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O agro brasileiro competitivo até quando?

Victor Carvalho
Gerente da Informa FNP

O agronegócio brasileiro tem se destacado nos mercados mundiais. Uma alegada competitividade diferenciada do agro brasileiro estaria na base deste sucesso. Entretanto, notadamente nos últimos três anos, existe um crescente sentimento de que esta competitividade está se erodindo.

Com foco em analisar e fazer breve um diagnóstico desse quadro, a Informa|FNP está iniciando agora uma série de artigos numa tentativa de tornar mais claro se de fato o país está perdendo competitividade, ou se esse sentimento é apenas a expressão das frustrações da sociedade com a profunda crise econômica e política que enfrentamos.

Soja: Logística rouba competitividade do produto brasileiro

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, tendo exportado em 2017 cerca de 68 milhões de toneladas do produto em grão e mais uma quantidade do produto na forma de farelo e óleo. No total, o chamado complexo soja rendeu ao país, através das exportações, um montante de US$ 31,61 bilhões (14,5% das exportações totais do Brasil).

Os maiores competidores no mercado internacional no complexo soja são os Estados Unidos e a Argentina. Fazendo-se uma análise dos custos de produção do grão nos dois países, com o esforço para se expurgar efeitos inflacionários, distorções cambiais e efeitos climatológicos (usando-se como artifício o cálculo da relação de troca com o próprio produto) pode-se observar o seguinte:

  • Os custos de produção da oleaginosa no Brasil vêm crescendo e, reduzindo sua competitividade junto aos EUA. Em relação à Argentina, esta ainda possui os custos de produção mais competitivos entre os três. Porém, vem perdendo tal status em função de intervenções do governo, problemas edafoclimáticos e limitações geográficas;
  • Consideradas as respectivas produtividades médias, os custos de produção no Brasil em média cresceram nos últimos 15 anos. No ano de 2017 os custos subiram pouco mais de 40%, reduzindo assim a competitividade com os EUA. Contudo, mesmo assim o custo médio final no Brasil é ainda aproximadamente entre 10% e 15% inferior ao custo norte-americano, que no período se estima que tenha recuado levemente. É importante salientar que existem importantes variações de custo regionais no Brasil, decorrentes de variações de produtividade, pacote tecnológico adotado, custos logísticos, etc.

Brasil – Safra de Verão e Inverno

  • Uma observação de grande importância tem que ser feita com relação ao Brasil. Para efeito das comparações realizadas, não se consideraram as sinergias que são capturadas quando realizadas duas safras no ano (as chamadas safra e safrinha) e que tem forte impacto em reduzir os custos de produção e manter uma larga competitividade. É indiscutível que a possibilidade da realização de duas safras, no mesmo ano e na mesma área, aumenta significativamente a competitividade dos produtos no mercado. Ainda mais quando se considera que a tecnologia aplicada nestes dois cultivos está se desenvolvendo aceleradamente e permitindo que, não apenas uma proporção maior das regiões produtores adotem a prática, como proporcionando expressivos ganhos de produtividade na segunda safra, principalmente. Muito possivelmente em muitos casos, este fator tem grande importância no continuado estímulo para o crescimento da produção da oleaginosa no país.
  • Os custos logísticos decorrentes da necessidade de disponibilizar a produção nos portos para exportação ou junto aos principais centros de consumo interno continuam sendo o principal “calcanhar de Aquiles” do produto brasileiro. Embora existam muitas diferenças nos custos logísticos, conforme a região de produção e o modal de transporte utilizado, vários estudos apontam que, para o grão de soja que é um produto de relativamente baixo valor agregado, o custo logístico, em muitos casos, anula a vantagem competitiva conquistada dentro da porteira da fazenda, conforme pode ser verificado na figura.

  • Contudo, observa-se que está havendo uma convergência dos custos de produção “dentro da porteira da fazenda” com o avanço da tecnologia no campo. Cada vez mais será necessário atentar para todos os detalhes no gerenciamento da produção agrícola e, assim, conseguir alcançar custos menores em relação a concorrência.

Conclusões e próximos artigos

Por fim, constata-se que a soja e os respectivos produtos exportáveis vêm brasileira vem perdendo competitividade perante os seus principais competidores, fruto da incapacidade de atacar conhecidas ineficiências e da evolução dos competidores em termos de produtividade e contenção de custos. Contudo, o Brasil ainda é bastante competitivo e precisa atacar seus gargalos, principalmente logístico, para continuar ganhando mercado.

No próximo artigo iremos abordar a competitividade do milho e nos artigos seguintes serão tratadas outras culturas como algodão, cana-de-açúcar (açúcar e etanol), café, laranja e celulose.

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