Pecuarista por vocação, dentista por formação e líder sindical por missão, Candice Rangel carrega no discurso a firmeza de quem nasceu no campo e decidiu, por escolha e responsabilidade, assumir o legado da família. Filha de um dos pecuaristas mais respeitados do Cariri cearense, ela trocou o consultório pela gestão da Fazenda Ribeirão em 2017, quando percebeu que a propriedade precisava de direção e que era hora de ocupar um espaço que historicamente nunca foi simples para mulheres.
Presidente do Sindicato Rural de Brejo Santo e integrante da diretoria da FAEC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará), Candice fala com naturalidade sobre genética bovina, diversificação produtiva, políticas públicas e protagonismo feminino. Mas, acima de tudo, fala com emoção sobre pertencimento.
No Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela ONU, a Agrishow Digital conversou com Candice para saber mais sobre a sua luta pela inclusão feminina no campo e sua realidade como líder sindical e pecuarista.
A seguir, você confere principais trechos da entrevista. Boa leitura!
A sua história no campo começou quando?
Começou muito cedo. Eu sou produtora, sou pecuarista desde o berço. Sou neta de pequenos produtores e filha de um grande pecuarista da região do Cariri. Meu pai não começou grande, começou com cinco vaquinhas, mas se tornou uma referência no estado. Eu costumo brincar que fui criada a pasto. Já nasci acompanhando os desafios e as oportunidades do campo. Isso despertou em mim um amor enorme pela terra e também um senso de responsabilidade de continuar esse legado.
O que levou você a permanecer na pecuária e na agricultura?
Foi uma escolha consciente. Eu sou dentista de formação, atuei por 15 anos na odontologia. Mas, em 2017, larguei tudo para assumir a fazenda. Foi por paixão, mas também por necessidade. Meu pai começou a ter problemas de saúde, foi se afastando, e a propriedade ficou sem gestão. Sou a filha mais nova de cinco irmãos – quatro mulheres e um homem – e nenhum deles quis assumir a sucessão. Então eu assumi. Eu já conhecia a realidade rural, porque nasci ali, mas precisei aprender a ser gestora, administradora, e carregar a responsabilidade de manter viva a história que meu pai construiu.
Quais são hoje as principais atividades da Fazenda Ribeirão?
Nossa atividade principal é a pecuária de corte, com gado Nelore. Trabalhamos com duas vertentes: o gado comercial, com venda de bezerros para o Ceará e outros estados como Paraíba, Pernambuco e Maranhão; e também com a venda de tourinhos e matrizes PO, com forte trabalho genético. Nosso rebanho é registrado há mais de 50 anos na BCZ, que é referência mundial. Para nós, é motivo de muito orgulho manter esse padrão genético no Ceará.
Quais foram os maiores desafios por ser mulher em um setor majoritariamente masculino?

O maior desafio foi conquistar espaço e credibilidade. Nós, mulheres, muitas vezes precisamos provar constantemente nossa capacidade para sermos ouvidas e respeitadas. Esses desafios, apesar de complexos, nos fortalecem. Eu costumo dizer que, mais cedo ou mais tarde, a propriedade rural acaba caindo no colo da mulher. E precisamos aprender o que fazer com isso. Antigamente, quando a mulher herdava uma propriedade, esperava-se que ela vendesse. Hoje não. Hoje vemos mulheres se preparando, assumindo cargos de liderança e ocupando espaços com competência.
Você percebe mudanças no protagonismo feminino no agro nordestino?
Sim, um avanço significativo. E não só no Nordeste, mas no Brasil inteiro. Hoje vemos mulheres em posições de liderança, em entidades representativas, na pesquisa, na inovação e na tomada de decisão. O protagonismo feminino deixou de ser exceção. É uma realidade crescente dentro das propriedades e nas instituições do setor.
Como presidente do Sindicato Rural de Brejo Santo, quais são as pautas prioritárias?
Acreditamos que conhecimento é ferramenta de transformação. Nossas prioridades passam por capacitação, assistência técnica e por aprender a conviver com os desafios do semiárido. Também buscamos fortalecer a organização dos produtores e valorizar o produto rural. Produzir no semiárido exige estratégia, planejamento e união.

Qual o papel das entidades como a FAEC no fortalecimento dos produtores, especialmente das mulheres?
As entidades funcionam como uma ponte entre o produtor e o conhecimento, os serviços, as políticas públicas e as oportunidades. No caso das mulheres, a FAEC desenvolve um trabalho incrível, e os sindicatos têm sido parceiros fundamentais para promover inclusão, capacitação e liderança feminina. Criar ambientes onde as mulheres possam desenvolver suas habilidades é essencial.
A diversificação produtiva é uma estratégia para o Cariri?
Sem dúvida. O Cariri tem um potencial enorme. Diversificar é estratégico porque reduz riscos, gera novas fontes de renda, agrega valor e fortalece a economia local. Projetos como os estudos para introdução do açaí na região mostram que, com planejamento, é possível inovar e adaptar culturas ao nosso território de forma sustentável.
No Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais causas precisam ser defendidas?

Precisamos defender acesso a políticas públicas, linhas de crédito, capacitação, assistência técnica e participação nas decisões. Durante muitos anos estivemos presentes na produção de alimentos, mas à sombra de uma figura masculina. Hoje estamos assumindo propriedades e cargos de liderança, e precisamos de igualdade de oportunidades. A iniciativa da ONU dá visibilidade global e pressiona por mudanças concretas.
Que mensagem você deixa para mulheres que querem ingressar ou se consolidar no agro?
Não desistam. Acreditem no seu potencial, busquem conhecimento, se organizem e não tenham medo de ocupar espaço. Nós temos uma habilidade especial de aprender, de recomeçar. Não temos medo de errar. O agro precisa desse olhar feminino, dessa sensibilidade e dessa competência.
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Como você enxerga o futuro do agronegócio no Ceará?
Sou muito otimista. O Ceará já é destaque em segmentos como o camarão – produzimos cerca de 52% do camarão do Brasil – além da fruticultura, da cera de carnaúba, do pescado e da castanha de caju. Vejo um agro cada vez mais tecnológico, diversificado e sustentável, com impacto positivo no PIB do estado. E vejo as mulheres cada vez mais protagonistas, liderando, inovando e contribuindo decisivamente para o crescimento do setor.
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