Um dos grandes desafios para produtores é a baixa vida útil dos morangos, mas uma parceria entre a Embrapa Instrumentação e a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) promete mudar isso por meio da nanotecnologia.
No estudo, os pesquisadores geraram um material de revestimento funcionalizado com resistência mecânica, térmica e à água, além de propriedades ópticas e antimicrobianas, que permitiu aumentar o tempo de vida do morango de 5 para 12 dias.
Basicamente, essa película forma uma barreira que limita a entrada de oxigênio, aumentando, por consequência, sua vida útil. Mas há várias outras vantagens do uso da nanotecnologia na produção de morango. Descubra quais são neste artigo!

Entendendo melhor essa inovação em nanotecnologia
O estudo foi conduzido pelo bacharel em Agroecologia Josemar Gonçalves de Oliveira Filho, sob a orientação do pesquisador da Embrapa Instrumentação Marcos David Ferreira.
A proposta da pesquisa foi oferecer uma nova abordagem de revestimento, baseado em produtos naturais e de alta eficiência, em conformidade com a alta demanda por soluções sustentáveis, tanto em âmbito nacional como internacional.
No estudo, os morangos foram imersos em soluções de revestimento bionanocompósito, secos ao ar, distribuídos em caixas plásticas e armazenados por 12 dias em temperatura refrigerada.
Quando comparados a morangos sem o revestimento, a pesquisa constatou que a técnica, além de aumentar a vida útil do morango, também melhorou a qualidade dos frutos, minimizando a alteração de cor, textura, sólidos solúveis, pH, acidez titulável e teor de compostos bioativos benéficos para a saúde humana.
Assim, os pesquisadores acreditam que esse revestimento natural é uma estratégia inovadora para produtores rurais durante a pós-colheita, aumentando o período de comercialização da fruta.
“Isso retarda a troca de gases e umidade, resultando na redução da perda de água, respiração e taxas de amadurecimento”, explica o pesquisador da Embrapa.

Exemplo do uso da nanotecnologia na agricultura
O revestimento em frutos é uma tecnologia já utilizada mundialmente e muito aplicada em frutas, em especial as cítricas, como a laranja e limão, o que pode ser observado comumente em pontos de venda de frutas e hortaliças, como supermercados de forma geral.
Mas, por meio da nanotecnologia, Marcos David Ferreira explica que é possível reduzir os tamanhos das partículas para a dimensão nano. “Por meio da nanotecnologia, estes revestimentos podem ser menores que um vírus, ou comparativamente mil vezes menor que um fio de cabelo”, afirma.
No caso dos revestimentos comestíveis, o pesquisador da Embrapa explica que é formada uma película invisível, que é muito mais uniforme e aderida à casca do fruto.
“Essa tecnologia proporciona alterações na troca gasosa, permitindo acúmulo de gás carbônico e diminuição no oxigênio. Com isso, conseguimos reduzir o metabolismo do fruto e consequentemente suas taxas respiratórias, protegendo contra a perda de água e também, em muitos casos, com ação antimicrobiana”, diz.
Na pesquisa realizada com os morangos, por meio da nanotecnologia, foi possível realizar alterações no tamanho da partícula em celulose e também na cera de carnaúba, alterando as suas propriedades. Com isso, pôde-se usar este composto como revestimento em um fruto tão sensível como o morango, prolongando sua vida de prateleira sem comprometer a qualidade.

Alternativa sustentável e compatível com a demanda do mercado
A substância foi desenvolvida exclusivamente a partir de ingredientes de origem vegetal, tais como óleos essenciais de hortelã e capim, cera de carnaúba (uma palmeira típica do Nordeste), amido de araruta, uma planta medicinal e os nanocristais de celulose.
Sendo assim, Marcos Ferreira explica que, por serem “plant-based”, estes produtos estão dentro do contexto e demandas do mercado alinhados com as determinações de órgãos nacionais e internacionais, utilizando componentes Geralmente Reconhecidos como Seguros – GRAS.
O uso de revestimentos apenas de origem vegetal é outro diferencial, embora dentro da linha GRAS sejam permitidos componentes de origem animal e sintética. “Atualmente muitos consumidores, por razões distintas, como religiosas e também por restrições alimentares, evitam estes dois últimos componentes citados”, completa Ferreira.
O pesquisador da Embrapa complementa: “A nanotecnologia é uma ferramenta promissora para atender a uma demanda nacional e internacional pela capacidade de melhorar as propriedades desses revestimentos, principalmente à base de cera, reduzindo a necessidade de soluções sintéticas”.

Solução que vai além da busca pela qualidade
Um dos grandes desafios no momento para o setor de hortifrúti é a busca pela redução das perdas e desperdício de alimentos. Os custos relacionados às perdas costumam variar muito de produto a produto, e também de acordo com o sistema de produção e comercialização.
De forma geral, são estimados valores entre 10% e 30% em perdas. Mas, para morangos em especial, o pesquisador da Embrapa explica que o impacto pode ser ainda maior. “Morangos são muito sensíveis ao manuseio e variações na temperatura, consequentemente podem ter perdas maiores”.
Desta forma, a pesquisa mostrou que a nanotecnologia auxilia na conservação e manutenção da qualidade dos frutos. “Por meio da tecnologia, você proporciona ao setor, em especial o varejo e o consumidor, maior tempo de prateleira e tempo hábil para consumo, reduzindo as perdas”, cita Ferreira.
Adicionalmente, essa tecnologia também possibilita o envio do alimento para locais mais distantes, onde o produto poderia ter maiores chances de deterioração durante o transporte.
Por fim, os pesquisadores ressaltam que a próxima etapa é a finalização da tecnologia com avaliações em condições comerciais, para sua inserção no sistema de produção e análise de aceitação do consumidor.
“O tempo estimado para validação da nanoemulsão junto ao setor de produção e comercialização, incluindo análise de mercado e escala industrial, é de dois a quatro anos”, conclui Ferreira.
Quer saber mais sobre o papel da nanotecnologia na agricultura? Então confira este artigo onde falamos sobre o primeiro nanossatélite brasileiro usado para monitoramento agrícola.