O biometano começa a aparecer com mais frequência nas contas e decisões dentro do agronegócio. Produzido a partir de resíduos orgânicos, o combustível já tem operação comercial no país e avança puxado por usinas, granjas e indústrias que passaram a olhar para esse material de outra forma. 

Projeções do setor indicam que a produção nacional pode chegar a cerca de 2,3 milhões de metros cúbicos por dia até 2027, mais que o triplo do volume atual. O crescimento tem relação direta com o campo, principalmente com resíduos da cana-de-açúcar e da produção de proteínas animais

Segundo José Piñeiro, executivo da Tria Energia, o biometano é recente no Brasil, mas ganhou corpo em poucos anos. “A primeira unidade em escala comercial começou a operar em 2017, com produção a partir de aterro sanitário. No setor sucroenergético, a pioneira foi a Cocal, em 2020. Depois vieram empresas como Adecoagro, São Martinho e Raízen”, afirma. 

Ele aponta três pontos que ajudam a explicar esse avanço. “A redução no custo do investimento na purificação do biogás fez muitos projetos migrarem da geração de energia elétrica para a produção de biometano. Também houve o desenvolvimento de veículos pesados movidos a gás e uma preocupação maior de indústrias com a redução de emissões de carbono”, diz. 

Capacidade do campo chama atenção 

O volume que pode ser gerado a partir do agro brasileiro coloca o tema em outro patamar. Dados da Associação Brasileira de Biogás (ABiogás) indicam potencial de 114,7 milhões de metros cúbicos por dia, considerando diferentes cadeias produtivas. 

“Esse número é aproximadamente o dobro do consumo atual de gás natural no Brasil”, afirma Piñeiro. 

Entre os segmentos, a cana-de-açúcar lidera. “O setor sucroenergético sozinho tem potencial para produzir 57,6 milhões de m³ por dia, o que representa 48% de toda a capacidade do país. Na prática, isso seria suficiente para atender 100% do consumo atual de gás natural”, explica. 

Além da cana, entram nessa conta resíduos da pecuária, como dejetos da produção de proteínas animais, e subprodutos de outras cadeias agrícolas. 

Substituição direta do gás natural e do diesel 

O biometano já tem uso regulado no país. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) reconhece o combustível como substituto do gás natural, o que permite sua injeção em gasodutos e comercialização para a indústria. 

Ele pode ser usado diretamente por indústrias que precisam de energia térmica, sem necessidade de adaptação relevante”, afirma Piñeiro. 

No transporte pesado, a substituição ocorre em relação ao diesel. “Montadoras como Scania e Iveco já têm caminhões movidos a biometano sendo vendidos”, diz. Esses veículos operam com tecnologia a gás e têm sido adotados por empresas interessadas em reduzir custos operacionais e emissões. 

Há também iniciativas em andamento para ampliar o uso. Em estados como São Paulo e Goiás, projetos buscam substituir frotas de ônibus movidos a diesel por modelos a biometano. Outro movimento envolve a criação de corredores de abastecimento para permitir o tráfego de caminhões em rotas mais longas. 

Efeito na infraestrutura e na distribuição 

O avanço da produção tende a pressionar a expansão da malha de gasodutos. A conexão entre usinas e polos industriais passa a ser um ponto central. 

“O desenvolvimento do biometano deve ampliar a rede de gasodutos no Brasil, porque aumenta o interesse das distribuidoras em conectar usinas de cana à indústria”, afirma Piñeiro. “Quanto maior essa rede, maior o número de consumidores aptos a utilizar o gás.” 

Esse movimento altera a lógica de distribuição de energia em algumas regiões, aproximando a produção do consumo e criando novos fluxos comerciais. 

Nova fonte de receita e redução de custos 

Dentro das usinas, o biometano muda a forma como os resíduos entram na conta. O que antes era tratado como descarte passa a gerar receita. 

“Ele transforma resíduos da indústria sucroenergética em mais uma fonte de faturamento”, diz Piñeiro. 

Ao mesmo tempo, há redução de despesas operacionais. “A própria frota de veículos pesados da usina pode ser convertida para biometano, diminuindo de forma significativa a compra de diesel”, afirma. 

Esse movimento combina duas frentes: geração de receita com a venda do gás e economia no consumo de combustível fóssil. Em paralelo, há queda nas emissões associadas à operação. 

Expansão puxada por diferentes cadeias 

Embora a cana concentre boa parte do potencial, outras cadeias começam a entrar no mapa. A produção de proteínas animais, por exemplo, gera grande volume de resíduos orgânicos com capacidade de conversão em biogás e, posteriormente, biometano. 

Esse avanço depende de investimento em plantas de purificação e na estrutura de coleta e tratamento dos resíduos. Com a queda de custo dessas tecnologias, projetos que antes não fechavam a conta passaram a sair do papel. 

Ao mesmo tempo, a demanda por parte da indústria e do transporte cria uma base de consumo que ajuda a dar previsibilidade aos investimentos. 

Um mercado em formação 

O biometano ainda ocupa uma fatia pequena da matriz energética brasileira, mas os movimentos recentes mostram um mercado em formação, com projetos em diferentes regiões e participação crescente de grandes grupos do setor sucroenergético. 

A combinação entre disponibilidade de matéria-prima, uso já permitido na infraestrutura existente e demanda por alternativas ao diesel e ao gás natural coloca o combustível em uma posição concreta dentro da agenda energética do país.