Após mais de duas décadas de negociações, o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul inaugura um novo capítulo na relação comercial entre os dois blocos e reposiciona o agronegócio brasileiro no tabuleiro global. Além do impulso imediato às exportações, o pacto cria uma plataforma estratégica de longo prazo, com impactos sobre competitividade, investimentos, agregação de valor e exigências socioambientais.

Juntos, União Europeia e Mercosul formam a maior área de livre comércio do mundo, reunindo um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e quase 20% do PIB global. Para o Brasil, o acordo ganha relevância adicional por ampliar o acesso ao segundo principal destino das exportações do agro nacional e reduzir a dependência de mercados concentrados, como a China.

Abertura gradual e reorganização dos fluxos comerciais

O coração do acordo está na eliminação progressiva das tarifas. O Mercosul se compromete a zerar tarifas sobre mais de 90% dos produtos europeus ao longo de 15 anos, enquanto a União Europeia fará o mesmo para cerca de 95% dos bens originários do bloco sul-americano em até 12 anos. O desenho em fases busca dar previsibilidade e tempo de adaptação para setores sensíveis de ambos os lados.

No caso do agronegócio, a abertura ocorre de forma seletiva. Produtos considerados sensíveis na União Europeia — como carne bovina, carne de frango, açúcar, arroz e etanol — estarão sujeitos a cotas tarifárias. Dentro desses volumes, as tarifas serão reduzidas; fora deles, permanecem as alíquotas tradicionais. Ainda assim, o acordo amplia o acesso em relação ao cenário anterior e cria oportunidades incrementais para o Brasil.

Já produtos como café, suco de laranja e frutas frescas tendem a se beneficiar de forma mais direta da eliminação tarifária. Em muitos casos, o impacto não virá de um aumento expressivo de market share — já elevado —, mas da redução de preços ao consumidor europeu, com estímulo ao consumo e à demanda.

Imagem: Reprodução/Youtube Mercosul

Setores com potencial de ganho estrutural

No café, por exemplo, a redução gradual das tarifas para cafés solúveis, torrados e moídos fortalece a competitividade brasileira frente a concorrentes que já contam com acesso preferencial ao mercado europeu. No segmento de frutas, o acordo é ainda mais favorável: não há limites quantitativos, e as tarifas serão eliminadas conforme cronogramas específicos, abrindo espaço para diversificação da pauta exportadora.

No caso das proteínas animais, os ganhos são mais calibrados. Para a carne de frango, o acordo adiciona um novo contingente tarifário, complementar aos mecanismos já existentes, ampliando o potencial de acesso sem alterar o arcabouço atual. Para a carne bovina, há redução de tarifas e tratamento diferenciado para cortes premium, o que favorece produtos de maior valor agregado.

Salvaguardas e limites à expansão

Um ponto central do acordo é a cláusula de salvaguarda agrícola. Ela permite que a União Europeia reintroduza tarifas temporariamente caso as importações do Mercosul ultrapassem determinados volumes ou provoquem quedas relevantes nos preços internos. O mecanismo atende a pressões políticas de países com forte base agrícola e funciona, na prática, como um freio à expansão abrupta das exportações em setores sensíveis.

Para o Brasil, isso significa que os ganhos de acesso ao mercado europeu vêm acompanhados de maior complexidade regulatória e menor previsibilidade em alguns segmentos. Estratégias baseadas apenas em volume tendem a ser menos eficazes do que aquelas focadas em diferenciação, qualidade e valor agregado.

Mais do que comércio: investimento, padrão regulatório e sustentabilidade

O impacto mais relevante do acordo pode não estar no curto prazo, mas no médio e longo prazo. A previsibilidade tarifária, a ampliação gradual de cotas e a eliminação de barreiras criam um ambiente mais favorável para decisões de investimento em processamento, logística e industrialização no agronegócio brasileiro.

Além disso, o aprofundamento da integração com a União Europeia tende a acelerar a convergência de normas sanitárias, técnicas e ambientais. Esse movimento pode reduzir barreiras não tarifárias no futuro, mas também impõe desafios importantes, sobretudo em temas como rastreabilidade, combate ao desmatamento e padrões socioambientais.

A capacidade do Brasil de atender a essas exigências será determinante para capturar os benefícios do acordo. Mais do que exportar mais, o desafio passa a ser exportar melhor: com maior valor agregado, menor pegada ambiental e alinhamento às expectativas de mercados exigentes.

Um acordo de longo fôlego

Em síntese, o acordo União Europeia–Mercosul não representa uma ruptura imediata nos fluxos do agronegócio, mas estabelece as bases para uma transformação gradual e estrutural. Ele reforça a importância da diversificação de mercados, estimula investimentos e reposiciona o Brasil como fornecedor estratégico em um contexto global cada vez mais atento à sustentabilidade e à segurança alimentar.

Os resultados concretos dependerão da capacidade de produtores, empresas e formuladores de políticas públicas de transformar acesso preferencial em competitividade duradoura.

Fonte: Conteúdo elaborado com base no relatório Radar Agro – Acordo União Europeia e Mercosul, da Consultoria Agro do Itaú BBA.