A China continua como principal destino da soja brasileira, mas mudanças na demanda internacional e o avanço do processamento nos próprios países produtores acrescentam novos indicadores à análise do mercado.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil embarcou 92,98 milhões de toneladas de soja, sendo 65,01 milhões destinadas à China. O volume corresponde a 69,9% das exportações brasileiras do período. Em 2025, a participação chinesa havia sido de 79,1%.
Com o crescimento da demanda chinesa perdendo força, fatores como esmagamento, comportamento do óleo de soja e margem da indústria passam a dividir espaço com indicadores já acompanhados pelo produtor, como Chicago, câmbio, prêmio e clima.
China segue importante, mas participação nas exportações diminui
A redução da participação chinesa nas exportações brasileiras não significa que o país tenha deixado de ocupar uma posição central no comércio da oleaginosa. A China continua sendo o principal comprador do produto brasileiro. O que mudou foi sua participação no crescimento da demanda.
Um dos fatores citados é o comportamento do rebanho suíno chinês. Depois de alcançar 43,6 milhões de cabeças em 2023, o número recuou para cerca de 40 milhões em 2026. O crescimento do plantel durante os anos anteriores sustentou maior consumo de ração e farelo e, por consequência, maior necessidade de soja.
“A China continua sendo um mercado muito importante para a soja brasileira, mas o cenário está mudando. O produtor precisa começar a olhar com mais atenção para o que acontece dentro dos próprios países produtores, porque é ali que uma parte importante da nova demanda está aparecendo”
Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.
Esmagamento de soja cresce no Brasil e nos Estados Unidos
Parte dessa nova demanda vem do processamento interno da soja. No Brasil, o esmagamento passou de 36,4 milhões de toneladas em 2012 para 58,7 milhões em 2025. Para 2026, a projeção apresentada pela Biond Agro chega a 62,5 milhões de toneladas.
Nos Estados Unidos, o processamento atingiu 64,6 milhões de toneladas na temporada 2025/26, equivalente a aproximadamente 57% da safra norte-americana.
Quanto maior o volume processado dentro dos países produtores, maior tende a ser a participação da indústria doméstica na demanda pelo grão. O esmagamento gera farelo e óleo, e a relação entre o valor desses derivados e o preço pago pela soja interfere na decisão das empresas de ampliar ou reduzir o processamento.
“O crescimento do esmagamento faz com que a indústria ganhe mais peso na formação da demanda. Para o produtor, isso significa acompanhar não apenas o mercado externo, mas também o quanto as indústrias estão dispostas a processar e as condições que sustentam essa decisão”, explica Yedda.
Óleo de soja ganha peso com demanda por biocombustíveis
O aumento do processamento também amplia a quantidade de farelo e óleo disponível no mercado. O farelo permanece associado principalmente à alimentação animal, enquanto o óleo passou a contar com outra fonte de demanda: os biocombustíveis.
Brasil, Estados Unidos e Indonésia vêm aumentando, por mecanismos diferentes, o uso de óleos vegetais para a produção de combustíveis.
Essa demanda adiciona uma variável à conta das indústrias que processam soja, já que o preço obtido com o óleo interfere no retorno econômico do esmagamento.
Segundo os dados apresentados pela Biond Agro, o óleo de soja lidera a valorização entre os componentes do complexo em 2026, com alta de aproximadamente 44%.
“O óleo deixou de ser visto apenas como um produto que sai do esmagamento. A demanda ligada à energia acrescenta uma nova variável ao mercado e pode alterar a conta da indústria. Por isso, acompanhar o comportamento do óleo passou a ser tão importante quanto observar o farelo”, diz Yedda.
Margem de esmagamento ajuda a medir apetite da indústria
Outro indicador citado é a margem de esmagamento, que representa a relação entre o custo da soja comprada pela indústria e o valor obtido com a comercialização de farelo e óleo. Ela pode ajudar a indicar se as condições econômicas são favoráveis ao aumento do processamento.
Os números apresentados mostram diferenças entre mercados. Nos Estados Unidos, a margem está em US$ 114,05 por tonelada, cerca de 24% acima da média dos últimos cinco anos. Na China, chega a US$ 18,73 por tonelada, próxima da média histórica de US$ 16,01.
Essa diferença ajuda a explicar as condições mais favoráveis ao processamento doméstico norte-americano no período analisado.
“Quando a margem melhora, a indústria ganha mais incentivo para processar. É um indicador que pode ajudar o produtor a entender o comportamento do comprador antes mesmo de essa movimentação aparecer de forma mais clara no mercado físico”, destaca Yedda.
O que passa a entrar no radar do produtor
China, Chicago, câmbio, prêmio e clima permanecem entre os indicadores acompanhados na formação dos preços da soja e nas decisões de venda. A leitura proposta pela analista acrescenta outras variáveis relacionadas à indústria.
Entre elas estão:
- margem de esmagamento;
- comportamento do preço do óleo de soja;
- participação do óleo no valor dos derivados;
- estoques de óleo;
- expansão da capacidade de processamento;
- políticas ligadas aos biocombustíveis.
Para produtores que ainda possuem soja da safra 2025/26, a demanda industrial pode fazer parte da análise sobre eventuais momentos de venda. Condições favoráveis de processamento combinadas a movimentos de câmbio ou da Bolsa de Chicago podem alterar o ambiente de comercialização.
“O mercado continua sendo influenciado por China, Chicago, câmbio e clima, mas a indústria está ocupando um espaço maior nessa equação. Olhar para as margens, para o óleo e para a demanda por processamento ajuda a construir uma leitura mais completa do mercado e das oportunidades de comercialização”, conclui Yedda.