Sabemos que o agronegócio brasileiro reúne diferentes cadeias produtivas, com demandas que vão da gestão agrícola à comercialização de commodities e à produção de biocombustíveis. Para atender a essas operações, a TOTVS tem ampliado seu portfólio de soluções, com investimentos em novos mercados, modernização de sistemas e tecnologias voltadas à integração de dados e à eficiência operacional. Entre as iniciativas estão a evolução das ferramentas para distribuidores de insumos agrícolas e o desenvolvimento de aplicações para o segmento de bioenergia.

Para se ter uma ideia, Fabrício Orrigo, diretor executivo de produtos para Agro da TOTVS, disse em entrevista ao portal Agrishow Digital que a Inteligência Artificial ganha espaço nesse movimento pelas aplicações. Estas vão da análise de informações da fazenda à identificação de inconsistências nos registros de campo e ao apoio à tomada de decisão. O executivo também destacou a importância da governança de dados e da conectividade para avançar na digitalização do setor, além do desenvolvimento de soluções que funcionem offline em regiões sem acesso estável à Internet. A propósito, conversamos com o especialista ao longo do Universo TOTVS 2026, que aconteceu nos dias 13 e 14 de outubro. Confira o pingue-pongue e aproveite os insights.

Quais são as principais novidades no portfólio de soluções da TOTVS para o agronegócio?

Fabrício Orrigo: Nos últimos dois anos, investimos bastante em um segmento no qual ainda não tínhamos uma participação tão relevante: o de distribuidores e varejistas de insumos agrícolas, que representam uma etapa inicial da cadeia do agronegócio. Também atuamos com cooperativas e cerealistas, mas começamos a ampliar nossos investimentos para atender melhor esse mercado.

Nesse movimento, estamos evoluindo o Protheus, nosso ERP, para atender a essas operações. Também adquirimos, no final do ano passado, a TND, empresa do Mato Grosso voltada principalmente a soluções de CRM para esse mercado. Além disso, temos investido em Inteligência Artificial, com o desenvolvimento de agentes, e na modernização de soluções mais antigas, principalmente as relacionadas à bioenergia. Estamos trabalhando na evolução e na mobilização dessas ferramentas para acompanhar as necessidades do setor.

Quais demandas desse mesmo setor têm orientado os investimentos e a evolução desses produtos?

Fabrício Orrigo: Temos buscado ampliar a nossa atuação em segmentos nos quais identificamos oportunidades de crescimento, como o de distribuidores e varejistas de insumos, cooperativas e cerealistas. Ao mesmo tempo, estamos modernizando nosso portfólio, investindo em IA e evoluindo as soluções voltadas à bioenergia. O objetivo é atender às necessidades específicas das diferentes cadeias do agronegócio, oferecendo ferramentas de gestão adequadas à realidade de cada operação.

Por falar nisso, o agronegócio reúne operações com realidades distintas, da produção agrícola às cooperativas, agroindústrias e usinas. Como o portfólio da TOTVS atende a essas diferentes necessidades e contribui para integrar a gestão ao longo da cadeia produtiva?

Fabrício Orrigo: Nosso portfólio está organizado em quatro grandes frentes. A primeira é a bioenergia, um dos segmentos mais antigos em nossa atuação e no qual temos presença relevante. A segunda é o multicultivo, com soluções de gestão agrícola semelhantes às utilizadas na bioenergia, mas voltadas a outras culturas, como soja, milho, algodão e café.

A terceira frente é a comercialização e o beneficiamento, que envolve operações de compra e venda de commodities e beneficiamento de grãos. A quarta é o segmento de distribuidores, revendas de insumos e cooperativas, no qual temos ampliado a nossa atuação. Além dessas soluções específicas, contamos com sistemas mais generalistas, como os voltados à gestão de pessoas e outras áreas corporativas, que permitem atender diferentes elos da cadeia do agronegócio.

Quais são, hoje, os principais desafios de gestão e digitalização do agronegócio brasileiro e onde a tecnologia pode gerar ganhos mais significativos de produtividade, controle de custos e eficiência operacional?

Fabrício Orrigo: Ainda existe um desafio importante relacionado ao investimento em tecnologia, principalmente entre os produtores menores. Também encontramos resistência associada à própria gestão do negócio, porque investir em tecnologia exige uma estrutura mínima de gestão, governança e processos bem definidos. Por isso, observamos níveis mais elevados de digitalização nos grandes grupos, nos produtores de maior porte e nas agroindústrias. Ainda assim, temos percebido uma evolução nesse cenário, inclusive com as mudanças culturais e os processos de sucessão que acontecem no setor.

