por diagnóstico e implantação das correções; no segundo, segue para auditoria e certificação. O desenho busca colocar mais propriedades mineiras dentro de uma cadeia que cobra documentação, rastreio e padrão de produção.
“Nós trabalhamos em conjunto com o Estado no programa Certifica Minas Algodão. Nossa meta é formar uma teia de certificações que dê garantia total à indústria têxtil sobre a fibra que sai de Minas Gerais”, afirma Luis André.
Se esse movimento continuar, Minas tende a chegar à próxima safra com uma oferta maior de algodão apto a atender compradores que pedem origem comprovada, controle de processo e padrão de produção compatível com as exigências do comércio internacional.