A busca por maior produtividade agrícola com menor impacto ambiental tem colocado a microbiologia no centro das decisões estratégicas do campo. Em um cenário de custos elevados de insumos, pressão por sustentabilidade e necessidade de segurança alimentar, as bactérias promotoras de crescimento de plantas (PGPB, do inglês Plant Growth-Promoting Bacteria) surgem como uma das soluções mais promissoras da agricultura moderna.

Esses microrganismos benéficos atuam diretamente no solo e na planta, favorecendo o desenvolvimento das culturas, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos e contribuindo para sistemas produtivos mais equilibrados. Mais do que uma tendência, as PGPB representam uma mudança de lógica: produzir mais a partir do funcionamento natural do solo.

Ao longo deste artigo, você vai entender o que são as PGPB, como elas atuam, quais benefícios oferecem ao produtor rural, suas aplicações práticas no campo brasileiro e os desafios para ampliar o uso dessas soluções biológicas na agricultura.

O que são as bactérias promotoras de crescimento (PGPB)

As bactérias promotoras de crescimento de plantas são microrganismos benéficos que vivem no solo ou associados às raízes das culturas. Diferentemente das bactérias patogênicas que causam doenças, as PGPB atuam de forma positiva, estimulando o crescimento vegetal, melhorando a absorção de nutrientes e fortalecendo a saúde das plantas.

Essas bactérias fazem parte do que se conhece como rizosfera, a região do solo diretamente influenciada pelas raízes. Nesse ambiente, ocorre uma intensa troca biológica que impacta diretamente o desenvolvimento das culturas.

Segundo Eduardo Funari, engenheiro agrônomo especializado em gestão ambiental, a atuação dessas bactérias está diretamente ligada à fisiologia vegetal:

“Algumas bactérias, as rizobactérias, têm a capacidade de produzir fito hormônios, que são hormônios de crescimento de brotos e raízes. Isso estimula a saúde, o crescimento e o desenvolvimento das plantas.”

Essa interação biológica ajuda a planta a expressar melhor seu potencial produtivo, especialmente em sistemas que buscam eficiência e sustentabilidade.

Como as PGPB atuam: mecanismos diretos e indiretos

A ação das bactérias promotoras de crescimento pode ser dividida em mecanismos diretos e indiretos, ambos fundamentais para o desempenho das culturas.

Nos mecanismos diretos, destacam-se:

  • Produção de fitohormônios, como auxinas e giberelinas, que estimulam o crescimento radicular e aéreo;
  • Fixação biológica de nitrogênio, reduzindo a necessidade de fertilizantes nitrogenados;
  • Solubilização de fósforo e outros nutrientes, tornando-os mais disponíveis para as plantas.

Já nos mecanismos indiretos, as PGPB contribuem para:

  • Biocontrole de patógenos do solo, competindo com microrganismos prejudiciais;
  • Indução de resistência sistêmica, tornando as plantas mais tolerantes a pragas, doenças e estresses ambientais.

Na prática, isso significa plantas mais vigorosas, com maior capacidade de absorver nutrientes e resistir a condições adversas.

Benefícios para o produtor rural: produtividade, custo e sustentabilidade

O uso de PGPB e biofertilizantes traz ganhos que vão além do aumento de produtividade. Um dos principais diferenciais está no equilíbrio do sistema produtivo, com impactos diretos nos custos e na sustentabilidade da lavoura.

Eduardo Funari destaca que a melhoria da saúde do solo é o primeiro grande efeito observado:

“Os biofertilizantes têm a capacidade de melhorar a saúde do solo e das plantas. Quando isso acontece, as plantas se tornam menos suscetíveis a pragas e doenças, e o solo passa a ser mais produtivo.”

Com plantas mais equilibradas, o produtor consegue reduzir o uso de insumos químicos, o que diminui custos e mitiga impactos ambientais. Além disso, há ganhos estruturais no solo, como maior atividade da microfauna e microflora, melhoria da fertilidade a médio e longo prazo e menor risco de degradação.

