Em 2026, a ONU instituiu o Ano Internacional da Mulher Agricultora, uma decisão que reflete a urgência de reconhecer e valorizar o papel das mulheres no campo. No Brasil, de acordo com o último Censo Agropecuário, realizado em 2017, elas já somavam 6,1 milhões.
Deste total, 4,37 milhões são trabalhadoras rurais, 946 mil dirigiam estabelecimentos rurais e 817 mil participavam como codiretoras.
Apesar dos dados evidenciarem o papel crucial dessas mulheres em um dos setores econômicos mais importantes do Brasil, elas ainda enfrentam sub-representação. Pensando nisso, a Agrishow Digital resolveu trazer, durante todo o ano, histórias de mulheres que vivem e transformam a agricultura diariamente.
Nossa primeira entrevistada é Kátia Fenner, produtora rural de São Joaquim, Santa Catarina, e uma das vozes mais ativas em sua região na luta pela valorização das mulheres no campo.
Kátia é a quarta geração de sua família a trabalhar na terra. Com uma trajetória marcada por superação, ela transformou dificuldades em força e hoje é referência para outras mulheres. Além de produzir maçãs de qualidade reconhecida internacionalmente, ela lidera iniciativas que promovem a sustentabilidade e a inclusão feminina no agro.
Confira abaixo os melhores momentos da nossa conversa! Boa leitura!
Como começou sua história com a agricultura?
Eu sou a quarta geração da minha família no campo. Tudo começou com o meu bisavô, que era tropeiro e levava carne e queijo para o litoral. Minha avó ficava sozinha na propriedade, cuidando de tudo enquanto ele viajava. Depois veio meu avô, que também foi tropeiro e pecuarista, e meu pai, que começou a diversificar com o plantio de batata, milho e feijão. Quando ele faleceu, eu já sabia tudo sobre a propriedade.
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Quais foram os principais desafios que você enfrentou como mulher no campo?
Ah, foram muitos. Quando meu pai faleceu, eu tive que assumir a propriedade e lidar com o inventário, o que já foi complicado. Mas o pior era o preconceito. No banco, por exemplo, os gerentes não queriam me dar financiamento. Eu tinha que provar que sabia o que estava fazendo. Quando ia negociar gado, sempre tentavam me enganar, achando que eu não sabia o preço. Já aconteceu de eu fazer negócios e não receber o que me prometeram, simplesmente porque sou mulher. É uma luta constante para ser respeitada.

São Joaquim é conhecida como a Capital Nacional da Maçã. O que torna a produção da região tão especial?
Aqui, a maçã Fuji de São Joaquim tem o selo de Identificação Geográfica (IG), porque a qualidade dela é única. O clima frio da região é essencial. A maçã precisa de mais de 600 horas de dormência no inverno, quando ela literalmente “hiberna”. É como se ela guardasse energia para florescer com força na primavera. Além disso, o solo e o cuidado que temos aqui fazem toda a diferença. É um trabalho árduo, porque leva anos para uma macieira começar a produzir, mas o resultado compensa.
Além da maçã, você também trabalha com outras culturas? Por que é importante diversificar?
Sim, além da maçã, trabalhamos com batata inglesa, pinhão e pecuária de reposição. Diversificar é essencial para sobreviver no agro. Os preços das culturas variam muito, e se você depende de uma só, corre o risco de não conseguir se manter. Eu sempre digo para as mulheres do meu grupo: aproveitem tudo o que a propriedade pode oferecer. Aqui, por exemplo, o pinhão é uma fonte de renda importante, e estamos desenvolvendo projetos para valorizar ainda mais esse produto.

Você mencionou um grupo de mulheres. Qual a importância dessas redes no agro?
Eu participo de um grupo com mais de 350 mulheres do agro, de todo o Brasil e até de outros países. Esses grupos são fundamentais. Muitas mulheres chegam tímidas, inseguras, mas, com o tempo, começam a se abrir, a compartilhar suas histórias e a ganhar confiança. É um espaço para trocar experiências, aprender e se fortalecer. Eu sempre digo que a independência financeira é essencial. Quando uma mulher sabe gerir sua propriedade, ela não fica acuada, não se sente diminuída.
Sustentabilidade é um valor presente no seu trabalho. Como isso se traduz no dia a dia?
Aqui, a sustentabilidade é uma prática diária. Nós captamos água da chuva para usar no banheiro e na irrigação. Nas colheitas, temos casinhas de apoio para os trabalhadores, com banheiro, água encanada e um lugar para descansar. Além disso, preservamos a mata nativa, como as araucárias, que são centenárias. Meu bisavô já tinha essa consciência ambiental, e eu continuo esse legado. É importante pensar no futuro, não só para a minha família, mas para todos.
Neste Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais são as principais causas que precisam ser defendidas?
O básico seria ter políticas públicas voltadas para as mulheres do campo. Precisamos de linhas de crédito específicas, porque apesar de termos muitas opções, hoje é muito difícil conseguir financiamento. Também é essencial investir em saúde e apoio emocional. Muitas mulheres no campo enfrentam problemas de violência e não têm para onde correr. Além disso, as entidades que representam o agro precisam olhar para as mulheres. Não temos representatividade suficiente, e isso precisa mudar.

Que mensagem você deixaria para as mulheres que desejam construir uma carreira no campo?
Acreditem no seu potencial. Muitas vezes, eu tive que bater o pé e mostrar que sabia o que estava fazendo. Nem sempre foi fácil, mas valeu a pena. Também é importante ter humildade para aprender e coragem para pedir ajuda quando necessário. E, acima de tudo, valorizem o que vocês já conquistaram. O campo é um lugar de desafios, mas também de muitas oportunidades. Eu sou prova de que é possível vencer, mesmo começando com pouco.
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Esta reportagem faz parte da série especial do Ano Internacional da Mulher Agricultora da Agrishow Digital. Conheça mais mulheres que estão mudando o agro!