Durante o Ano Internacional da Mulher Agricultora, a Agrishow Digital está fazendo uma série de entrevistas especiais com mulheres que vivem o agro todos os dias, na gestão, na produção, na tomada de decisão e na construção de legado. Hoje, vamos conhecer mais uma das agricultoras que inspiram o Agro brasileiro.
Depois de acompanhar a trajetória de Kátia Fenner, de São Joaquim, e Candice Rangel, da região do Cariri, agora vamos nos direcionar ao Vale do São Francisco, território que transformou o semiárido em referência global na fruticultura irrigada. É de lá que fala Mineia Kazume, produtora de manga e filha de um dos pioneiros da cultura na região.
Mineia cresceu acompanhando o trabalho do pai, que esteve entre as cinco famílias que implantaram a mangicultura no Vale. Chegou a se afastar do campo, mas voltou por decisão própria e por propósito. Hoje, atua em diferentes frentes dentro do agro, tem a manga como carro-chefe da produção e vivencia os desafios e aprendizados de produzir para o mercado internacional.
Em um bate-papo sem rodeios, ela fala sobre respeito, tecnologia, disciplina e liderança feminina. Confira os principais trechos da entrevista abaixo. Boa leitura!
Como começou sua história com a agricultura?
Eu cresci no campo. Meu pai foi uma das cinco famílias que implantaram a cultura da manga no Vale do São Francisco. Eu vi de perto o trabalho, a dedicação, a vontade de vencer, a luta diária.
Mas ficar no agro foi uma escolha minha. Eu me ausentei por um tempo, mas o campo sempre me chamou. É onde eu me sinto realizada e foi onde descobri o meu propósito.
Quais culturas fazem parte hoje da sua produção e qual é o papel da manga nesse conjunto?
Hoje eu atuo em várias frentes dentro do agro. Já fiz muitas culturas rápidas por causa da parceria com a Bayer na cultura do milho e fazemos rotações.
Mas a manga é o coração de tudo. A manga sustenta muita gente aqui no Vale. Ela gera emprego, renda e movimenta a região inteira. Hoje a nossa região é responsável por quase 95% da exportação da manga no Brasil.
O que o Vale do São Francisco representa para você?
O Vale é minha casa. É onde eu e minha família estamos construindo a nossa história.
Aqui a gente aprende cedo que nada vem fácil, mas tudo é possível quando se dedica a um projeto de vida com seriedade e persistência.

O que torna o Vale uma região estratégica para a produção e exportação de manga?
O clima ajuda muito, a irrigação é diferenciada e o produtor tem evoluído muito com as pesquisas, buscando sempre inovação e tecnologia.
O Vale aprendeu a produzir manga com qualidade e no melhor padrão para o mundo.
Como é o seu dia a dia no campo?
Não tem rotina. Cada dia é um desafio diferente. Tem visita, conversa, decisão, problema para resolver. Quem trabalha no campo precisa estar presente.






Quais práticas sustentáveis fazem parte da sua produção hoje?
A gente se preocupa com o uso correto da água, com manejo bem feito e com escolhas mais responsáveis.
Utilizamos e indicamos produtos sustentáveis, biodegradáveis, dentro das possibilidades e com responsabilidade ambiental, pensando sempre nas próximas gerações.
Como a tecnologia e a inovação têm impactado a fruticultura na região?
Ajudou muito. Hoje dá para produzir melhor, errar menos e ter mais controle. A tecnologia veio para somar, não para substituir o produtor.
O que mudou na sua forma de produzir quando o foco passou a ser também o mercado internacional?
Mudou tudo. O nível de cobrança é maior. Tem que ser mais organizado, mais correto e mais responsável.
O mercado internacional ensina disciplina – e isso colabora com a nossa casa também, porque traz muitas boas práticas.
Quais foram os principais desafios enfrentados ao longo da sua carreira, especialmente por ser mulher no agro?
Foi ter que provar o tempo todo que eu sei o que estou fazendo. Muitas vezes não acreditam, testam, duvidam. Ser mulher no agro ainda é ter que ser firme sem perder quem a gente é.

Neste Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais causas precisam ser defendidas?
A principal causa é respeito. Mulher no campo trabalha muito e, muitas vezes, não é vista.
A gente precisa de acesso à informação, oportunidade, crédito e espaço para falar. Quando uma organização como a Organização das Nações Unidas traz esse tema, ajuda o mundo a enxergar o que a gente já vive todo dia.
Que mensagem você deixaria para mulheres que desejam construir uma carreira no campo?
Não desistam. Acreditem no potencial de vocês. Se posicionem, estudem e confiem no que sabem. Se possível, estejam sempre perto de pessoas que apoiam, porque elas existem.
Eu sempre falo que só existem dois tipos de mulheres: as que ainda não descobriram a força que têm e as que já descobriram. O campo também é lugar de mulher, de decisão e de liderança.