Em um cenário de margens cada vez mais pressionadas, custos elevados e exigências crescentes do mercado, a pecuária brasileira vem passando por uma transformação silenciosa, porém decisiva. O bem-estar animal deixou de ser apenas um conceito associado à ética ou à imagem institucional e passou a ocupar posição estratégica na gestão das propriedades. 

Hoje, investir em boas práticas de manejo, sanidade e ambiência significa reduzir perdas produtivas, aumentar a rentabilidade e garantir acesso a mercados mais exigentes, no Brasil e no exterior.

Mais do que atender protocolos, o bem-estar animal está diretamente ligado à eficiência do sistema produtivo. Animais menos estressados produzem mais, adoecem menos, apresentam melhor desempenho reprodutivo e entregam produtos de maior qualidade. E isso tem reflexo direto no caixa do produtor.

Ao longo deste artigo, você vai entender como o bem-estar animal se conecta diretamente à redução de perdas, ao aumento da produtividade e à competitividade da pecuária brasileira, com exemplos práticos, dados técnicos e a visão de especialistas que vivem essa realidade no campo.

O que é bem-estar animal e por que ele se tornou estratégico

O conceito de bem-estar animal é definido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como o estado físico e mental de um animal em relação às condições em que vive e é manejado. No Brasil, o Ministério da Agricultura adota diretrizes alinhadas a esse conceito, estabelecendo normas para criação, transporte e abate.

Na prática, isso significa garantir condições adequadas de alimentação, saúde, conforto, manejo e possibilidade de expressar comportamentos naturais. Para Roulber Silva, gerente técnico e de marketing da unidade de Grandes Animais da Boehringer Ingelheim, o bem-estar é um dos pilares centrais da produtividade.

“Ao promover a saúde e o conforto dos animais, garantimos não apenas produtos de maior qualidade e menores perdas, mas também toda a integridade ética da cadeia, reforçando o compromisso com o tratamento digno dos seres vivos.”

Essa visão tem ganhado força porque conecta bem-estar animal a resultados mensuráveis, algo cada vez mais valorizado pelos produtores.

Redução de perdas começa pelo manejo

O impacto do estresse animal no desempenho produtivo é amplamente documentado. Situações de manejo inadequado elevam os níveis de cortisol, comprometem o sistema imunológico e reduzem a eficiência alimentar. O resultado aparece em menor ganho de peso, queda na produção de leite, problemas reprodutivos e aumento de condenações de carcaça.

Segundo Adauto Franco Filho, médico-veterinário e consultor sanitário e de melhoramento genético do Nelore Cometa, o bem-estar começa como uma postura dentro da fazenda.

“Quando o manejo é realizado de forma adequada, os animais permanecem mais tranquilos e os colaboradores trabalham com mais segurança, o que contribui para a redução de acidentes e de perdas no dia a dia da propriedade.”

Ele destaca que animais menos reativos apresentam ganhos claros de produtividade.

“Há estudos que comprovam que animais mais reativos tendem a apresentar taxas de prenhez de 7 a 8 pontos percentuais inferiores quando comparados a animais menos reativos.”

Ou seja, o custo do manejo inadequado aparece tanto na produção quanto na reprodução, afetando toda a cadeia.

Boas práticas de manejo: pequenas mudanças, grandes resultados

Entre as boas práticas agropecuárias mais efetivas está a adoção de manejo humanizado. A substituição de instrumentos agressivos por recursos simples, como bandeiras, reduz significativamente as lesões de carcaça e estresse.

“O uso de bastões e choques provoca estresse nos animais, elevando os níveis de cortisol e aumentando o risco de lesões”, explica Adauto Franco Filho. “Um manejo calmo e bem orientado reduz respostas negativas e resulta em índices mais elevados de produtividade.”

Além do manejo no curral, outros pontos são decisivos:

  • instalações bem ventiladas e com espaço adequado;
  • acesso contínuo à água de qualidade;
  • nutrição balanceada para cada categoria animal;
  • protocolos sanitários bem estruturados.

Para Roulber Silva, a integração dessas práticas é o que gera retorno econômico consistente.

“O maior retorno vem da integração entre sanidade, nutrição e manejo reprodutivo eficiente. Essas ações devem ser estimuladas em propriedades de todos os portes.”

Tecnologia torna o bem-estar mensurável

Um dos avanços mais relevantes dos últimos anos é a capacidade de medir e auditar o bem-estar animal. Sensores, automação e ferramentas digitais permitem monitorar comportamento, consumo, ambiente e saúde em tempo real.

“Hoje, tecnologias baseadas em inteligência artificial, machine learning e big data analisam o comportamento dos animais e ajudam a prevenir doenças nos primeiros sinais”, explica Roulber Silva. “Sensores ambientais medem temperatura, umidade e qualidade do ar, fornecendo dados estratégicos para a tomada de decisão.”

No confinamento, por exemplo, leitores de consumo permitem identificar rapidamente falhas de manejo.

“Quando o manejo é mal elaborado, os animais consomem menos água e alimento, o que leva à queda de desempenho e aumento de doenças metabólicas”, complementa Adauto Franco Filho.

