O Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela ONU em 2026, tem sido uma oportunidade para conhecermos histórias de força e protagonismo feminino no campo. 

A entrevistada desta edição é Tiana Roos, produtora rural no Rio Grande do Sul e responsável pela gestão da Fazenda Alto da Palmeira. A liderança da propriedade veio em um momento delicado: após o falecimento do marido, ela passou a conduzir a fazenda ao lado dos filhos, Camila e Lorenzo. 

Com trajetória que inclui experiências como professora de inglês e bacharel em Direito, Tiana encontrou no campo uma forma de continuar o legado familiar. Na propriedade, conduz a produção de soja, milho, trigo, aveia e canola com estratégia de diversificação e práticas voltadas à conservação de solo e água. 

Nesta entrevista, ela fala sobre sucessão familiar, liderança no agro, sustentabilidade e os desafios de conduzir uma propriedade rural em um cenário climático cada vez mais desafiador. 

Confira os principais trechos da conversa. Boa leitura! 

Como foi sua trajetória até assumir a gestão da Fazenda Alto da Palmeira?

Antes de assumir a gestão da fazenda, eu vivi muitas outras experiências. Fui mãe, esposa e também precisei cuidar do meu marido, que passou por dois transplantes e lutou por vinte anos pela vida. 

Além disso, fui professora de inglês e sou bacharel em Direito. Toda essa caminhada faz parte da minha história e, de certa forma, acabou me preparando para o momento em que precisei assumir a gestão da propriedade. 

O que marcou o processo de sucessão familiar e a decisão de liderar a fazenda ao lado dos seus filhos? 

O nosso processo de sucessão aconteceu de um jeito que eu nunca imaginei. Foi com o falecimento do meu marido. 

Foi nesse momento que minha vida virou completamente. Eu precisei assumir, de verdade, a gestão da fazenda ao lado dos meus filhos, Camila e Lorenzo. 

A responsabilidade bateu muito forte. Mas, ao mesmo tempo, no meio da dor, eu entendi que existia um chamado. Não era apenas manter a propriedade funcionando, mas honrar uma história, proteger a família e seguir em frente com coragem, mesmo sem sentir que estava pronta. 

Quais culturas hoje são centrais para a fazenda e por que a diversificação é importante? 

Hoje produzimos soja, milho, trigo, aveia e canola. 

A diversificação é uma estratégia real para nós. Ela ajuda tanto na produtividade quanto na saúde do solo, mas principalmente na redução de riscos. 

O Rio Grande do Sul tem enfrentado desafios climáticos muito fortes nos últimos anos. Quando você diversifica, distribui as apostas: se uma cultura não vai bem, outra pode reagir melhor e ajudar a equilibrar o resultado da safra. 

No fim, diversificar é uma forma de cuidar do solo e também de proteger a fazenda, a família e o futuro. 

Como é seu dia a dia no campo? 

Meu dia começa cedo e é bem prático. Eu cuido mais da parte administrativa: organizo contas, compras, manutenção e acompanho de perto a rotina da fazenda para garantir que tudo funcione bem. 

Divido a gestão com a minha filha Camila, enquanto o Lorenzo fica mais no campo. Nós nos complementamos: eu puxo mais o controle e as decisões, ele garante a execução e a Camila participa da estratégia junto comigo. 

Depois que fiquei viúva, precisei assumir tudo com muita firmeza, sem romantizar. É intenso, mas é um trabalho que carrega legado. Eu sigo confiando que Deus me dá direção todos os dias. 

Neste Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais causas precisam ser defendidas? 

Acredito que essa iniciativa pode gerar mudanças reais ao mobilizar governos, bancos e instituições para criarem políticas públicas voltadas às mulheres rurais. 

Isso inclui linhas de crédito específicas, programas de capacitação e incentivos à liderança feminina no campo. 

Dar visibilidade global ao tema também fortalece o protagonismo das mulheres no agro e mostra que elas são agentes centrais no combate à fome, nas mudanças climáticas e no desenvolvimento agrícola sustentável. 

Quais foram os principais desafios enfrentados ao longo da sua carreira? 

Quando precisei assumir a fazenda, percebi que o desafio não seria apenas a produção. 

Eu também precisava cuidar da família e olhar para as pessoas que estavam comigo no dia a dia da propriedade. Para mim, liderar significa exatamente isso: olhar para a equipe, orientar e caminhar junto. 

Porque no campo, assim como na vida, ninguém conquista nada sozinho. 

O que motivou sua adesão ao Projeto Pró-Águas RS? 

Eu acredito profundamente que preservação ambiental e produtividade caminham juntas. 

Quando cuidamos da água, do solo e da vegetação, a fazenda responde positivamente. O solo ganha estrutura, a erosão diminui, a umidade é preservada e o sistema produtivo se torna mais estável. 

Em um cenário climático tão instável como o que temos vivido no Rio Grande do Sul, preservar é estratégia de produção. É visão de longo prazo e cuidado com o futuro da propriedade. 

Sustentabilidade é exigência, diferencial ou parte da boa gestão rural? 

Hoje ela é tudo isso. Sustentabilidade deixou de ser escolha. Para continuar produzindo e vendendo, o produtor precisa cumprir leis ambientais, atender às exigências do mercado e ter acesso a crédito seguro. 

Ao mesmo tempo, ela virou um diferencial competitivo. Quem cuida do solo, da água e da vegetação se destaca e tem acesso a novos mercados e oportunidades. 

Ser sustentável é produzir com inteligência, garantindo o futuro da propriedade e mantendo competitividade. 

O que significou o reconhecimento recebido em 2025 pelo compromisso com os recursos hídricos? 

Foi o reconhecimento de um projeto de recuperação da água e do solo na minha propriedade. 

Esse trabalho foi pensado para preservar o meio ambiente e também garantir o bem-estar das futuras gerações. 

Que mensagem você deixa para mulheres que desejam construir carreira no campo? 

As mulheres que desejam construir uma carreira no agro precisam ter uma visão que vá além da produção e nunca esquecer de olhar para quem caminha junto. 

Hoje o agronegócio exige liderança, inovação, sustentabilidade e impacto social. E é justamente nesses pontos que as mulheres têm um enorme diferencial.