Nos últimos anos, o matcha deixou de ser apenas um ingrediente exótico das casas de chá japonesas para se tornar protagonista no mercado global de superfoods. Presente em cafeterias, confeitarias, bebidas prontas, suplementos e até cosméticos, o tradicional chá verde em pó ganhou espaço como símbolo de consumo saudável, rastreabilidade e sofisticação sensorial.
Mas o movimento vai além da tendência gastronômica. O crescimento da demanda global, a escassez de oferta japonesa e a valorização de produtos premium criam uma janela estratégica para países que desejam investir em agricultura de nicho, agregação de valor e exportação agrícola diferenciada.
E o Brasil pode entrar nessa conversa. Se você quer entender por que o matcha se transformou em oportunidade estratégica para o agro e como essa bebida milenar pode abrir espaço para uma nova frente de agricultura de alto valor agregado no Brasil, continue a leitura. A seguir, analisamos dados de mercado, comportamento do consumidor, desafios produtivos e o potencial real desse nicho para produtores atentos às tendências globais.
De tradição milenar ao boom global
O matcha tem origem na China, mas foi no Japão que a técnica de cultivo sombreado e moagem em pedra se consolidou como tradição ligada à cerimônia do chá. Diferentemente de outras infusões, no matcha a folha inteira da Camellia sinensis é consumida em pó, o que concentra compostos bioativos como catequinas e antioxidantes.
Hoje, o mercado global vive um momento de aceleração e, no Brasil, o avanço é ainda mais expressivo. Segundo levantamento da consultoria Mobility Foresights, o mercado brasileiro de matcha deve saltar de US$ 340 milhões em 2025 para US$ 790 milhões até 2031, crescimento médio anual de 14,8%. Já dados da Grand View Research indicam que bebidas prontas para consumo (RTD) com matcha já representam cerca de 25% das vendas no país, enquanto os pós tradicionais concentram pouco mais de 50% do mercado.
Ou seja: não se trata apenas de moda. É uma mudança estrutural no perfil de consumo.
Consumo saudável, lifestyle e sofisticação sensorial
Para entender o que explica esse crescimento, conversamos com Fran Micheli, jornalista e especialista em chá, que acompanha o mercado há anos e hoje está à frente da abertura de uma casa especializada.
Segundo ela, o matcha começou a ganhar força no Brasil há cerca de uma década, mas foi durante a pandemia que a busca por bem-estar impulsionou o produto.
“O matcha se tornou uma opção saudável e alternativa ao café para muitas pessoas. Para o público mais jovem, virou também um símbolo de lifestyle, algo ‘instagramável’. Mas estamos falando de uma bebida consumida há milhares de anos, que carrega história, filosofia e cultura.”
Fran observa que o consumidor brasileiro ainda está em fase de descoberta.
“O matcha e o brasileiro se conheceram há pouco tempo. Há muitos caminhos a serem explorados, especialmente na gastronomia. Chefs estão descobrindo o potencial do matcha como ingrediente, assim como aconteceu com o café especial.”
Essa comparação não é por acaso. Assim como o café especial, o matcha está migrando de commodity para experiência sensorial. Origem, terroir, método de cultivo e qualidade passam a influenciar diretamente a decisão de compra.

