O agronegócio mundial despediu-se recentemente de Ray Goldberg, o professor de Harvard que, ao lado de John Davis, revolucionou nossa forma de enxergar o campo. Foi Goldberg quem nos ensinou que a fazenda não é uma ilha, mas parte de um sistema vivo e interconectado: o Agribusiness.

Esse conceito desenhou uma engrenagem harmônica dividida entre o “antes”, o “dentro” e o “depois” da porteira. Nessa visão, fornecedores de insumos, produtores e a indústria de processamento devem caminhar em sintonia, como órgãos de um mesmo corpo, onde a saúde de um depende diretamente da eficiência do outro.

Entretanto, ao observarmos a realidade brasileira, percebemos que esse conceito econômico, embora brilhante e útil, por vezes camufla uma hierarquia vital, que está no protagonismo absoluto do produtor rural. Se o agronegócio é um organismo vivo de proporções gigantescas, o produtor é o coração. É ele quem, operando em sua fábrica a céu aberto (sujeito às incertezas do clima, do tempo, mercado e política) bombeia o “sangue” que irriga todo o sistema. Como ouvimos no rito sagrado, é do “fruto da terra e do trabalho humano” que nascem a riqueza, os alimentos e os rendimentos que oxigenam as revendas de máquinas, as tradings, o setor de logística e o comércio das cidades.

O que assistimos hoje, porém, é um sinal de alerta para todo esse corpo do agronegócio brasileiro. Quando as margens do produtor são espremidas ao limite e sua rentabilidade é maltratada, o coração começa a bater com dificuldade. Sem o oxigênio do lucro mínimo e da sustentabilidade financeira do campo, o sangue para de circular com vigor para os demais elos. As dificuldades que vemos hoje em empresas e setores que orbitam a agropecuária nada mais são do que o reflexo de um coração que está sendo sobrecarregado. Se o coração sofre, o corpo inteiro adoece; não há sistema que prospere se a sua fonte de energia estiver enfraquecida. Sem o produtor rural saudável, todo o agro trava.

Nesse contexto, surge um papel fundamental para os advogados, para o Judiciário e para o próprio mercado: o de olhar para o campo “com coração” e com a inteligência estratégica de quem sabe que faz parte desse mesmo organismo. Não se trata de aplicar leis ou contratos como fórmulas frias e engessadas, mas de atuar como agentes que desobstruem as artérias do setor. O suporte jurídico e a sensibilidade do mercado devem servir para proteger a vida que pulsa na terra, entendendo que cada decisão que preserva a viabilidade do produtor é, na verdade, um ato de preservação do próprio sistema.

Nesse cenário, o crédito rural surge não apenas como uma ferramenta bancária, mas como o verdadeiro oxigênio da produção e um pilar de soberania nacional. Nesse ponto, existe um elemento humano fundamental, reconhecido inclusive pela nossa legislação. As Leis 4.829/65 e 8.171/91 são claras ao apontar o caminho: a prioridade do crédito deve ser o fortalecimento econômico de quem produz, visando o aumento da produtividade e a melhoria do padrão de vida no meio rural. O espírito da lei é assegurar o abastecimento alimentar e eliminar as distorções que afetam a função social da agricultura.

Honrar o conceito de Goldberg e garantir o desenvolvimento do Brasil exige, portanto, um olhar atento à saúde econômica de quem está dentro da porteira. Cuidar da renda e da estabilidade do produtor é garantir que o coração do país continue bombeando prosperidade para todos os brasileiros. Proteger quem produz é, em última análise, o único caminho para evitar o colapso do organismo que sustenta a nossa nação.