Solo com boa drenagem, disponibilidade de água, escolha do material adequado à região e controle de doenças estão entre os pontos que precisam ser observados por quem pretende produzir cacau. A esses cuidados somam-se períodos prolongados de seca, temperaturas elevadas e o uso de tecnologias para acompanhar as condições da lavoura.
O cacaueiro exige atenção desde a implantação. Características do solo, época de plantio, sombreamento e escolha de sementes ou clones interferem diretamente no desenvolvimento das plantas. Durante a produção, poda, manejo de plantas invasoras e controle de pragas também fazem parte da rotina.
Com períodos de calor e estiagem afetando regiões produtoras, ferramentas de monitoramento e bioinsumos entram nessa discussão. Veja os principais pontos que precisam ser considerados na produção de cacau.
Principais características do cacau
O cacau é o fruto do cacaueiro (Theobroma cacao) e apresenta três variedades: criolo, forasteiro e trinitário. “No Brasil, os tipos forasteiro e trinitário são mais recorrentes”, indica a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).
O fruto apresenta forma amelonada e alongada e pode ter sulcos. Sua cor varia conforme a variedade e o estágio de amadurecimento, passando por tons que vão do verde e roxo ao amarelo e laranja.
Segundo pesquisadores da Ceplac, o cacaueiro plantado por sementes começa a produzir comercialmente a partir do quarto ano no campo. Quando há multiplicação por enxertia de clones, a produção comercial pode começar no terceiro ano.
O cacau produz frutos durante todo o ano, mas os períodos de maior produção se concentram em uma ou duas safras, conforme a região.
“No Pará, existe uma única safra que vai de maio a setembro, enquanto na Bahia temos duas safras, a safra temporã, que ocorre de maio a setembro, e a safra principal que vai de outubro ao final de abril”.
Como plantar cacau? Veja variedade, solo e época de plantio
Não existe uma única variedade indicada para todas as regiões produtoras. A escolha depende das condições locais de cultivo e dos problemas encontrados em cada área.
No Pará, por exemplo, a Ceplac recomenda o plantio de sementes híbridas. Na Bahia e no Espírito Santo, após a entrada da vassoura-de-bruxa, passaram a ser recomendados clones de cacaueiro resistentes à doença.
Entre os materiais citados pela instituição estão CCN-51, PS-1319, PH-16, SJ-02 e BN-34.
A autocompatibilidade de alguns clones também favorece a formação dos frutos. Segundo os pesquisadores, “Isso significa dizer que o pólen de uma flor pode fecundar os óvulos da mesma flor ou de outras flores na mesma planta, o que favorece a polinização e, por consequência, aumenta a produção de frutos”.
Os solos também merecem atenção. Impedimentos físicos podem dificultar o desenvolvimento do sistema radicular do cacaueiro, principalmente da raiz principal.
O solo deve ser bem drenado e ter textura que permita boa retenção de água. O cacaueiro consegue se desenvolver em solos com diferentes níveis de fertilidade, de médio a alto, com pH entre 6,0 e 6,5.
O plantio deve acompanhar o período de disponibilidade de água. A recomendação da Ceplac é iniciar a implantação no começo da estação chuvosa, respeitando as características de cada região.
Calor e seca aumentam a pressão sobre a lavoura
A disponibilidade de água merece atenção diante de períodos mais longos de seca e temperaturas elevadas nas regiões produtoras.
Uma revisão publicada por Shelake et al. na revista científica Plants, em julho de 2024, aponta que o estresse térmico pode comprometer a fotossíntese, a transpiração e a estabilidade das membranas celulares das plantas.
Sob temperaturas elevadas, ocorre também o acúmulo de espécies reativas de oxigênio, conhecidas pela sigla ROS. A planta responde mobilizando hormônios e proteínas de choque térmico, as HSPs, ligados aos mecanismos de sobrevivência sob estresse.
O estudo chama atenção ainda para a combinação entre calor e problemas fitossanitários. Quando temperaturas elevadas e ataques de pragas ocorrem juntos, os danos à planta podem superar aqueles provocados por cada fator isoladamente.
Na cacauicultura brasileira, essa questão se soma ao histórico de doenças que já afetam a produção, especialmente no sul da Bahia.
Práticas de manejo para a produção de cacau
O acompanhamento da lavoura precisa ocorrer durante todo o ciclo. Entre as práticas de manejo recomendadas pela Ceplac estão o controle de plantas invasoras, a poda e o manejo de pragas e doenças.
