O Brasil entra na semana do carnaval e tudo muda. A rotina afrouxa, os blocos se espalham, as avenidas viram mar de gente, as cidades assumem outro ritmo. É como se o país combinasse uma pausa coletiva, nem que seja por algumas horas.
Mas existe um Brasil que não entra no modo pausa. Um Brasil que não baixa o volume, que não espera a terça-feira terminar, que não opera no “volto na quarta”. Esse Brasil é o agro.
E é aqui que a conversa fica interessante.
É impossível falar de carnaval sem falar de bebida alcoólica. Não por estereótipo, mas por dado. O Brasil é o terceiro país que mais consome cerveja no mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Ou seja, a cerveja não é detalhe na festa brasileira, ela é parte do cenário.
E não é só cerveja. Os destilados também ganharam força. Gin, whisky e a coquetelaria em geral ocupam cada vez mais espaço na mesa e nos blocos, acompanhando uma mudança clara de consumo, menos quantidade, mais experiência.
Só que tem um detalhe que quase ninguém conecta. Destilado também vem do agro.
Antes de virar drink bonito no copo, ele começa como matéria-prima do campo. Whisky nasce de grãos como cevada, milho e trigo. Gin, na base, quase sempre parte de um álcool neutro feito a partir de cereais ou cana e depois recebe a infusão de botânicos como zimbro, especiarias e cascas, que também são produção agrícola.
No fim, o processo é simples de entender. O campo entrega a matéria-prima. A indústria fermenta, destila e transforma. E, em alguns casos, como no whisky, ainda entra o tempo de envelhecimento em barris, que dá aroma, cor e identidade. Ou seja, por trás de cada drink que vira moda no carnaval, tem lavoura, tem indústria e tem logística.

E aí vem o ponto que quase ninguém lembra no meio da festa. A bebida que circula na mão do folião nasce no campo. Literalmente.
Um hectare de cevada no Brasil produz pouco mais de quatro toneladas. É esse grão que, depois do processo industrial, vira malte e o malte vira cerveja. Parece óbvio, mas essa relação ainda passa batida para muita gente. E quando a gente traduz isso para algo fácil de visualizar, tudo ganha outra proporção. Um único hectare tem potencial para virar dezenas de milhares de latinhas de 350 ml.
Enquanto milhões de brasileiros tiram o pé do acelerador na semana do carnaval, o agro continua em ciclo contínuo. Planta, colhe, seca, transporta, entrega. O agro não opera no calendário da folia.
Porque o agro não pode parar.
E se parasse? Faltaria cerveja. Faltaria comida. Faltaria logística. Faltaria festa.
Durante o carnaval, o consumo de cerveja no país cresce tanto que representa cerca de 4 por cento do volume anual vendido no Brasil. Isso significa mais indústria funcionando, mais caminhões rodando, mais distribuição ativa, tudo enquanto o bloco passa. A economia gira, mesmo quando o país decide relaxar.
E isso não diminui a festa. Não é crítica, não é moralismo, não é sermão. É apenas o retrato do Brasil real.
O Brasil é, sim, o país do carnaval. Mas antes de tudo, ele é o país do agro.
É do campo que sai a bebida que acompanha a alegria, da lavoura que nasce o ingrediente da cerveja, da cadeia produtiva que surge cada brinde registrado nos stories. Confete na rua, produção no campo. Essa é a dualidade que sustenta o país em fevereiro e no resto do ano também.
O carnaval passa rápido. O agro não passa nunca.
E quando a gente aprende a enxergar a cadeia inteira, a percepção muda. A gente para de enxergar só “produto” e começa a enxergar gente, trabalho, tecnologia, economia, território, vida real. É nessa encruzilhada entre cultura e produção, entre festa e rotina, que o Brasil acontece.
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