“É possível equilibrar todo o sistema produtivo, melhorar a fertilidade do solo a médio e longo prazo e obter ganho de produtividade com custo muito mais reduzido”, reforça o especialista.

Outro ponto estratégico é a possibilidade de produzir biofertilizantes a partir de insumos existentes na própria fazenda, o que aumenta a autonomia do produtor e reduz a dependência externa.

Aplicações práticas no campo brasileiro

As PGPB já são utilizadas em diversas culturas no Brasil, com destaque para soja, milho, hortaliças, cana-de-açúcar e fruticultura. Em sistemas bem manejados, os resultados aparecem na forma de maior enraizamento, melhor aproveitamento de nutrientes e maior estabilidade produtiva.

No caso das hortaliças, por exemplo, o uso de microrganismos benéficos tem mostrado bons resultados na uniformidade das plantas e na redução de perdas por doenças. Já em culturas extensivas, como soja e milho, o ganho está associado à eficiência nutricional e à tolerância ao estresse hídrico.

Funari ressalta que o uso correto é determinante para o sucesso:

“Estamos tratando de insumos vivos. Fatores como temperatura, pH, insolação, chuva e umidade interferem diretamente na eficiência do produto.”

Por isso, o acompanhamento técnico e o respeito às recomendações de aplicação são fundamentais para garantir bons resultados no campo.

PGPB e segurança alimentar

Em um contexto de crescimento populacional e pressão sobre os recursos naturais, as PGPB ganham relevância também no debate sobre segurança alimentar. Ao permitir que se produza mais com menos impacto ambiental, essas soluções contribuem para sistemas agrícolas mais resilientes.

A redução do uso de fertilizantes químicos ajuda a proteger lençóis freáticos, nascentes e ecossistemas, ao mesmo tempo em que mantém a produtividade necessária para atender à demanda por alimentos.

“O uso excessivo de insumos químicos pode causar desequilíbrios e degradação do solo, além de impactar o meio ambiente”, alerta Funari.

Desafios e perspectivas futuras

Apesar do enorme potencial, ainda existem desafios para ampliar o uso das PGPB em larga escala. Um dos principais pontos é a regulamentação, já que se trata de organismos vivos com capacidade de mutação.

“É fundamental garantir segurança sanitária, certificação e uso seguro para o meio ambiente e para os consumidores”, explica o especialista.

Outro desafio está na estabilidade dos produtos biológicos, que precisam ser bem formulados para resistir a variações ambientais e garantir eficiência mesmo em condições adversas.

Por outro lado, as perspectivas são altamente positivas. O Brasil possui grande diversidade microbiana e capacidade técnica para desenvolver novas cepas adaptadas às condições tropicais.

“Já existem bactérias em desenvolvimento com capacidade de proteger culturas contra estresse hídrico, pragas e doenças. O potencial é gigantesco”, afirma Funari.

Com investimento em pesquisa, melhoramento genético e inovação, as PGPB podem se tornar um dos pilares de uma agricultura verdadeiramente auto sustentável no país.

Um novo caminho para a agricultura brasileira

As bactérias promotoras de crescimento de plantas representam mais do que uma alternativa aos insumos tradicionais. Elas simbolizam uma nova forma de pensar a produção agrícola, baseada no equilíbrio biológico, na eficiência dos recursos naturais e na sustentabilidade de longo prazo.

Ao integrar microbiologia, tecnologia e manejo adequado, o produtor rural amplia sua produtividade, reduz custos e contribui para um sistema alimentar mais seguro e resiliente. O desafio agora é acelerar a adoção, ampliar o conhecimento técnico e transformar esse potencial em prática consolidada no campo brasileiro.

👉 Para quem busca avançar em práticas sustentáveis no campo, vale a pena entender como a tecnologia contribui para um menor impacto ambiental. Veja como a bioinformática no agronegócio está transformando dados em produtividade sustentável