O Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro, chega em 2026 em um momento de produção elevada no Brasil e de preparação do setor para novas exigências no comércio internacional.

Segundo o 3º Levantamento da Safra de Café 2026, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira está estimada em 67,6 milhões de sacas de café beneficiado, alta de 19,6% em relação a 2025. Se confirmado, será o maior volume da série histórica da Companhia.

Ao lado da produção, sustentabilidade e rastreabilidade seguem presentes nas relações comerciais do setor. Um dos motivos é o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que inclui o café entre as commodities abrangidas.

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) vem trabalhando para auxiliar o setor na preparação para as regras, inclusive por meio de ferramentas de monitoramento socioambiental.

Veja quais são as exigências e como a cafeicultura brasileira vem se preparando.

Novo regulamento da EUDR: quais são os impactos para o café brasileiro?

O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, estabelece regras para produtos comercializados no mercado europeu associados ao desmatamento e à degradação florestal.

A regulamentação abrange commodities como soja, cacau, óleo de palma, carne bovina, borracha, madeira e café, além de produtos derivados especificados pela União Europeia.

O calendário de aplicação da norma mudou desde a publicação original deste artigo. Segundo a Comissão Europeia, a EUDR começa a ser aplicada em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores e em 30 de junho de 2027 para a maioria dos micro e pequenos operadores.

Entre os requisitos previstos pela regulamentação estão a comprovação de que os produtos não foram produzidos em áreas submetidas a desmatamento após 31 de dezembro de 2020, o atendimento à legislação pertinente do país de produção e o fornecimento das informações necessárias ao processo de devida diligência, incluindo dados de geolocalização das áreas de produção.

Em nota enviada à Globo Rural, quando avançavam as discussões sobre a regulamentação, o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, destacou os desafios para o setor:

“Embora existam muitos desafios com o novo regulamento europeu, o Brasil vem empenhando esforços, por meio do comércio exportador, para atender a ele e à demanda do bloco europeu, garantindo o abastecimento de nossos importadores”.

Com a aproximação da aplicação das regras, a rastreabilidade e a organização das informações relacionadas à origem do café ganham peso para os agentes da cadeia que abastecem o mercado europeu.

Como a cafeicultura brasileira está se preparando para a EUDR?

Associações, empresas e demais agentes da cadeia vêm trabalhando na adequação dos processos às exigências europeias.

Entre as frentes estão sistemas de rastreabilidade, georreferenciamento das áreas produtoras, monitoramento de informações socioambientais e organização de dados que permitam verificar a origem e a conformidade dos cafés comercializados.

Um exemplo é a Plataforma de Monitoramento Socioambiental Cafés do Brasil, desenvolvida pelo Cecafé em parceria com a Serasa Experian. A ferramenta utiliza dados públicos e oficiais para verificar aspectos socioambientais relacionados às propriedades e à origem do café.

Em abril de 2026, o Cecafé informou que a plataforma contava com 55 membros exportadores, responsáveis por 99% dos embarques brasileiros de café para a União Europeia.

A plataforma permite realizar verificações relacionadas ao cumprimento do Código Florestal, regularidade fundiária, ausência de desmatamento e outros critérios socioambientais. O sistema também possibilita o rastreamento do café até o polígono de produção da propriedade e a geração de documentação para comprovar a conformidade socioambiental dos embarques.

Em agosto de 2026, o Cecafé voltou a informar a ampliação dos mecanismos de rastreabilidade e monitoramento socioambiental, com o uso de informações como notas fiscais, dados georreferenciados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), embargos ambientais, áreas protegidas e inspeções trabalhistas.

Boas práticas para a sustentabilidade na cafeicultura

A preparação para as exigências do mercado internacional passa também pelas práticas adotadas dentro da propriedade.

Entre as ações relacionadas à sustentabilidade na cafeicultura estão:

Cultivo sombreado: em sistemas adequados, a presença de árvores pode contribuir para a proteção do solo, conservação da água e biodiversidade.

Rotação e diversificação de culturas: podem auxiliar na conservação do solo e no manejo de pragas e doenças, conforme as características da propriedade e do sistema de produção.

Uso racional de defensivos agrícolas: práticas como o manejo integrado de pragas ajudam o produtor a avaliar a necessidade de intervenção e a realizar o uso correto dos produtos.

Manejo da água: sistemas de irrigação corretamente dimensionados e o acompanhamento do consumo ajudam a reduzir desperdícios.

Rastreabilidade: manter registros sobre a produção e a origem dos grãos facilita o acompanhamento do café ao longo da cadeia e o fornecimento de informações aos compradores.

Certificações: programas como Rainforest Alliance e Fairtrade possuem critérios próprios relacionados aos aspectos ambientais, sociais e econômicos da produção.

A organização das informações da propriedade também passa a ter peso maior para produtores inseridos em cadeias que abastecem mercados com exigências de rastreabilidade. Dependendo da relação comercial, dados sobre a área produtora podem ser solicitados por cooperativas, exportadores ou compradores responsáveis pelos processos de devida diligência.

Dia Internacional do Café reforça discussão sobre origem e sustentabilidade

Celebrado em 1º de outubro, o Dia Internacional do Café também abre espaço para discutir as mudanças que chegam ao campo junto com as novas demandas dos mercados consumidores.

Em 2026, a data encontra o Brasil diante de uma safra estimada pela Conab como a maior de sua série histórica e, ao mesmo tempo, próximo do início da aplicação das novas regras europeias para grandes e médios operadores.

Para o produtor, rastreabilidade e sustentabilidade aparecem em questões bastante concretas: saber de onde vem o café, manter as informações da propriedade organizadas, registrar práticas adotadas na produção e entender quais dados são solicitados pelos demais agentes da cadeia.

A preparação para essas exigências ajuda a manter o café brasileiro apto a atender mercados que pedem comprovação da origem e das condições em que o produto foi cultivado.