Na hora de comprar fertilizantes, olhar apenas para a cotação do dia pode não ser suficiente. Disponibilidade de produto, prazo de entrega, condições logísticas e movimentos do mercado internacional também entram na conta, especialmente quando as aquisições se concentram em determinados períodos.
O cenário ganha importância para culturas como soja e milho, grandes consumidoras de nitrogenados, fosfatados e potássio. Para o produtor, acompanhar esses diferentes fatores pode ajudar a definir não apenas quanto pagar, mas também quando negociar e como organizar as entregas.
Segundo Marcelo Soto, Head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA Brasil Aliança, o Brasil ampliou a diversificação dos países fornecedores, mas o ritmo das importações permanece abaixo do esperado para esta época do ano.
A postergação das compras, segundo sua análise, pode fazer com que uma parcela maior da demanda se concentre nos próximos meses. Com mais compradores procurando os mesmos produtos em um intervalo menor de tempo, disponibilidade, logística e capacidade de atendimento dos fornecedores passam a ter peso maior na decisão.
“Quando um grande número de compradores entra ao mesmo tempo em busca dos mesmos produtos, a oferta se torna mais restrita, os fornecedores ampliam suas margens e cresce o risco de atrasos nas entregas”, explicou Soto durante debate realizado noConexão SCA Brasil, realizado em 30 de julho. Ele destacou que esse movimento preocupa especialmente pelas culturas como soja e milho, grandes consumidoras de nitrogenados, fosfatados e potássio.
Importações também entram no radar
Entre janeiro e julho de 2026, as importações registraram queda de 32% para ureia, 24% para MAP e 43% para nitrato de amônio, na comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados apresentados por especialistas do setor.
Os números ajudam a colocar a disponibilidade dos produtos entre os pontos a serem considerados no planejamento das compras.
Para Soto, o desafio pode ser maior caso muitos compradores recorram ao mercado simultaneamente, principalmente quando há necessidade de entrega imediata.
“Entregas imediatas de nitrato podem ser um problema, e isso traz bastante insegurança para o mercado, se todo mundo decidir comprar ao mesmo tempo. Isso reforça a necessidade de acompanhamento constante do mercado e de planejamento das aquisições, reduzindo a exposição aos riscos logísticos e comerciais”, avalia Soto.
Nesse contexto, organizar as aquisições com antecedência pode contribuir para reduzir a dependência de compras realizadas justamente nos períodos de maior utilização da estrutura logística.
O mercado internacional pode mexer com os preços
Além da oferta disponível no Brasil, fatores externos continuam influenciando a formação dos preços dos fertilizantes.
Renata Cardarelli, Especialista em Precificação de Agricultura e Fertilizantes da Argus Media, explica que parte dos riscos geopolíticos decorrentes dos conflitos internacionais já foi incorporada aos preços. Os nitrogenados, porém, seguem especialmente sensíveis às mudanças do cenário global.
“A ureia é um dos produtos mais voláteis do mercado. Em momentos de maior tensão internacional, os preços podem subir rapidamente, assim como recuar em curto espaço de tempo. Ainda assim, o cenário atual aponta para uma tendência de preços firmes”, afirmou a especialista.
Além dos conflitos no Oriente Médio e da guerra na Ucrânia, outros movimentos podem influenciar os preços internacionais, como os leilões de compra promovidos pela Índia, as políticas de exportação da China — especialmente para nitrogenados e fosfatados — e a redução da oferta por grandes produtores mundiais.
No mercado brasileiro, o ritmo das aquisições para o milho safrinha também merece acompanhamento.
“Estamos em um momento que o mercado brasileiro intensifica as compras pra safrinha de milho e isso chama a atenção dos players de mercado”, analisa Renata.
A especialista também aponta que eventuais restrições ao fluxo de cargas no Estreito de Ormuz podem ter reflexos sobre fretes, disponibilidade de produtos e custos para países importadores, como o Brasil.
Afinal, o que observar antes da compra?
Em um mercado sujeito a oscilações, esperar uma possível queda de preço não é o único elemento que pode orientar a decisão.
Entre os aspectos que podem entrar no planejamento estão:
- comportamento dos preços;
- relações de troca;
- disponibilidade do fertilizante;
- prazo e condições de entrega;
- situação do mercado fornecedor;
- condições logísticas;
- movimentos do mercado internacional.
Observar esse conjunto permite tratar a compra de fertilizantes como parte do planejamento da produção e da gestão de riscos, em vez de considerar somente a cotação apresentada em determinado momento.
“O melhor momento para comprar fertilizantes não depende apenas da cotação do dia, mas da combinação entre planejamento, disponibilidade do produto e gestão de riscos”, conclui Soto.