Controle das plantas invasoras
O controle envolve manejo do sombreamento, cobertura morta e roçagem.
Segundo a Ceplac, “Essas medidas, além de evitar invasoras, também ajudam a conservar a umidade do solo, aumentam o teor de matéria orgânica e fornecem nutrientes ao cacaueiro”.
A conservação da umidade ganha peso principalmente em áreas sujeitas a períodos de estiagem.
Poda e desbrota
O pé de cacau deve ser mantido com aproximadamente três metros de altura. A medida facilita a colheita e ajuda na identificação de doenças, entre elas a vassoura-de-bruxa.
A poda também faz parte das decisões que podem ser orientadas pelo acompanhamento das condições da propriedade e da lavoura.
Controle de pragas e doenças
Para controlar pragas, a Ceplac recomenda o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Esse manejo reúne práticas culturais, tratos fitossanitários, controle biológico e controle químico para reduzir a incidência de pragas e doenças.
“O sucesso do manejo integrado depende da realização das práticas de maneira correta e na época certa, ou seja, obedecendo ao calendário agrícola de cada região”, aconselham os pesquisadores.
A vassoura-de-bruxa merece atenção especial na cultura. A doença atingiu fortemente a cacauicultura baiana a partir de 1989, provocando perdas na produção e mudanças na distribuição da atividade entre as regiões produtoras do país.
Sensores e dados meteorológicos ajudam no acompanhamento da lavoura
O monitoramento das condições da propriedade pode ajudar o produtor a identificar alterações mais cedo e escolher o momento adequado para algumas operações.
Entre as tecnologias citadas estão satélites meteorológicos e sensores instalados nas propriedades. Esses recursos permitem acompanhar informações ligadas ao clima e podem orientar decisões relacionadas a poda, plantio e colheita.
O acompanhamento também pode contribuir para a detecção precoce de doenças, inclusive da vassoura-de-bruxa.
Em uma cultura sujeita à combinação entre disponibilidade de água, temperatura e pressão de patógenos, informações frequentes sobre as condições da lavoura ajudam o produtor a ajustar o manejo ao que ocorre na propriedade.
Qual é o papel dos bioinsumos na produção de cacau?
Os bioinsumos também aparecem entre os recursos considerados para a produção agrícola diante de calor e estiagem.
Segundo o material da GIROAgro, bactérias aplicadas junto às raízes podem atuar no desenvolvimento das plantas e na resposta a temperaturas elevadas e períodos de falta de água. O uso de produtos biológicos já ocorre em culturas como soja e milho e também passa a ser discutido para as lavouras de cacau.
Fellipe Parreira, Portfólio e Acesso no Grupo GIROAgro, relaciona o avanço dos produtos biológicos à busca por produtividade e redução da dependência de produtos sintéticos.
“Os bioinsumos têm se mostrado aliados estratégicos na construção de uma agricultura mais equilibrada e menos dependente de produtos sintéticos. A rápida expansão mostra que o setor agropecuário busca unir produtividade, sustentabilidade e responsabilidade ambiental”.
No cacau, os bioinsumos entram em um conjunto maior de medidas. Disponibilidade de água, condições do solo, sombreamento, escolha do material vegetal, poda e controle fitossanitário continuam tendo peso no desempenho da lavoura.
Principais dificuldades da produção de cacau
A produção brasileira de cacau convive com diferentes entraves. Entre os pontos levantados pelos pesquisadores da Ceplac estão:
- baixa produtividade da lavoura devido a plantios velhos, excesso de sombra e pouco adensamento;
- impedimentos legais para o manejo da sombra no sistema cacau cabruca na Bahia;
- dificuldade para expansão de áreas pela falta de mudas comerciais de cacaueiro;
- falta de mão de obra;
- dificuldade de acesso ao crédito;
- incidência e agressividade de doenças como vassoura-de-bruxa e podridão-parda;
- alta produção africana com baixo custo de mão de obra.
Entre as medidas apontadas pela Ceplac estão a revitalização e renovação das lavouras, produção de mudas comerciais, capacitação, expansão para outras áreas produtoras e adoção de tecnologias.
Para quem pretende começar a plantar cacau, a escolha da área e do material de plantio é apenas o começo. Água, solo, doenças e condições climáticas precisam ser acompanhados durante todo o ciclo produtivo, enquanto novas ferramentas passam a fazer parte desse manejo.