A maior seletividade dos bancos e a necessidade de financiar operações, estoques, insumos e projetos de expansão têm levado empresas do agronegócio a diversificar suas fontes de recursos. Nesse cenário, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs, ganharam mais espaço no mercado de capitais em 2026.

Nos cinco primeiros meses do ano, as ofertas de FIDCs movimentaram R$ 41,7 bilhões, crescimento de 36,5% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a ANBIMA. Foram realizadas 406 operações, número superior ao registrado pelas emissões de debêntures no período.

Dados mais recentes da entidade mostram que os FIDCs encerraram o primeiro semestre de 2026 com captação líquida de R$ 30,6 bilhões. A captação líquida corresponde à diferença entre os recursos aplicados e os valores resgatados pelos investidores, enquanto o volume de ofertas representa os recursos levantados por meio das operações realizadas no mercado de capitais.

Como funciona um FIDC?

Os FIDCs são fundos que investem em direitos creditórios, isto é, valores que empresas têm a receber de seus clientes. No agronegócio, esses créditos podem ser formados por duplicatas de vendas a prazo, parcelas de financiamentos, contratos comerciais e outros recebíveis originados nas relações entre produtores, cooperativas, distribuidores, concessionárias e fornecedores.

Ao transferir esses recebíveis para um fundo, a empresa consegue antecipar parte dos recursos que receberia no futuro. O dinheiro pode ser utilizado para reforçar o capital de giro, financiar novas vendas, adquirir estoques ou apoiar projetos de crescimento.

Na avaliação de Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, o instrumento também pode mudar a maneira como a empresa administra sua carteira de crédito.

“Ao estruturar um FIDC próprio, a empresa deixou de ver o crédito apenas como uma necessidade operacional e passou a tratá-lo como uma alavanca de resultados financeiros”, afirma Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital. “Essa estratégia permite não só captar recursos com mais flexibilidade, mas também transformar a gestão financeira da empresa, criando um ciclo de crédito sustentável dentro do próprio ecossistema agropecuário.”

A estrutura não representa, entretanto, uma fonte de recursos automaticamente mais simples ou barata. A viabilidade da operação depende da qualidade dos recebíveis, do histórico de pagamento dos clientes, dos custos de estruturação e da capacidade da empresa de manter controles financeiros, jurídicos e operacionais.

Busca por crédito privado acompanha cenário do Plano Safra

O avanço dos FIDCs ocorre enquanto o crédito rural oficial continua exercendo papel central no financiamento da atividade agropecuária. O Plano Safra 2026/2027 destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, ante R$ 516,2 bilhões no ciclo anterior.

Do total anunciado, R$ 384,9 bilhões serão direcionados às operações de custeio e comercialização. O valor destinado a essas duas finalidades é inferior aos R$ 414,7 bilhões previstos em 2025/2026, enquanto os recursos para investimento aumentaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões.

Esse cenário não significa uma substituição do crédito rural pelo mercado de capitais. Na realidade, as empresas do setor passam a combinar diferentes instrumentos de acordo com o prazo, o custo, a finalidade dos recursos e as características de suas operações.

Centro-Oeste concentra demanda por estruturas customizadas

A expansão da produção agropecuária e das redes de distribuição de máquinas, insumos e serviços tem ampliado a necessidade de financiamento no Centro-Oeste. Além de financiar suas operações internas, muitas empresas da região também concedem crédito aos produtores durante a venda de equipamentos e insumos.

“A retração do crédito bancário fez com que muitas empresas agropecuárias, especialmente no Centro-Oeste, passassem a explorar alternativas de crédito mais ágeis e customizadas. O FIDC permite que elas usem seus próprios recebíveis como lastro, trazendo maior flexibilidade e controle sobre a estrutura de financiamento”.

Uma empresa pode participar de um FIDC como originadora dos recebíveis ou estruturar um fundo voltado à sua própria carteira. No segundo caso, a estrutura funciona como um braço financeiro vinculado à estratégia de crédito da organização, embora o patrimônio e a administração do fundo devam permanecer separados da operação da empresa.

Para que o modelo seja sustentável, é necessário estabelecer critérios para a concessão de crédito, acompanhar a concentração da carteira, avaliar garantias e manter processos de cobrança e recuperação de valores.

Fiagros também registram entrada de recursos

O movimento dos FIDCs ocorre paralelamente ao crescimento dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, os Fiagros.

De acordo com a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, o patrimônio líquido da indústria de Fiagros passou de R$ 14,7 bilhões em março de 2023 para R$ 44,7 bilhões em março de 2025, crescimento de 204% em dois anos.

A atualização mais recente da ANBIMA mostra que os Fiagros tiveram captação líquida de R$ 5,1 bilhões no primeiro semestre de 2026. O resultado indica que os instrumentos vinculados às cadeias agroindustriais continuam atraindo recursos, mesmo em um ambiente de maior cautela entre os investidores.

FIDCs e Fiagros, no entanto, não são equivalentes. O FIDC é estruturado prioritariamente para investir em direitos creditórios e pode atender empresas de diversos setores. Já o Fiagro é direcionado especificamente às cadeias produtivas do agronegócio e pode investir em diferentes tipos de ativos, conforme sua categoria e política de investimento.

Tecnologia amplia capacidade de acompanhamento

A digitalização dos documentos, dos processos de concessão de crédito e do monitoramento das carteiras também favoreceu a expansão dessas estruturas para além dos grandes centros financeiros.

“A transformação digital eliminou as barreiras geográficas, permitindo que a estruturação e a gestão do crédito fossem feitas de forma integrada e eficiente, sem depender da presença física no centro financeiro tradicional,” explica Da Matta.

Sistemas de análise de dados e automação documental permitem acompanhar vencimentos, atrasos, garantias e alterações no comportamento de pagamento dos clientes. Essas ferramentas, porém, devem estar associadas a processos internos consistentes e informações atualizadas.

Em um ambiente marcado pela necessidade de capital de giro e pela busca por fontes diversificadas de financiamento, os FIDCs tendem a continuar no radar das empresas do agronegócio. A decisão de utilizar o instrumento, entretanto, deve considerar não apenas a possibilidade de antecipar recursos, mas também os custos, os riscos e a capacidade de administrar uma estrutura de crédito mais complexa.