Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, identificou diferenças na produção de folhas e colmos entre dez materiais de braquiária (Urochloa). Os resultados mostram que cultivares com maior produção de massa seca nem sempre apresentam a maior proporção de folhas, característica associada ao aproveitamento da forragem pelos animais.

Realizado em 2025, na região do Campo das Vertentes, o estudo comparou nove híbridos de braquiária com a cultivar Marandu, amplamente utilizada nas pastagens brasileiras. A avaliação considerou a produção de matéria seca, a composição da forragem e o comportamento das plantas durante os períodos das águas e da seca.

Entre os materiais analisados, o híbrido Mavuno apresentou a maior produção numérica anual de folhas, com 17,31 toneladas de matéria seca por hectare. Já o Cayman registrou a maior produção total de forragem, enquanto a Cayana alcançou a maior relação folha/colmo.

As diferenças reforçam a necessidade de considerar a composição da forragem na escolha de cultivares para formação de pastagens.

Pesquisa compara produção de folhas e colmos em dez braquiárias

O experimento foi desenvolvido no Campus Tancredo de Almeida Neves (CTAN), da UFSJ, com avaliações realizadas ao longo de 2025.

Na análise anual, o Cayman registrou 23,28 toneladas de matéria seca por hectare, a maior produção numérica entre os materiais avaliados. Desse total, 15,50 toneladas corresponderam à massa seca de folhas, com relação folha/colmo de 2,53.

O Mavuno apresentou produção total de 22,15 toneladas por hectare, sendo 17,31 toneladas de folhas e 3,69 toneladas de colmos. Sua relação folha/colmo foi de 4,68.

O Sabiá também se destacou pela composição da forragem, com 16,18 toneladas de folhas por hectare e relação folha/colmo de 4,83.

Já a Cayana registrou a maior relação folha/colmo do experimento, de 5,54, com menor produção de colmos em comparação aos demais materiais.

Confira os resultados anuais de alguns dos materiais avaliados:

CultivarMassa seca total (t/ha)Massa seca de folhas (t/ha)Relação folha/colmo
Cayman23,2815,502,53
Camello22,3712,481,71
Mavuno22,1517,314,68
Marandu21,3014,422,82
Sabiá20,8316,184,83
Mulato II18,8514,774,87
Cayana18,2714,385,54

Fonte: Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Dados referentes a 2025, arredondados para duas casas decimais. A tabela reúne sete dos dez materiais estudados.

Na comparação com o Marandu, utilizado como testemunha, o Mavuno apresentou produção anual de folhas aproximadamente 20% superior, em termos numéricos. Essa diferença não foi estatisticamente significativa.

A relação folha/colmo, entretanto, foi 66,1% superior à do Marandu, com diferença estatisticamente significativa. A produção de colmos do Mavuno também foi 28,4% menor.

Os resultados indicam diferenças na composição dos materiais, embora não permitam estabelecer uma única cultivar como a melhor para todas as condições de produção.

Por que a relação folha/colmo importa na formação de pastagens?

A relação folha/colmo expressa a proporção entre folhas e colmos presentes na forragem. De maneira geral, as folhas apresentam maior valor nutricional e digestibilidade, características associadas ao consumo e ao aproveitamento do pasto pelos animais.

Por esse motivo, a produção total de matéria seca, isoladamente, não representa todas as características da forragem disponível.

Uma cultivar pode apresentar elevada produção de biomassa, mas ter maior participação de colmos. Outra pode produzir menor quantidade total e apresentar proporção superior de folhas.

O estudo da UFSJ identificou essas diferenças entre os materiais avaliados. Entretanto, a pesquisa não mediu diretamente o valor nutritivo, a digestibilidade ou o consumo da forragem pelos bovinos.

O trabalho concentrou-se na produtividade e na composição morfológica das plantas, permitindo comparar o desempenho agronômico dos materiais nas condições experimentais.

Híbridos apresentaram diferenças nas águas e na seca

O comportamento das braquiárias também variou conforme o período do ano. Durante a estação das águas, o Cayman apresentou a maior produção numérica de massa seca total, com 17,19 toneladas por hectare. O Mavuno veio em seguida, com 16,94 toneladas. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os materiais para essa variável no período.

