O avanço da colheita no Brasil marca um momento decisivo para o produtor rural. É agora que os números da produção começam a se confirmar e, ao mesmo tempo, chegam as cobranças de financiamentos, custos e contratos firmados ao longo da safra. Mas, apesar da expectativa de uma colheita elevada, o cenário financeiro do campo segue desafiador. 

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma produção de 353,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, impulsionada pelo bom desenvolvimento das lavouras em diversas regiões do país. Ainda assim, o agronegócio enfrenta dificuldades para equilibrar caixa, custos e dívidas, em um contexto de margens apertadas e crédito caro. 

Dados do Banco Central mostram que o saldo do crédito rural alcançou R$752 bilhões, o equivalente a 13,1% de toda a carteira de crédito do país. A inadimplência também chama atenção, com índices acima de 9% em operações contratadas a taxas de mercado, o maior nível desde 2011. 

O resultado é um paradoxo cada vez mais comum no campo: boa produção não significa, necessariamente, saúde financeira.

“O produtor colhe bem, mas não consegue pagar as contas porque falta planejamento jurídico e financeiro ao longo do ciclo”, explica o advogado Pedro Henrique Oliveira Santos, especialista em dívidas rurais. 

Os 7 erros que levam o produtor à inadimplência 

Segundo especialistas, alguns equívocos se repetem safra após safra: 

1. Contratar seguro com cobertura insuficiente 

Apólices que cobrem apenas parte da produção não garantem proteção em perdas maiores. 

2. Aceitar seguro imposto pelo banco 

Em muitos casos, o produtor é obrigado a contratar seguros de baixa qualidade, que não indenizam corretamente. 

3. Confiar apenas no gerente bancário 

Há exigências feitas pelos bancos que não são permitidas pela legislação do crédito rural. 

4. Buscar o banco antes de orientação jurídica 

“O ideal é procurar um advogado especializado antes de sentar para negociar com o banco”, orienta Pedro Henrique. 

5. Não apresentar laudo de capacidade de pagamento 

Documento essencial para pedidos de prorrogação ou renegociação. 

6. Não guardar contratos e recibos de insumos 

A falta de documentos dificulta qualquer defesa futura. 

7. Vender patrimônio por medo 

Muitos produtores vendem bens abaixo do valor de mercado para pagar dívidas, quando existem alternativas legais. 

Execuções e risco de perder mais do que se deve 

A advogada Beatriz Alves, especialista em endividamento rural, alerta para o desconhecimento dos direitos do produtor em processos de cobrança. “Em execuções, o produtor pode acabar perdendo um patrimônio muito maior do que a dívida, mesmo tendo proteção legal”, afirma. 

A Constituição Federal garante que a pequena propriedade rural, de até quatro módulos fiscais, trabalhada pela família, é impenhorável. Já o Código de Processo Civil protege bens essenciais à atividade, como máquinas e rebanhos, embora essas garantias dependam de análise caso a caso. 

“A assessoria jurídica preventiva ajuda o produtor a escolher o melhor caminho antes que a situação vire um processo judicial”, destaca Beatriz. Segundo os especialistas, a elaboração e apresentação de documentos técnicos — como laudos de capacidade de pagamento, laudos de frustração de safra e demonstrativos financeiros — são fundamentais para explicar as causas da inadimplência e comprovar a viabilidade futura do pagamento. Esses documentos servem como base técnica e jurídica tanto para negociações com as instituições financeiras quanto, em caso de negativa dos bancos, para eventual análise pelo Poder Judiciário. 

Ainda assim, os advogados ressaltam que não há garantia de resultado, uma vez que cada caso depende de uma atuação jurídica criteriosa e especializada, além da análise individual das circunstâncias envolvidas.