Essas tecnologias transformam o bem-estar em indicador de gestão, não apenas em discurso.

Sanidade e bem-estar caminham juntos

A sanidade animal é outro pilar central do bem-estar. Animais saudáveis apresentam menor desconforto, menor mortalidade e melhor resposta produtiva. No Brasil, as exigências sanitárias já fazem parte das normas legais, especialmente em transporte e abate.

“Quando a sanidade é bem conduzida, garante-se uma condição adequada de saúde e, consequentemente, um nível satisfatório de bem-estar animal”, afirma Adauto Franco Filho.

Iniciativas como o Selo de Biosseguridade (CBS), desenvolvido pela Boehringer Ingelheim em parceria com a Embrapa Gado de Leite, são exemplos de como a sanidade se conecta à sustentabilidade e à qualidade do produto final.

Competitividade e acesso a mercados internacionais

O bem-estar animal deixou de ser diferencial e passou a ser requisito para acessar mercados premium. A União Europeia, por exemplo, impõe normas rigorosas relacionadas a manejo, transporte e abate, baseadas nas diretrizes da OMSA.

“As práticas de bem-estar e sustentabilidade não são apenas recomendações, mas ações mandatórias para o comércio entre países”, destaca Roulber Silva.

Além de atender exigências legais, certificações de bem-estar funcionam como ferramentas de valorização da produção, abrindo portas para novos mercados e melhores negociações.

Resultados práticos no campo: quando o bem-estar vira desempenho

Na prática, os efeitos da adoção consistente de boas práticas de bem-estar animal aparecem rapidamente no dia a dia da fazenda. No Grupo Nelore Cometa, referência em pecuária de corte no país, o tema deixou de ser tratado como conceito e passou a integrar a estratégia produtiva, com impactos mensuráveis em diferentes etapas do sistema.

Segundo Francis Maris Cruz, líder do grupo, os primeiros ganhos percebidos não estão apenas nos números zootécnicos, mas também na rotina operacional da propriedade.

“Entre os resultados indiretos estão a melhoria do ambiente de trabalho e a redução dos índices de acidentes envolvendo colaboradores e animais.”

Esse ponto é especialmente relevante em sistemas intensivos, onde falhas de manejo costumam gerar retrabalho, afastamento de funcionários e perdas operacionais silenciosas. Animais mais tranquilos, com menor nível de estresse, respondem melhor às rotinas de manejo, facilitam o trabalho das equipes e reduzem riscos tanto para pessoas quanto para o rebanho.

Os efeitos diretos, no entanto, aparecem de forma clara nos indicadores produtivos. De acordo com o pecuarista, a adoção integrada de práticas de bem-estar impacta positivamente o desempenho animal em diferentes sistemas, seja em confinamento, TIP ou engorda a pasto.

“Observa-se maior ganho de peso, melhor rendimento de carcaça e melhores resultados operacionais, além de ganhos significativos nos índices reprodutivos.”

No contexto da reprodução, os reflexos são ainda mais sensíveis. Francis destaca que manejos inadequados, especialmente nas fases de maternidade e cria, geram impactos negativos que se espalham por toda a cadeia produtiva.

“O bem-estar animal impacta diretamente os índices de desmame. Quando esse cuidado falha, o efeito é sentido do nascimento até a terminação.”

Outro ponto central do caso é a resposta dos animais aos protocolos sanitários e nutricionais. Ambiência adequada, manejo calmo e menor estresse reduzem a liberação de cortisol, o que melhora a eficiência das vacinas, suplementos e dietas fornecidas ao rebanho. Na prática, isso significa melhor aproveitamento dos investimentos já realizados pelo produtor.

“Animais mantidos em ambiente adequado respondem melhor à sanidade e à nutrição, o que potencializa os resultados e reduz desperdícios”, explica.

A experiência do Grupo Nelore Cometa mostra que os melhores resultados surgem quando o bem-estar animal não é tratado de forma isolada, mas como parte de um sistema integrado de gestão.

“Quanto mais se trabalha de forma integrada fatores como ambiência, bem-estar, transporte, abate e manejo produtivo, maiores são os ganhos indiretos e diretos, resultando em maior retorno econômico e maior sustentabilidade do sistema.”

Mais do que atender exigências de mercado ou protocolos externos, o caso evidencia que o bem-estar animal funciona como alavanca de eficiência produtiva, capaz de reduzir perdas, melhorar indicadores zootécnicos e fortalecer a sustentabilidade econômica da pecuária no longo prazo.

Bem-estar animal como estratégia de futuro

Ao contrário do que muitos imaginam, investir em bem-estar animal não é custo extra, mas estratégia de gestão. Reduz perdas, melhora a eficiência, valoriza o produto e fortalece a imagem do produtor diante de consumidores, indústrias e mercados internacionais.

Como resume Roulber Silva: “Os produtores que adotam práticas de bem-estar animal não estão apenas atendendo a uma demanda global. Estão implementando um modelo de negócio mais eficiente, econômico e estratégico.”

Em um setor cada vez mais competitivo, o bem-estar animal se consolida como um dos pilares para a longevidade e a prosperidade da pecuária brasileira.

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