Na produção de folhas, o Mavuno registrou 13,60 toneladas por hectare, seguido pelo Sabiá, com 12,68 toneladas, e pelo Cayman, com 12,24 toneladas.

A relação folha/colmo também apresentou variações. A Cayana alcançou 5,58, o Sabiá registrou 4,95, o Mulato II chegou a 4,73 e o Mavuno apresentou 4,67.

Segundo Lucas Miguel Martins, autor da pesquisa, a composição da forragem foi um dos principais aspectos observados durante o experimento.

“Em relação à proporção entre folhas e colmos, o desempenho foi muito positivo, com alta produção de folhas, baixa produção de colmos e pouquíssima produção de inflorescências e material morto”, destaca, referindo-se ao Mavuno.

Na estação seca, entre junho e outubro, os pesquisadores também encontraram diferenças. O Camello apresentou a maior produção numérica de massa seca total, com 6,64 toneladas por hectare. Entretanto, registrou relação folha/colmo de 1,44, a menor entre os materiais avaliados nesse período.

O Mavuno produziu 5,21 toneladas de matéria seca por hectare, sendo 3,72 toneladas de folhas. O Sabiá registrou 3,50 toneladas de folhas, enquanto a Cayana apresentou 3,20 toneladas.

As diferenças numéricas observadas na relação folha/colmo durante a seca não foram suficientes para separar estatisticamente as cultivares no teste de comparação de médias, devido à variabilidade dos resultados.

Também é necessário considerar que, nesse período, as plantas foram mantidas em crescimento livre até o corte de avaliação. Os resultados não representam, necessariamente, a oferta de forragem em um sistema de pastejo contínuo ou rotacionado.

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Resultados ajudam a avaliar a escolha de cultivares

Para os pesquisadores, a comparação entre híbridos pode contribuir para a escolha de materiais destinados à formação e à diversificação das pastagens.

A professora Janaina Azevedo Martuscello Vieira da Cunha, orientadora do estudo, ressalta que as condições da região precisam ser consideradas na interpretação dos resultados.

“O Campo das Vertentes se destaca pela produção de leite, com inúmeras propriedades que utilizam sistemas de produção a pasto. Encontrar híbridos mais adaptados e produtivos às nossas condições é importante para diversificar as pastagens, já que o capim Marandu é predominante na região. É importante destacar, porém, que os resultados são indicativos para as condições locais e que estudos dessa natureza devem ser realizados em outras regiões do país”, explica.

A pesquisa aponta o Mavuno e o Sabiá entre os materiais que apresentaram bom equilíbrio entre produtividade e composição morfológica da forragem. Cayana e Mulato II também registraram relações folha/colmo elevadas, apesar da menor produção total em determinadas avaliações.

Para o pecuarista, esses indicadores podem ajudar na comparação entre cultivares, mas precisam ser analisados juntamente com as características da propriedade.

A fertilidade do solo, a disponibilidade de água, o manejo e as exigências nutricionais do rebanho interferem na produção e na utilização das pastagens.

A escolha da cultivar também deve considerar o planejamento alimentar do rebanho, especialmente nos meses de menor chuva. Para reduzir as perdas na pecuária durante a seca, o produtor pode adotar práticas como o diferimento de pasto, que permite reservar áreas de pastagem para utilização nos períodos de menor crescimento das forrageiras.

Pesquisa aponta necessidade de avaliações em outras regiões

O estudo foi desenvolvido como trabalho de conclusão do curso de Zootecnia de Lucas Miguel Martins, sob orientação da professora Janaina Azevedo Martuscello Vieira da Cunha.

As avaliações ocorreram em uma única região, utilizando parcelas experimentais e cortes de forragem. Não foram realizados testes de consumo, digestibilidade ou desempenho animal.

Por isso, os resultados não permitem concluir que determinado híbrido proporcionará maior ganho de peso ou produção de leite.

A pesquisa oferece informações para comparar a produção de folhas e colmos entre cultivares e indica a necessidade de novas avaliações em diferentes regiões e condições de manejo.

O trabalho, intitulado Avaliação de híbridos de Urochloa para o Campo das Vertentes, pode ser consultado na íntegra no repositório da UFSJ.