As baixas temperaturas registradas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas acenderam um alerta entre produtores de uva. O frio ocorre justamente durante uma fase delicada das videiras: a brotação, quando os primeiros tecidos verdes já começaram a se desenvolver e ficam mais suscetíveis aos danos provocados pela geada.

Em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, a Casa Marques Pereira adotou um sistema automatizado de aspersão de água para proteger os vinhedos durante as madrugadas mais frias. Instalado em 2024, o equipamento atende as áreas com maior incidência de geada. Nos demais pontos da propriedade, tratores são utilizados quando há risco de ocorrência do fenômeno.

O caso mostra como diferentes métodos podem ser empregados no campo para reduzir a exposição das plantas às baixas temperaturas em uma etapa decisiva para a formação dos futuros cachos.

Por que a brotação deixa as videiras mais expostas à geada?

Antes da brotação, as gemas apresentam maior resistência ao frio. A condição muda quando começam a surgir os primeiros tecidos verdes.

Segundo a Embrapa, os tecidos jovens da videira têm maior sensibilidade ao congelamento e podem sofrer danos irreversíveis quando submetidos a temperaturas próximas ou abaixo de 0 °C. Folhas, ramos e estruturas reprodutivas podem ser atingidos, comprometendo o potencial produtivo do ciclo.

O inverno faz parte do desenvolvimento natural da videira. Durante a dormência, o frio tem função na quebra desse período e na preparação da planta para a brotação.

O maior risco aparece quando temperaturas muito baixas ocorrem depois que os tecidos verdes começam a se desenvolver. Nesse estágio, poucas horas de frio intenso podem provocar danos que se refletem no restante do ciclo.

No caso dos vinhedos da Casa Marques Pereira, ondas de calor registradas no fim de julho anteciparam a brotação das parreiras, deixando as plantas mais vulneráveis às geadas tardias.

Como a aspersão de água protege a planta?

A proteção por aspersão se apoia em um princípio físico: quando a água congela sobre a superfície, libera calor e mantém a mistura água-gelo perto de 0 °C. Com molhamento contínuo e uniforme, essa camada ajuda a evitar que o tecido vegetal desça a temperaturas mais baixas e críticas.

Na Casa Marques Pereira, os aspersores formam uma névoa de gotículas finas que congelam sobre as gemas. “Os aspersores fazem uma névoa de água com gotículas bem finas. Quando essas gotículas chegam à gema, formam algo similar a um ‘iglu’, que protege a gema das videiras de queimar”, explica Felipe Marques Pereira, vinhateiro e sócio-proprietário da Casa Marques Pereira.

Segundo Felipe, a avaliação dos efeitos do sistema é feita a partir do histórico das próprias áreas protegidas. A comparação com anos anteriores mostrou a preservação das partes mais sensíveis da planta. “Foi justamente a preservação das gemas e tecidos da parreira, não afetando sua produtividade”, relata.

Quando ligar o sistema de aspersão contra geadas?

Na propriedade, o acompanhamento começa antes de a temperatura atingir níveis próximos de congelamento. Segundo Felipe, previsões abaixo de 5 °C já servem como sinal de atenção.

“Geralmente acompanhamos quando há o indicativo de temperaturas abaixo dos 5 graus. Daí vamos acompanhando outras condições, como ausência de ventos, céu sem nuvens e a umidade relativa do ar, pois a geada que é mais perigosa para a planta é a que ocorre com baixa umidade do ar e atinge direto os tecidos da planta.”

Além da previsão, a temperatura medida próxima ao solo orienta o momento de colocar os aspersores em funcionamento.“Quando a temperatura em solo fica abaixo dos 3 graus ligamos o sistema e desligamos eles com os primeiros raios de sol ou quando a temperatura começa a subir dos 3 graus”.

Temperatura, vento, presença de nuvens e umidade do ar, portanto, fazem parte do acompanhamento realizado antes e durante as madrugadas de maior risco.

Sistema de aspersão exige aplicação contínua durante a geada

A operação precisa acompanhar a temperatura durante toda a madrugada. No caso da aspersão, a aplicação não pode ser interrompida enquanto as temperaturas permanecerem baixas, pois a interrupção pode permitir o congelamento dos tecidos.

Na Casa Marques Pereira, o sistema permanece ligado até que as condições indiquem que o risco passou. Como explica Felipe, os primeiros raios de sol ou a elevação da temperatura acima dos 3 °C são usados como referência para o desligamento.

O funcionamento contínuo também exige que a propriedade tenha disponibilidade de água e energia durante o período de uso, fatores que precisam ser considerados antes da instalação.

Por que a propriedade também utiliza tratores?

Os tratores são empregados nas áreas que não contam com o sistema de aspersão. “Nosso sistema está instalado em áreas que têm maior incidência de geada. Nas demais áreas a ocorrência de geada é mais rara, então utilizamos o trator no caso de uma dessas áreas vir a ser atingida pela geada”, explica Felipe.

A propriedade concentra, assim, a instalação fixa nos pontos historicamente mais sujeitos ao fenômeno e mantém os tratores como recurso para áreas onde a ocorrência é menos frequente.

Quanto custa instalar um sistema antigeada?

Segundo Felipe, implantar um sistema como o utilizado na propriedade custa aproximadamente R$ 48 mil por hectare.

O valor faz com que a identificação dos locais mais sujeitos à geada tenha peso na decisão de investimento. A instalação não precisa, necessariamente, abranger todo o vinhedo.

Para quem avalia adotar esse tipo de proteção, Felipe recomenda começar pelo histórico da propriedade.

“Os pontos de maior recorrência, observar o histórico da área, se tem disponibilidade de luz elétrica e água próximos ao ponto. É um investimento alto, pode ser feito em locais pontuais da plantação, reduzindo assim o investimento.”

O produtor precisa considerar, portanto, onde as geadas costumam ocorrer com maior frequência e se esses locais dispõem da infraestrutura necessária para manter os aspersores funcionando durante as horas críticas.

Há situações em que a aspersão não é indicada?

Na experiência da Casa Marques Pereira, Felipe afirma não ter identificado contraindicação para o método utilizado no vinhedo e considera a aspersão uma forma eficaz de prevenir danos causados pela geada.

Ele também cita outra prática conhecida entre produtores: acender fogueiras no vinhedo. Na avaliação do vinhateiro, o método tem alcance limitado e envolve riscos.

“Alguns produtores espelharam-se em práticas de acender fogueiras no vinhedo utilizadas na Europa, porém são pouco eficazes, as fogueiras não conseguem emitir energia suficiente para quebrar uma massa gigantesca de ar frio, pode mitigar mais pontualmente, mas é um método pouco eficaz e perigoso.”

No caso da Casa Marques Pereira, a escolha das áreas protegidas pela aspersão parte principalmente do histórico de geadas e das características de cada ponto do vinhedo. Água e energia disponíveis nas proximidades também entram nessa avaliação.

A experiência em Monte Belo do Sul mostra que a proteção pode ser concentrada nos locais de maior recorrência de geadas, enquanto outras áreas recebem medidas complementares quando há previsão de frio mais intenso.