O grande ganho da tecnologia é permitir melhores decisões, com base em dados e históricos. Como o investimento é uma questão crítica no agronegócio, principalmente diante dos desafios relacionados ao crédito, é fundamental saber onde aplicar os recursos. A tecnologia ajuda a disponibilizar informações, automatizar processos, reduzir erros, aumentar a produtividade e liberar as equipes para outras atividades.

Cloud e transformação digital no campo

Como tem evoluído a adoção de soluções em nuvem pelo agronegócio brasileiro? Quais fatores têm impulsionado esse movimento e que barreiras ainda precisam ser superadas?

Fabrício Orrigo: A adoção da nuvem tem aumentado à medida que as empresas compreendem melhor seus benefícios. Existe uma mudança de percepção sobre o armazenamento de dados. Em vez de manter as informações em estruturas locais, as operações passam a contar com soluções em nuvem, que podem oferecer mais segurança e reduzir os riscos de interrupção das atividades. Ainda enfrentamos desafios, principalmente relacionados à conectividade no campo. Nos últimos anos, houve uma evolução importante nesse aspecto, com novas alternativas de acesso à Internet, inclusive por satélite, que vêm contribuindo para melhorar a conectividade e reduzir os custos para os produtores.

Quais são as principais vantagens da migração para a nuvem para as empresas do agronegócio, principalmente em relação à integração de dados, escalabilidade, segurança da informação e acesso às ferramentas de gestão?

Fabrício Orrigo: Um dos principais benefícios é a possibilidade de manter os dados armazenados em uma estrutura que não depende exclusivamente dos equipamentos e servidores locais da empresa. Isso pode reduzir os riscos de interrupção da operação e contribuir para a proteção das informações. A adoção da nuvem também acompanha a evolução da conectividade no campo, ampliando as possibilidades de utilização das ferramentas digitais nas operações agrícolas.

Considerando os desafios de conectividade em determinadas regiões rurais, como é possível viabilizar o uso de tecnologias digitais em operações que nem sempre contam com acesso estável à Internet?

Fabrício Orrigo: Como nem sempre existe conectividade disponível no campo, aprendemos a desenvolver nossas soluções com funcionamento offline. Nas atividades que exigem registros diretamente na operação, seja por uma pessoa trabalhando no campo ou por alguém utilizando um equipamento agrícola, é possível coletar e armazenar as informações no próprio dispositivo.

Esses registros podem incluir a localização geográfica e o momento em que a atividade foi realizada, informações importantes para a rastreabilidade. Quando o usuário retorna a um local com cobertura de sinal, os dados são enviados ao sistema. Dessa forma, a falta de conexão em tempo real não impede o registro das informações. A operação consegue continuar funcionando e os dados são sincronizados posteriormente.

IA aplicada ao agronegócio

Como a IA está sendo incorporada às soluções de gestão para o agronegócio e quais aplicações já apresentam potencial para transformar a tomada de decisão no setor?

Fabrício Orrigo: Já temos iniciativas de IA em alguns produtos, inclusive em funcionalidades que facilitam determinadas atividades. Um exemplo é a gestão de balanças, importante para operações agrícolas e industriais. Quando um caminhão chega para pesagem, o sistema pode fazer a leitura automática da placa e identificar o veículo. Também estamos incorporando novas aplicações aos nossos sistemas de gestão agrícola. Uma das novidades é a possibilidade de visualizar informações da fazenda em mapas, em vez de consultar apenas tabelas. Assim, o usuário consegue observar os talhões e consultar dados sobre as variedades de grãos utilizadas ou a aplicação de defensivos, por exemplo.

Desenvolvemos um assistente de Inteligência Artificial que permite fazer perguntas sobre essas informações e obter respostas, relatórios e análises de maneira mais simples e conversacional. Também estamos incorporando agentes para apoiar atividades como o fechamento de custos e os registros de campo, identificando possíveis erros e sugerindo correções.

De que maneira a combinação de IA, dados e sistemas de gestão pode ajudar produtores e empresas a antecipar riscos, planejar safras, otimizar o uso de insumos e melhorar a previsibilidade dos resultados?

Fabrício Orrigo: O agronegócio gera dados há bastante tempo, com máquinas conectadas, dispositivos de IoT e equipamentos que coletam informações sobre as operações. Agora, temos a oportunidade de utilizar melhor esse volume de dados com a Inteligência Artificial.

A IA consegue analisar essas informações para avaliar históricos, elaborar previsões e oferecer recomendações que apoiem as decisões. Em algumas situações, essas aplicações podem evoluir para um nível maior de autonomia, de modo a contribuir com a tomada de decisões. Mas é importante destacar que a Inteligência Artificial depende de uma boa estrutura de dados. É necessário organizar essas informações, estabelecer critérios de governança e garantir a segurança e a confiabilidade dos dados. Com essa base bem construída, a IA pode contribuir para melhorar as análises e a tomada de decisão.

