A presença feminina no campo brasileiro cresce de forma consistente. Segundo o último Censo Agropecuário, de 2017, as mulheres já somavam 6,1 milhões de trabalhadoras, reforçando seu papel na produção e na gestão das propriedades. É nesse cenário que surge o Raízes no Agro, projeto criado por mulheres que transformaram vivências de superação em uma rede de apoio a famílias rurais. 

Liderado por Amanda Chagas, Cristiane Alves, Laize Magrinini, Leriane Barrachini e Márcia Maria Benês Delai, o grupo reúne produtoras e profissionais do agronegócio de estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo para discutir, especialmente, a sucessão familiar sob a perspectiva feminina. 

Conheça as mulheres que fazem o Raízes no Agro acontecer.

“O projeto nasceu das nossas próprias histórias, dos desafios enfrentados nas propriedades, no mercado e, principalmente, dentro das famílias durante a sucessão”, afirma Cristiane Alves. 

Hoje, o Raízes no Agro mantém um espaço gratuito de acolhimento, troca de experiências e orientação prática para quem vive o processo de transição na gestão rural. 

Como surgiu o Raízes no Agro 

A ideia começou a tomar forma durante a participação das fundadoras na Academia de Liderança para Mulheres do Agronegócio (ALMA), programa voltado exclusivamente à formação de lideranças femininas no setor. 

Durante os encontros, os relatos se repetiam: dificuldade de posicionamento, falta de reconhecimento e conflitos ligados à sucessão. “Ali entendemos que não existe liderança feminina no agro sem falar de sucessão”, explica Cristiane. “E sucessão não é só técnica ou financeira. Ela envolve preparo, gestão, diálogo familiar e reconhecimento.” 

O principal desafio: provar competência 

Apesar dos avanços no setor, a liderança feminina no campo ainda enfrenta barreiras culturais importantes. Segundo Cristiane, a necessidade constante de provar competência é uma das principais dificuldades. 

“Muitas vezes somos interrompidas, questionadas ou observadas com desconfiança. É como se precisássemos demonstrar várias vezes mais nossa capacidade”, relata. “Mesmo altamente capacitadas, ainda enfrentamos ambientes em que a liderança feminina não é vista como algo natural.” 

Essa realidade dialoga com dados nacionais. Levantamento do Insper aponta que apenas cerca de 17% das empresas brasileiras possuem presidência ocupada por mulheres. Ao mesmo tempo, estudos citados pela Forbes indicam que mulheres líderes apresentam altos níveis de eficácia em competências de liderança e gestão criativa. 

No campo, essa equação também se repete: há capacidade, preparo e resultado, mas ainda existe espaço para ampliar a participação feminina nas decisões estratégicas. 

Sucessão é técnica, mas também é emocional 

Um dos principais diferenciais do Raízes no Agro é reconhecer que a sucessão vai além da organização jurídica e patrimonial. Trata-se de um processo que mexe com identidade, pertencimento e história familiar. 

“A sucessão é emocional. Ela envolve o futuro da propriedade, mas também envolve o papel de cada pessoa dentro da família”, destaca Cristiane. “Quando uma mulher encontra outra que já passou por isso, ela se sente mais forte para enfrentar a própria realidade.”

Segundo ela, muitas transformações começam no fortalecimento interno. “Recebemos relatos de famílias que passaram a dialogar mais, a organizar a gestão e a buscar regularização das propriedades. Às vezes, tudo começa quando a mulher recupera a confiança em si mesma.” 

Uma história que simboliza o movimento 

Entre os casos que mais marcaram o grupo está o de uma das cofundadoras que, após perder o marido de forma inesperada, precisou assumir sozinha a gestão da fazenda, enfrentando, ao mesmo tempo, a descrença do próprio pai. 

“A cultura em que ele foi criado era extremamente machista. Durante anos, ela precisou provar, diariamente, que era capaz de liderar”, conta Cristiane. “Cada decisão era colocada à prova. Mas ela continuou estudando, trabalhando e conduzindo tudo com responsabilidade.” 

Com o tempo, o reconhecimento veio – inclusive do pai, que passou a afirmar para a família que ela era a pessoa preparada para dar continuidade ao legado. “Histórias como essa mostram que a sucessão é construída com coragem todos os dias”, afirma. 

Formação das novas gerações 

O próximo passo do Raízes no Agro é ampliar a atuação junto às novas gerações do meio rural, especialmente jovens e crianças. A proposta é desenvolver conteúdos educativos e canais digitais que levem informação sobre sucessão, gestão e liderança desde cedo. 

“A sucessão começa com pertencimento e preparo emocional. Queremos formar líderes preparados para garantir continuidade, inovação e sustentabilidade no agronegócio brasileiro”, reforça Cristiane. “Principalmente mulheres que, muitas vezes, não tiveram experiência prática direta, mas precisarão assumir a gestão.” 

Cris Alves durante o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio (CNMA).

Um movimento que cresce no campo 

O Raízes no Agro representa um movimento consistente de mulheres que estão assumindo o protagonismo na condução das propriedades rurais. 

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a iniciativa reforça que liderança feminina no agro não é tendência, é realidade em construção. E, como resume Cristiane: 

“Liderança não exige que a mulher deixe sua feminilidade de lado. Exige posicionamento, competência e coragem para ocupar o espaço que também é seu por direito.” 

Como participar 

O acesso ao Raízes no Agro é gratuito e pode ser feito pelas redes sociais, por meio do perfil @sucessao.agro25, além do e-mail [email protected]