O que define um matcha de qualidade?
A valorização do produto, porém, traz um desafio: a adulteração.
“Infelizmente, o matcha é um produto que sofre bastante falsificação, justamente por causa da alta demanda e da baixa oferta”, alerta Fran Micheli.
Ela explica que indicadores de baixa qualidade incluem cor acinzentada, amargor desagradável, embalagem transparente, ausência de indicação de origem e preço muito abaixo do mercado.
Atualmente, além do Japão, países como a Coreia do Sul vêm ganhando espaço com matchas de qualidade equivalente. No Brasil, porém, a realidade é outra.
“Pelo que sei, todo o matcha vendido no Brasil é importado atualmente. Ainda não conheço nenhuma iniciativa de produção nacional, mas adoraria ver famílias produtoras testando e oferecendo um matcha com terroir 100% brasileiro.”
Essa fala abre um ponto estratégico para o agronegócio.
Oportunidade para agricultores brasileiros
Embora a produção de chá no Brasil seja pequena e concentrada principalmente no Vale do Ribeira (SP), a presença da Camellia sinensis já existe no país. O desafio está no padrão técnico exigido pelo matcha.
A produção demanda:
- Cultivo sob sombreamento nas semanas anteriores à colheita
- Seleção manual das folhas mais jovens
- Processamento delicado
- Moagem em moinhos de pedra específicos
- Controle rigoroso de qualidade
É um sistema intensivo em conhecimento e mão de obra especializada. Mas, justamente por isso, é também uma oportunidade de agregação de valor.
Em vez de competir por volume, produtores poderiam disputar mercado por qualidade, origem certificada e produção sustentável, dialogando com consumidores que buscam transparência e rastreabilidade.
Matcha como superfood e motor de demanda
O crescimento do matcha está fortemente ligado ao mercado de superfoods. Rico em antioxidantes, especialmente catequinas como EGCG, o produto é associado à saúde cardiovascular, melhora do metabolismo e foco mental.
Fran reforça que a versatilidade é um diferencial estratégico:
“Relatórios globais indicam preferência por menos álcool, menos açúcar e mais busca por origem e transparência. Bebidas geladas com matcha ficam sensacionais, por exemplo.”
Além das bebidas tradicionais, o matcha hoje é utilizado em:
- Sorvetes e sobremesas
- Panificação e confeitaria
- Suplementos naturais
- Cosméticos antioxidantes
- Bebidas energéticas naturais
Essa diversificação amplia o leque de oportunidades dentro da cadeia produtiva.
Desafios técnicos e estruturais
Se por um lado o mercado cresce, por outro a produção exige padrão elevado. O cultivo sombreado aumenta o teor de clorofila e aminoácidos, mas exige investimento em estrutura. A moagem tradicional em pedra é lenta e técnica. A padronização de cor, aroma e sabor é fundamental para competir com o padrão japonês.

Além disso, há o desafio regulatório e de certificação para acessar mercados premium nos Estados Unidos, Europa e Ásia.
O Brasil precisaria investir em:
- Capacitação técnica
- Pesquisa adaptada ao clima tropical
- Certificações internacionais
- Estratégias de marca e posicionamento
Não é uma cultura para massificação imediata. É uma estratégia de longo prazo, baseada em diferenciação.
Sustentabilidade como diferencial competitivo
A demanda por produção sustentável também é central nesse mercado. Consumidores de superfoods valorizam práticas orgânicas, agricultura regenerativa e transparência na cadeia produtiva.
Se o Brasil decidir investir na produção de matcha, poderá integrar:
- Sistemas agroflorestais
- Manejo de baixo impacto
- Certificação orgânica
- Rastreabilidade digital
Esse conjunto fortalece não só a imagem do produto, mas a competitividade internacional.
Perspectivas: nicho, valor e diversificação
O matcha representa um exemplo claro de como o agronegócio pode explorar nichos de alto valor agregado. Em um cenário de margens pressionadas e exigências ambientais crescentes, diversificar culturas com foco em qualidade pode ser uma estratégia inteligente.
O Brasil já demonstrou capacidade de transformar produtos tradicionais em referências globais, como aconteceu com o café especial.
No caso do matcha, ainda estamos no estágio inicial da curva de adoção. O consumo cresce, o mercado se estrutura e a demanda por origem e qualidade aumenta.

A pergunta não é apenas se o Brasil pode produzir matcha, mas se está disposto a investir em conhecimento, tecnologia e posicionamento para disputar esse espaço.
Em um mundo que busca alimentos funcionais, rastreáveis e sustentáveis, o matcha deixa de ser apenas uma bebida e passa a ser um símbolo de uma nova lógica agrícola: menos volume, mais valor.
E você já experimentou o matcha? Se esse universo despertou seu interesse, seja pelo potencial de mercado, pela agricultura de nicho ou pelas oportunidades de exportação, compartilhe este conteúdo nas suas redes sociais.
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