Quais são os principais desafios para ampliar o uso da inteligência artificial no campo, considerando a qualidade dos dados, a integração entre os sistemas e a capacidade das equipes?

Fabrício Orrigo: O principal desafio hoje é a organização e a governança dos dados. As operações agrícolas costumam trabalhar com diferentes fontes de informação, que nem sempre estão integradas. É necessário reunir e padronizar esses dados para que a Inteligência Artificial consiga interpretá-los e gerar informações confiáveis. Outro ponto importante é definir claramente qual problema se pretende resolver. Existe uma tendência de querer implementar uma tecnologia antes de entender exatamente qual necessidade ela deverá atender. É fundamental começar pela identificação do problema e, a partir daí, organizar os dados e definir como a Inteligência Artificial poderá contribuir para a solução.

Bioenergia e expansão da produção

Como a TOTVS acompanha a evolução do segmento de bioenergia no Brasil e quais demandas tecnológicas têm ganhado relevância com a expansão desse mercado?

Fabrício Orrigo: A bioenergia é um segmento muito relevante para nós. Atuamos nesse mercado há mais de 30 anos e somos um dos principais fornecedores de tecnologia em software para o setor. Temos soluções que acompanham a gestão de ponta a ponta, desde o plantio até as etapas finais de produção de etanol e açúcar nas usinas. Temos investido na modernização dessas soluções e na evolução do portfólio para atender às mudanças do mercado. Uma das tendências que estamos acompanhando é a produção de etanol de milho e de outras matérias-primas, além da cana-de-açúcar.

É um setor desafiador, assim como o agronegócio de maneira geral, mas também é um dos segmentos que mais investem em tecnologia. Com base em estudos de mercado que realizamos, identificamos a bioenergia como uma das áreas mais digitalizadas do agronegócio. Por isso, acreditamos que a IA será uma frente importante para dar continuidade a essa evolução.

Com o crescimento da produção de biocombustíveis e o aproveitamento de diferentes matérias-primas, quais são os principais desafios de gestão enfrentados por usinas e empresas de bioenergia? Como a tecnologia pode ajudar a superá-los?

Fabrício Orrigo: A expansão para outras matérias-primas, como o milho, exige que as soluções acompanhem as necessidades dessas operações. Por isso, estamos evoluindo nosso portfólio para atender também a esse mercado. De maneira geral, o segmento enfrenta desafios e precisa continuar investindo em modernização e digitalização. A tecnologia contribui ao oferecer informações que apoiam as decisões e ajudam a aumentar a produtividade das operações.

De que maneira os sistemas integrados, a automação e a análise de dados podem contribuir para aumentar a eficiência industrial, reduzir custos e melhorar o planejamento da produção nas operações de bioenergia?

Fabrício Orrigo: Quando conseguimos acompanhar a operação de ponta a ponta, temos condições de reunir informações que ajudam a tomar decisões melhores e aumentar a produtividade. A Inteligência Artificial também pode contribuir para automatizar processos e melhorar a eficiência operacional. A integração das informações permite que as empresas tenham uma visão mais completa de suas atividades e identifiquem oportunidades de melhoria. É nessa combinação entre dados, gestão e automação que estamos concentrando parte dos nossos investimentos.

Quais oportunidades de digitalização devem ganhar força neste segmento nos próximos anos e como a TOTVS pretende apoiar as empresas que buscam ampliar a produção e a competitividade?

Fabrício Orrigo: Acredito que a Inteligência Artificial terá um papel importante nessa evolução, tanto para aprimorar a tomada de decisão quanto para automatizar processos e aumentar a produtividade. Estamos investindo em soluções que geram mais informações para apoiar as decisões e melhorar os resultados das operações. Como atendemos diferentes etapas do processo produtivo, conseguimos reunir dados de ponta a ponta e oferecer uma visão mais ampla do negócio. A Inteligência Artificial aplicada a essas informações é uma das principais frentes em que estamos apostando para contribuir com a eficiência e a competitividade do setor.

Perspectivas para o agronegócio

Sobre o futuro, quais tendências tecnológicas devem ter maior impacto sobre a competitividade do agronegócio brasileiro? Quais delas devem receber mais atenção das empresas do setor?

Fabrício Orrigo: Acredito que estamos em um momento muito favorável para ampliar o uso da Inteligência Artificial no agronegócio. O setor já gera grandes volumes de dados há bastante tempo, por meio de máquinas conectadas, equipamentos e dispositivos utilizados nas operações. Agora, o desafio é organizar essas informações e aproveitá-las de maneira mais efetiva. Com uma boa estrutura de dados, a Inteligência Artificial pode ajudar a analisar históricos, fazer previsões, sugerir ações e apoiar decisões. Por isso, acredito que a tecnologia terá um papel cada vez mais importante na produtividade e na competitividade do agronegócio brasileiro.