O avanço das exportações de milho pelo chamado Arco Norte confirma uma mudança estrutural na logística do agronegócio brasileiro. Diante de safras recordes e da crescente demanda internacional, os portos do Norte deixam de ser rota complementar e assumem papel estratégico no escoamento da produção, reposicionando o mapa logístico nacional e exigindo novos investimentos em infraestrutura, armazenagem e gestão operacional.

Uma reportagem publicada pelo Modal Connection detalha como esse movimento vem pressionando terminais e impulsionando corredores logísticos intermodais na região. O conteúdo ouviu Rodrigo Mércio Silveira, coordenador do curso técnico em Logística do Senac EAD, e Fernando Zacarias Nolibos, tutor da mesma instituição.

Safra recorde e aumento da movimentação

Segundo dados do Estatístico Aquaviário da Antaq, entre janeiro e agosto de 2025 os portos organizados da Região Norte movimentaram mais de 30 milhões de toneladas, com destaque para granéis sólidos.

“Em agosto de 2025, as exportações de milho pelos portos do Norte cresceram 10,4% na comparação anual, alcançando cerca de 2 milhões de toneladas no mês”, afirma Silveira. Ele lembra ainda que, em 2024, os portos do Arco Norte já responderam por aproximadamente 47% de todo o milho exportado pelo Brasil – um dado que consolida a mudança de eixo logístico.

Para o produtor rural, especialmente no Centro-Oeste, isso significa rotas mais curtas e, em muitos casos, frete mais competitivo.

Rota intermodal reduz distâncias e custos

O escoamento do milho pelo Norte ocorre por meio de um modelo intermodal. O grão segue por caminhão até pontos de transbordo no interior, como Miritituba (PA), desce em barcaças pelos rios Tapajós, Amazonas e Madeira e é transferido para navios de longo curso em portos organizados como Porto de Santarém e Porto de Vila do Conde.

O Porto Velho também ganhou relevância ao operar barcaças pelo Rio Madeira, que seguem para transbordo e embarque em trechos mais próximos da foz.

“Esse fluxo elevou a frequência de navios, barcaças e caminhões, sobretudo após a colheita, gerando picos de demanda por vagas de atracação e por armazenagem e exigindo melhor coordenação das operações”, afirma Silveira.

Destaques: Santana, Santarém e Porto Velho

Entre os terminais que mais cresceram está o Porto de Santana. Segundo os especialistas, o terminal registrou crescimento de 25,2% na movimentação geral na comparação anual (agosto/25 vs. agosto/24).

“O impulsionador foi inequivocamente o milho, cuja movimentação específica no porto disparou 85% no período. A localização estratégica de Santana, próxima à foz do Amazonas, tem atraído volumes crescentes devido à sua capacidade de receber navios de maior calado”, destacam.

Já o Porto de Santarém consolidou-se como hub logístico na confluência do Tapajós com o Amazonas. “Santarém movimentou 1,9 milhão de toneladas (acumulado parcial recente), apresentando crescimento de 11,25% na movimentação geral e alta expressiva de 45,33% nas exportações, reflexo direto da chegada de grãos via BR-163 e barcaças”, explica Silveira.

No caso de Porto Velho, o crescimento foi mais modesto (0,92%), sustentado principalmente pela soja. “A estabilidade reflete também os desafios hídricos recentes do Rio Madeira, que impõem restrições de calado em períodos de seca severa, alertando para a necessidade de dragagem constante e gestão hidroviária”, observa Nolibos.

Impactos econômicos e desafios estruturais

O fortalecimento do Arco Norte gera impacto direto na economia regional. Segundo os entrevistados, o aumento das exportações estimula empregos e renda no entorno dos portos e das hidrovias, abrangendo operadores, transportadores, manutenção, agências marítimas e serviços de apoio.

“A queda do frete melhora a base recebida pelo produtor e estimula novos investimentos na produção”, explica Nolibos. Silveira complementa: “Esse ciclo atrai capital privado para terminais, frota de barcaças e empurradores, silos e equipamentos, com efeito multiplicador sobre comércio, serviços e cadeias regionais como construção e reparo naval”.

No entanto, persistem desafios importantes: a sazonalidade dos rios Tapajós e Madeira, as exigências de licenciamento ambiental, impactos urbanos no entorno portuário e a necessidade de sincronizar colheita, caminhões, barcaças, trens e navios para reduzir filas e custos.

Norte estratégico para o futuro do agro

Para Silveira e Nolibos, a Região Norte tornou-se estratégica por encurtar e baratear o caminho do Centro-Oeste até o navio, reduzindo a dependência histórica dos portos do Sudeste e Sul, como Santos e Paranaguá.

“Esse desenho reduz o frete e o tempo, aumentando a competitividade do milho e da soja. Como resultado, os embarques ficam mais previsíveis nos picos da safra, especialmente na safrinha de milho”, afirmam.

Para você, leitor da Agrishow Digital, o avanço do Arco Norte vai além da logística: trata-se de uma variável estratégica que impacta diretamente margem, planejamento de safra e decisão de investimento.

A consolidação desse corredor logístico confirma que, diante de volumes cada vez maiores de produção, eficiência no escoamento passa a ser tão decisiva quanto tecnologia no campo.

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