Durante 2026, a Agrishow Digital está fazendo uma série de entrevistas especiais em celebração ao Ano Internacional da Mulher Agricultora. A iniciativa destaca mulheres que, com trabalho, resiliência e visão, vêm transformando o agronegócio brasileiro.
Nesta edição, conversamos com Andrea Fellet, produtora rural e sócia da Lagoa Bonita Sementes, empresa fundada há 25 anos no interior de São Paulo. Engenheira agrônoma, ela construiu uma trajetória que começou fora da fazenda e retornou ao campo por uma decisão estratégica e familiar.
Cofundadora da sementeira, ela consolidou sua carreira ao unir conhecimento técnico, gestão e visão de longo prazo. Para Andrea, o futuro do agro passa, necessariamente, pela complementaridade entre homens e mulheres.
Atualmente, sua atuação está concentrada na gestão, governança e desenvolvimento de pessoas, com menos foco na operação direta no campo.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista. Boa leitura!
Como surgiu sua relação com o campo?
Eu sou formada em agronomia pela Unesp, mas, quando me formei, não quis ir direto para a fazenda. Tinha receio de ser vista como “filha do dono” e não como profissional. Fiz especialização e trabalhei dois anos em uma multinacional. Até que um dia meu pai me ligou e disse: “pede a conta e vamos montar uma sementeira”.
Essa decisão mudou a minha vida e a de muita gente ao nosso redor. Começamos do zero, eu, meu pai e minha irmã. Há 25 anos fundamos a Lagoa Bonita Sementes e seguimos até hoje, vivendo os desafios e as conquistas de um negócio familiar no agro, com o tempero de sermos mulheres.
Como é o seu dia a dia no campo?
Meu trabalho não é exatamente no campo, na operação agrícola. Eu atuo na gestão. Sempre acreditei que administração é fundamental para qualquer negócio, e ao longo do tempo me especializei nisso.
Hoje, moro a cerca de 300 km da fazenda e estou semanalmente lá. Formamos um time muito qualificado, com valores alinhados aos nossos, e meu papel é cuidar do negócio como um todo: das pessoas, da estratégia, da governança.
A gestão, para mim, é essencial principalmente em momentos de crise. Eficiência operacional é importante, mas não suficiente. É a governança que garante a longevidade do negócio, do patrimônio e das relações familiares.
O que diferencia a produção de sementes de outras produções?
Semente é tecnologia. Desde o melhoramento genético até o posicionamento no campo, tudo envolve inovação.
Além disso, a semente é o ponto de partida de toda a lavoura. Uma semente de alta qualidade reduz risco, aumenta produtividade e impacta diretamente o resultado do produtor.
Quando a lavoura vai bem, isso gera impacto econômico, social e até emocional. É sustentabilidade na prática.

Quais tecnologias são essenciais hoje para garantir qualidade?
O cenário mudou muito em 25 anos. O clima está mais instável, o melhoramento genético evoluiu e os desafios aumentaram.
Hoje trabalhamos com câmaras refrigeradas, sistemas logísticos eficientes, controle rigoroso de qualidade, tratamento industrial de sementes e parcerias com obtentores de ponta.
Tudo isso exige investimento em infraestrutura, processos e, principalmente, pessoas qualificadas. Porque não basta ter qualidade, precisa ser alta qualidade.
Quais foram os principais desafios da sua trajetória, especialmente como mulher?
Dentro de casa, tive muito apoio. Meu pai sempre confiou e desenvolveu as filhas. Isso fez toda a diferença.
Mas fora, enfrentei situações de preconceito desde a época de estágio. Ao longo da carreira, fui testada várias vezes. Ainda existe um viés estrutural.
Minha forma de lidar sempre foi manter postura profissional e deixar os resultados falarem. Construir uma carreira leva tempo, disciplina e muito trabalho.
Por outro lado, ser mulher também traz vantagens: empatia, escuta, colaboração. Essas habilidades melhoram o ambiente, o engajamento e impactam diretamente os resultados.
Quais são os maiores desafios do setor de sementes hoje?
Clima, crédito escasso, desorganização de mercado e um problema sério: o uso de sementes piratas e não regulamentadas.
Muitos produtores ainda pensam no curto prazo e acabam aumentando o risco da lavoura. Isso impacta a produtividade e prejudica o investimento em pesquisa e desenvolvimento.
Sem proteção de cultivares, a inovação perde força e isso compromete o futuro do setor.

O que o produtor deve observar ao escolher sementes?
A pergunta principal é: qual é a qualidade da semente no momento do plantio?
Para responder, é preciso entender as análises, a metodologia e a data dos testes. Isso faz toda a diferença.
Além disso, é fundamental comprar de fornecedores confiáveis, que tenham compromisso real com qualidade, não só discurso.
No Ano Internacional da Mulher Agricultora, quais causas precisam avançar?
A principal é entender que homens e mulheres precisam trabalhar juntos. As competências são complementares.
Isso impacta três pilares: o negócio, a família e a forma como o agro se comunica com a sociedade.
No campo, estamos vivendo uma transformação. O modelo antigo não funciona mais. O mundo mudou, tecnologia, clima, comportamento. Precisamos de novas formas de liderar.
E a mulher traz essa capacidade de adaptação, cuidado e conexão. Isso melhora o ambiente interno, fortalece os negócios e ajuda a construir pontes com a sociedade.

Que conselho você daria para mulheres que querem atuar no agro?
Primeiro: autoconhecimento. Saber quem você é, seus valores e objetivos.
Segundo: estudar e se desenvolver, tanto tecnicamente quanto em habilidades comportamentais. Ser estratégica.
Terceiro: buscar apoio de mentores, profissionais externos e grupos de mulheres. Isso faz diferença.
E, acima de tudo, persistir. A carreira é construída com o tempo.
A vida acontece na ação. E o agro brasileiro precisa das mulheres.
Esta reportagem faz parte da série especial do Ano Internacional da Mulher Agricultora da Agrishow Digital. Conheça mais mulheres que estão mudando o agro!